A temporada 2026 do Theatro Municipal de SP reúne óperas clássicas e obras contemporâneas, além de concertos, coral, quarteto e balé.
Com a pergunta “o que deixamos para trás quando o mundo, como o conhecemos, colapsa?”, o Theatro Municipal de São Paulo orienta sua programação de 2026 para a ideia de legado. Depois de um 2025 que consolidou mudanças e ampliou a diversidade artística, a nova temporada aprofunda a proposta e convida o público a refletir sobre a condição humana e o que será deixado para as próximas gerações.
Entre os eixos, a temporada reúne ópera com títulos de repertório e montagens de vanguarda, a série de concertos da Orquestra Sinfônica Municipal com foco em como culturas distintas influenciaram a identidade musical brasileira, a celebração de 90 anos do Coral Paulistano, os programas do Quarteto de Cordas da Cidade em formato de diálogos entre compositores e uma agenda do Balé da Cidade de São Paulo voltada a novas criações e ao retorno de um sucesso recente.
Clássicos e estreias na ópera
A temporada de ópera começa com a remontagem de O Amor das Três Laranjas, de Sergei Prokofiev, sucesso de 2022. As récitas acontecem em 27 e 28 de fevereiro, e 01, 03, 04, 06 e 07 de março, em produção concebida por Luiz Carlos Vasconcelos e com direção cênica de Ronaldo Zero, a partir de libreto baseado na peça L’Amore delle tre melarance, de Carlo Gozzi.
A obra flerta com um surrealismo fantástico, em diálogo com a Commedia dell’Arte, ao acompanhar a saga de um rei que tenta curar a melancolia do filho. Ao mesmo tempo, a partitura explora uma musicalidade espirituosa, que transita entre a tradição romântica e referências da música russa.
Na sequência, o Municipal apresenta Intolleranza, de Luigi Nono, descrita pelo autor como azione scenica. As apresentações ocorrem em 29, 30 e 31 de maio e 02, 03, 05 e 06 de junho, com concepção e direção cênica de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. A narrativa acompanha um trabalhador migrante preso e levado a um campo de concentração, em uma criação marcada por técnicas experimentais, com imagens projetadas, texto, filme e sons eletrônicos.
Segundo a programação anunciada, 2026 marca a primeira vez que Intolleranza é apresentada na América Latina, trazendo ao palco do Theatro uma obra decisiva para a renovação artística do século XX.
Em julho, entra em cena Tristão e Isolda, de Richard Wagner, nos dias 22, 26, 29 e 31 de julho e 02 de agosto. Baseada na lenda medieval narrada por Gottfried von Strassburg, a ópera retoma a diretora Daniela Thomas ao palco do Municipal e terá o tenor Simon O’Neill e a soprano Annemarie Kremer como protagonistas.
A trama se constrói em torno da poção de amor ingerida por acaso por Tristão e Isolda, e do conflito que emerge quando o Rei Marke, tio de Tristão e marido de Isolda, descobre a relação proibida. Wagner descreveu a obra como a mais audaciosa de sua vida, expandindo o tonalismo e a harmonia convencional.
Em setembro, Don Carlo, de Verdi, volta ao palco do Municipal após 20 anos sem ser apresentado no Brasil. As récitas acontecem em 18, 19, 20, 22, 23, 25 e 26 de setembro, com Atalla Ayan no papel-título, Luiz-Ottavio Faria como Filipe II e Ailyn Pérez em sua primeira ópera completa no Brasil. A encenação e iluminação ficam a cargo de Caetano Vilela.
Com estreia em 1867, a ópera articula três eixos centrais: o conflito entre Estado e Igreja, o embate entre pai e filho e o contraste entre idealismo e autoritarismo, representados por figuras como o Marquês de Posa e Filipe II.
Nos dias 30 e 31 de outubro e 01, 03, 04, 06 e 07 de novembro, a temporada traz uma double bill que aproxima a curitibana Jocy de Oliveira e Igor Stravinsky. O Theatro Municipal encomenda uma nova ópera a Jocy, celebrando os 90 anos da artista, reconhecida como pioneira da música eletroacústica no Brasil e autora de 11 óperas, incluindo Fata Morgana, primeira ópera composta por uma mulher a ser encenada no Theatro Municipal de São Paulo.
A direção cênica da nova composição de Jocy será assinada por Ana Vanessa, enquanto Georgette Fadel assume Édipo Rei, de Stravinsky, em estreia de ambas como diretoras cênicas no palco do Municipal. A obra de Stravinsky, apresentada como ópera-oratório, estreou em 1927 em Paris e integra o período neoclássico do compositor, em parceria com Jean Cocteau.
