Maisons brasileiras como Vitor Zerbinato e Carol Rossato adotam sistemas digitais para prever custos e integrar processos, mantendo o DNA artesanal.
Nos ateliês de luxo, a narrativa tradicional foca na exclusividade do “feito à mão”. Nos bastidores das principais maisons brasileiras, porém, novas peças nascem de uma combinação afinada entre intuição criativa e algoritmos. Grifes de alto padrão como Vitor Zerbinato e Carol Rossato estão incorporando tecnologias de gestão e produção para otimizar processos, antecipar custos e mitigar riscos, sem abrir mão da essência artesanal.
O movimento espelha uma maturação do mercado de moda nacional, que passa a integrar conceitos de Indústria 4.0 à alta-costura. Em um segmento no qual matérias-primas são cotadas em dólar ou euro, erros na fase de prototipagem (pilotagem) podem representar prejuízos expressivos, tornando o controle de consumo e de tempo um diferencial competitivo.
Vitor Zerbinato: pré-custo digital na alta-costura
Na marca Vitor Zerbinato, que veste celebridades em tapetes vermelhos de Hollywood, a tecnologia funciona como um regulador financeiro do processo criativo. A grife utiliza o sistema Audaces Idea, desenvolvido pela multinacional Audaces, para realizar o pré-custo das coleções antes do primeiro corte de tecido, simulando consumo de matéria-prima e tempo de confecção em ambiente digital.
“O programa permite fazer um pré-custo dos projetos. Assim conseguimos ajustar para chegar em algo inovador e exuberante, mas dentro do que o mercado está disposto a pagar”, explica a diretora executiva da marca, Andrea Sanchez. Segundo ela, a ferramenta possibilita alterar materiais e modelagens ainda na fase de projeto, garantindo que a peça final seja esteticamente impactante e comercialmente viável.
A digitalização também resolve o desafio da preservação do acervo técnico do ateliê. A marca utiliza lousas digitalizadoras para converter modelagens feitas via moulage – quando o tecido é esculpido diretamente no manequim – em arquivos digitais precisos. “Nossos moldes são 100% digitalizados. Isso permite reproduzir a mesma peça quantas vezes forem necessárias com a mesma qualidade, facilitando o entendimento da equipe de montagem”, completa Andrea.
Desfile Vitor Zerbinato. Foto: Divulgação
Carol Rossato: engenharia automatizada para o couro
No segmento de artigos em couro, a Carol Rossato lida com o desafio da irregularidade da matéria-prima orgânica. A solução encontrada pelo ateliê foi separar com clareza o que permanece manual do que pode ser automatizado, preservando o olhar artesanal sobre cada pele.
“O corte do couro permanece manual para respeitar as nuances da pele, mas toda a engenharia ao redor da peça, como grades de tamanhos e fichas técnicas, está sendo automatizada”, explica a estilista Carol Rossato. A marca está em fase de implementação de uma integração total entre o sistema de engenharia de moda Audaces e o ERP de gestão Sisplan, eliminando o retrabalho de dados entre estilo e manufatura.
“A estimativa é que tenhamos uma melhora de 80% na rapidez do processo quando a integração estiver completa”, projeta a coordenadora de estilo da maison, Carolina Leal. A automação da gradação – ampliação dos moldes para diferentes tamanhos – dispensa medições manuais peça a peça e reduz o time-to-market entre a aprovação do desenho e a chegada da peça ao showroom.
Para marcas que trabalham com o calendário apertado do varejo de luxo, essa agilidade na transmissão dos dados técnicos reduz gargalos de produção, diminui desperdícios de insumos e fortalece a consistência das coleções ao longo da cadeia produtiva.
Campanha Carol Rossato. Foto: Divulgação
Tecnologia brasileira como ativo de exportação
A tecnologia adotada por Vitor Zerbinato e Carol Rossato é desenvolvida pela Audaces, empresa brasileira com atuação global em soluções para a indústria têxtil. O cenário aponta para um futuro de alta-costura híbrida, no qual a criatividade, o acabamento e o contato com o tecido permanecem humanos, enquanto gestão de recursos, precificação e logística técnica passam a ser operadas por inteligência de dados.
Ao permitir que ateliês de luxo antecipem custos, dimensionem riscos e organizem seus acervos de forma precisa, esses sistemas digitais se consolidam como um ativo estratégico para a moda brasileira no mercado internacional, sustentando a viabilidade financeira e a competitividade das etiquetas de alto padrão.
Foto: Divulgação


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