Com participações de Bixarte, Winnit e MC Lullu, Kaique lança álbum que transforma vivência trans em música e afirma novas narrativas na cena brasileira
Kaique chega com um disco que não pede espaço — ocupa. Em “Me Chame Pelo Meu Nome”, o artista carioca transforma experiências atravessadas por violência, afeto e resistência em um trabalho direto e emocional. O álbum de estreia, com oito faixas, atravessa pop, trap, funk e R&B para afirmar novas presenças na música brasileira.
Mais do que uma introdução de carreira, o projeto se estabelece como um posicionamento. A partir da própria vivência como homem trans, Kaique constrói uma narrativa que trata identidade como algo concreto, vivido no corpo e na memória. Ao mesmo tempo, o disco amplia o olhar ao falar de desejo, amor, raiva e futuro.
Um álbum que nasce da urgência
“Me Chame Pelo Meu Nome” surge em um contexto ainda marcado pela violência contra pessoas trans no Brasil. Ainda assim, o trabalho não se limita à denúncia. Ele avança, tensiona e propõe outras possibilidades de existência — mais complexas, mais humanas e menos reduzidas a estereótipos.
“Eu repetia infinitas vezes que me chamassem pelo meu nome. Eu fiz todo o processo que vocês ordenaram. Eu fui aos juízes, fiz as cirurgias, injetei hormônios, fiz tudo. E eu não deixei de ser eu um segundo sequer nesse país. Eu não sou ‘o trans’, eu não sou ‘ela’, eu não sou o que vocês querem que eu seja. Eu sou o Kaique. Me chame pelo meu nome, ou não me chame”.
A fala do artista sintetiza o eixo do álbum: a reivindicação de identidade como algo inegociável. Cada faixa carrega essa tensão entre dor e afirmação, criando um percurso que mistura vulnerabilidade e força.
Parcerias e construção coletiva
O disco reúne participações de Bixarte, Winnit e MC Lullu, ampliando o caráter coletivo do projeto. Mais do que feats, as colaborações reforçam uma rede de artistas trans que vêm redesenhando a cena urbana brasileira, tanto estética quanto politicamente.
Na produção, Rodolfo Amorim — o RM no Beat — traz sua experiência em hits do funk para dar unidade ao álbum. O resultado é um som que dialoga com o mainstream sem perder densidade narrativa. Ao mesmo tempo, mantém raízes nas periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, territórios que atravessam a construção do projeto.
Reconhecimento antes da estreia
Antes mesmo de chegar ao público, o álbum já sinalizava sua força. Kaique foi o único artista da América do Sul selecionado pelo True Music Fund, iniciativa global da Ballantine’s em parceria com a ONG She Said So. O programa apoia artistas que atuam na interseção entre música, diversidade e impacto cultural.
O reconhecimento internacional reforça o alcance do trabalho, que não se limita ao contexto local. Ele se insere em um movimento mais amplo de transformação da indústria musical, onde novas narrativas começam a ganhar espaço — e a disputar protagonismo.
Da Praça Seca para o mundo
Nascido e criado na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, Kaique construiu uma trajetória que vai além da música. Antes do álbum, atuou como ator e produtor cultural em coletivos como Transarte, Grupo Eureka e Bacuri, além de desenvolver projetos na cena independente.
Essa vivência múltipla aparece no disco. Não só nas letras, mas também na construção estética. O projeto visual acompanha a narrativa sonora ao misturar nostalgia e uma imaginação transfuturista — olhando para o passado enquanto projeta novos horizontes possíveis.
Singles anteriores como “Fim de Semana” e “Melzinho” já indicavam esse caminho. Agora, no formato de álbum, a proposta ganha densidade e continuidade, consolidando uma identidade artística mais ampla.
Os visualizers do projeto podem ser assistidos em:
https://www.youtube.com/watch?v=FrCeJ4bDImM&list=PL3s-7Cr59ZYa1AxDQhiGh3iOiCDWkg5aQ
Entre memória e futuro
Em carta aberta, Kaique dedica o trabalho “a todas as pessoas do mundo que não puderam vislumbrar a beleza de ser elas mesmas”. A frase funciona como chave de leitura para o álbum inteiro. Não se trata apenas de um relato pessoal, mas de um gesto coletivo.
“Me Chame Pelo Meu Nome” não suaviza suas dores nem recua diante do desconforto. Pelo contrário, transforma tudo isso em linguagem, ritmo e presença. É um começo de trajetória — mas já com peso de manifesto.
Serviço
- Álbum: Me Chame Pelo Meu Nome
- Artista: Kaique
- Faixas: 8
- Participações: Bixarte, Winnit, MC Lullu
- Produção: RM no Beat (Rodolfo Amorim)
- Ouça: https://onelink.to/299086096189