Encerrando a temporada de ópera, Andrea Chénier, de Umberto Giordano, entra em cartaz em 27, 28 e 29 de novembro e 01, 02, 04 e 05 de dezembro. Baseada na vida do poeta francês André Chénier, executado durante a Revolução Francesa, a montagem será assinada por Caio Araujo e Carla Camurati.
Orquestra Sinfônica Municipal e identidades culturais
Na série de concertos, a Orquestra Sinfônica Municipal aposta em programas que investigam como diferentes culturas contribuíram para a formação da identidade musical brasileira. A temporada inclui concertos sob regência do maestro titular Roberto Minczuk e de regentes convidados, como a taiwanesa-americana Mei-Ann Chen, o zimbabuano-americano Vimbayi Kaziboni e o compositor e maestro chinês Tan Dun, além de participações do Coral Paulistano, do Coro Lírico e de solistas.
A abertura acontece com Floresta Brasileira, em 23, 24 e 25 de janeiro, com Priscila Bomfim na regência e Hércules Gomes ao piano. O programa reúne Da Terra, de Cibelle Donza, uma obra de Hekel Tavares, Alegres Trópicos: um baile na mata atlântica, de Gilberto Mendes, e Choros nº 10, Rasga o Coração, de Heitor Villa-Lobos.
Em 27 e 28 de março, o concerto Quadros Sinfônicos será regido por Mei-Ann Chen, com Dança de Saibei, de An-Lun Huang, Concerto para Violino nº 1, de Prokofiev, Nymphéa Reflection, de Kaija Saariaho, e a suíte do balé O Pássaro de Fogo, de Stravinsky.
Nos dias 3 e 4 de abril, Roberto Minczuk rege o Concerto de Páscoa, que contará com Reynaldo González Fernández (dançarino afro-cubano) e Alfredo Tejada (cantaor). O programa traz a Paixão Segundo São Marcos, de Osvaldo Golijov, escrita em 2000 para as celebrações dos 250 anos da morte de Bach.
Em 24 e 25 de abril, sob regência de Ricardo Bologna e com Paulo Álvares ao piano, o concerto Arquiteturas do Som foca texturas e estruturas sonoras do século XX. A noite inclui Psappha, de Iánnis Xenákis, o Concerto para piano e orquestra, de György Ligeti, o Concerto para orquestra, de Witold Lutosławski, e Orum, de Marcos Balter.
A temporada também dá continuidade à série de Gustav Mahler. Em 1 e 2 de maio, a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano, sob regência de Roberto Minczuk, apresentam When the World as You’ve Known It Doesn’t Exist, de Ellen Reid, e a Sinfonia nº 8, de Mahler, conhecida como Sinfonia dos Mil.
Já em 8 e 9 de maio, Vimbayi Kaziboni rege o programa contemporâneo Ecos de Berio, com Dreydl, de Olga Neuwirth, He Stretches out the North…, de Hannah Kendal, Your Network is Unstable, de George Lewis, e Sinfonia, de Luciano Berio, para orquestra e oito vozes amplificadas.
Em 24 e 25 de julho, sob regência de Maíra Ferreira, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano apresentam Despertar, com In the swallow, de Caroline Shaw, e Figura humana, de Francis.
Em outro destaque, Tan Dun rege O Mundo de Tan Dun, em programa dedicado à sua própria obra. O compositor ganhou projeção internacional, entre outros trabalhos, pela trilha de O Tigre e o Dragão, vencedor do Oscar em 2001, ao combinar tradição musical chinesa e linguagem orquestral ocidental.
Coral Paulistano completa 90 anos
O Coral Paulistano celebra 90 anos com uma programação que atravessa passado, presente e futuro. A abertura da temporada ocorre em 12 de fevereiro, sob regência de Maíra Ferreira, com foco em música coral brasileira e a estreia mundial de Auto de Todo Mundo e Ninguém, obra de 1981 de Camargo Guarnieri, para coro, solista, narrador e percussão, com texto adaptado por Carlos Drummond de Andrade a partir de Gil Vicente.
Entre os destaques, a Missa Afrossambas será apresentada em 12 e 13 de junho, também com Maíra Ferreira, reunindo a Missa Afro-brasileira de Batuque e Acalanto, de Carlos Alberto Pinto Fonseca, e os Afrossambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes, com peças como Canto de Ossanha, Canto de Xangô e Canto de Iemanjá.
No dia 2 de julho, Maíra Ferreira e Isabela Siscari conduzem um programa voltado à experimentação sonora, com Sound Patterns, de Pauline Oliveros, El sendero ancho, de Tania León, Four Shakespeare Songs, de Jaakko Mäntyjärvi, além de duas versões do mesmo poema de Octavio Paz por Silvia Berg e Eric Whitacre, e obras de Gilberto Mendes e György Ligeti.
