Alta de 70% nas checagens sobre câncer de mama leva SBM a mudar comunicação e criar treinamento inédito para médicos no Brasil
A desinformação sobre câncer de mama cresceu de forma acelerada no Brasil — e os efeitos já são concretos. Em apenas um ano, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) registrou aumento de 70% nas solicitações de checagem de informações, um salto de cerca de 250 para 425 demandas recebidas mensalmente.
O dado acende um alerta em um cenário já delicado. O câncer de mama continua entre as doenças mais incidentes no país. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a previsão é de 78.610 novos casos, cerca de 5 mil a mais do que a estimativa anterior.
Esse avanço não acontece isoladamente. Ao mesmo tempo em que os números da doença crescem, aumenta também o volume de conteúdos imprecisos circulando nas redes e aplicativos de mensagem — muitos deles com potencial de influenciar decisões críticas sobre prevenção, diagnóstico e tratamento.
Quando a informação vira risco
A SBM passou a lidar com uma pressão constante para validar conteúdos que chegam ao público. Na prática, isso significa responder dúvidas, desmentir boatos e esclarecer interpretações equivocadas que se espalham rapidamente.
Para a entidade, o desafio vai além da correção pontual. Trata-se de disputar espaço em um ambiente onde a informação científica precisa competir com conteúdos muitas vezes simplificados, distorcidos ou sem qualquer base técnica.
“Estamos diante de um cenário em que a informação precisa disputar espaço com conteúdos que não têm base científica. Por isso, nosso compromisso é fortalecer uma comunicação que seja, ao mesmo tempo, técnica e acessível, garantindo que a população tenha segurança no que consome”, afirma Daniel Buttros, presidente da Comissão de Comunicação da SBM.
Diante desse contexto, a entidade decidiu reformular sua estratégia de comunicação. O foco agora é ampliar alcance, melhorar a clareza das mensagens e aproximar o conteúdo da realidade das pacientes.
Nova estratégia: mais diálogo, menos ruído
A resposta da SBM passa por uma atuação mais ativa nos canais digitais, além de um relacionamento mais próximo com a imprensa. Mas a mudança mais significativa está no formato.
A entidade passou a investir em conteúdos mais didáticos e acessíveis, além de incluir pacientes no processo de comunicação. Elas participam de vídeos, compartilham experiências e ajudam a traduzir a informação científica para situações reais.
Esse movimento humaniza o debate e amplia o alcance das mensagens, criando uma ponte entre o conhecimento técnico e o cotidiano das mulheres. Ao mesmo tempo, reforça a confiança em conteúdos validados.
Outro ponto central é incentivar médicos mastologistas a adotarem uma linguagem mais clara e direta. A proposta é transformar conhecimento especializado em orientação prática, reduzindo interpretações equivocadas.
Comunicação vira competência médica
Essa mudança ganha um marco importante durante o Congresso Brasileiro de Mastologia, realizado entre 13 e 16 de maio, em Goiânia. Pela primeira vez, o evento inclui um treinamento específico voltado à comunicação médica.
A iniciativa prepara profissionais para atuar de forma ativa no ambiente digital e informacional. Mais do que falar corretamente, o objetivo é saber como, onde e para quem comunicar.
Dentro dessa proposta, grupos de médicos são organizados como influenciadores de informação. Eles atuam como multiplicadores, adaptando linguagem e abordagem conforme o público e a plataforma.
O projeto reúne diferentes perfis: desde catedráticos reconhecidos nacionalmente até médicos jovens e em início de carreira. Essa integração cria um ecossistema diverso e inédito dentro da mastologia brasileira.
“A comunicação passou a ser uma competência essencial para o médico. Não basta dominar o conhecimento técnico, é preciso saber traduzi-lo com clareza e responsabilidade para a sociedade”, reforça Buttros.
A ideia é que esse modelo não fique restrito ao evento. A SBM pretende estruturar uma formação contínua, incentivando que cada vez mais profissionais incorporem a comunicação como parte essencial da prática médica.
Um novo papel para a medicina
Ao transformar um dado preocupante em ação concreta, a Sociedade Brasileira de Mastologia sinaliza uma mudança mais ampla na forma como a medicina se posiciona diante dos desafios atuais.
Em um ambiente saturado de informação, o conhecimento técnico por si só já não basta. É preciso garantir que ele chegue às pessoas de forma clara, confiável e relevante.
No caso do câncer de mama, essa diferença pode impactar diretamente decisões que salvam vidas — desde a busca por diagnóstico precoce até a adesão ao tratamento adequado.
Ao colocar a comunicação no centro da estratégia, a SBM reforça um princípio que se torna cada vez mais evidente: informar bem também é uma forma de cuidado.
Serviço
- Evento: Congresso Brasileiro de Mastologia
- Data: 13 a 16 de maio
- Local: Goiânia (GO)

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