Em 24 de setembro, o concerto Renascença Italiana reúne Giovanni Gabrieli, Raffaella Aleotti, Maddalena Casulana, Claudio Monteverdi e Luca Marenzio, sob regência de Maíra Ferreira e Isabela Siscari.
Fechando o ano, em 3 de dezembro, o Coral Paulistano apresenta um programa dedicado à Natividade, com Maíra Ferreira na regência e Renato Figueiredo e Rosana Civile ao piano. O repertório inclui O Magnum Mysterium, de Giovanni Gabrieli, Sechs Sprüche, op. 79, de Felix Mendelssohn, e Lauda per La Natività del Signore, de Ottorino Respighi.
Quarteto da Cidade em série de diálogos
O Quarteto de Cordas da Cidade propõe uma temporada estruturada por diálogos entre compositores de épocas distintas. A estreia da série acontece em 26 de março com Diálogos: Shaw, Mozart e Haydn, reunindo Plan & Elevation (2015), de Caroline Shaw, o Quarteto em Si menor, Op. 33 nº 1, de Haydn, e o Quarteto em Ré menor, K. 421 nº 15, de Mozart.
Em 30 de abril, o programa junta Pärt, Mozart e Haydn, com Summa (1978), de Arvo Pärt, o Quarteto em Mi bemol maior, Op. 33 nº 2, de Haydn, e o Quarteto em Mi bemol maior, K. 428 nº 16, de Mozart.
No dia 28 de maio, Diálogos: Mozart, Haydn e Bingen abre com O Virtus Sapientiae, de Hildegard von Bingen, em arranjo para quarteto de cordas de Marianne Pfau, e segue com o Quarteto em Dó Maior, Op. 33 nº 3, de Haydn, e o Quarteto em Sol Maior, K. 387 nº 14, de Mozart.
Em 20 de junho, Diálogos: Bologne, Mozart e Haydn inclui Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George, com o Quarteto em Sol menor, Op. 1 nº 5, seguido por Haydn (Op. 33 nº 4) e Mozart com o Quarteto em Si bemol maior “A Caçada”, K. 458 nº 17.
A série continua em 20 de agosto com Haydn (Op. 33 nº 5) e Mozart (Quarteto em Sol Maior Primavera, K. 387 nº 14). Em 17 de setembro, Diálogos: Montgomery, Mozart e Haydn traz Strum, de Jessie Montgomery, o Quarteto em Ré Maior, Op. 33 nº 6, de Haydn, e o Quarteto em Lá Maior, K. 464 nº 18, de Mozart.
No dia 22 de outubro, o grupo interpreta Emilie Mayer, Mendelssohn e Schumann, com destaque para o movimento lento do Quarteto nº 2 de Mayer, seguido pelo Quarteto nº 1 de Mendelssohn e o Quarteto nº 1 de Schumann. Encerrando o ano, em 26 de novembro, o repertório reúne Florence Price (movimento Juba do Segundo Quarteto), Brahms (Quarteto nº 1 em Dó menor) e Dvořák, com o Quarteto Americano.
Balé da Cidade investe em novas criações
O Balé da Cidade de São Paulo abre 2026 com uma nova criação de Renan Martins, em 14, 15, 18, 19, 20 e 21 de março. Intitulada Encruzilhada, a obra investiga encontro, conflito e coletividade como práticas de resistência, combinando referências de danças populares brasileiras e movimentos historicamente marginalizados, como footwork, danças de rua e de salão.
A segunda temporada ocorre em 20, 21, 24, 25, 26, 27 e 28 de junho, com nova criação de Andrea Peña e Michelle Moura na Sala de Espetáculos. Andrea Peña revisita raízes latino-americanas sob perspectiva pós-colonial, enquanto Michelle Moura aprofunda pesquisas psicofísicas e de linguagem corporal. A trilha sonora contará com Kaj Duncan David e Rodrigo Lemos, vencedor do Grammy Latino.
Em 15, 16, 18, 19, 21, 22 e 23 de agosto, retorna Réquiem SP, criação de Alejandro Ahmed, diretor artístico da companhia, após o destaque de crítica e público em 2025. Com participação da Orquestra Sinfônica Municipal e do Coral Paulistano, a obra começa com o Requiem, de György Ligeti, e avança para um segundo ato ao som das composições eletrônicas de Venetian Snares, em uma performance com 17 bailarinos e integração de tecnologia, luz, objetos e som.
Foto: Rafael Salvador/Divulgação






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