Escrito durante internação, Garrafas ao mar revela a queda e reconstrução de um jornalista diante do alcoolismo e suas consequências
A rotina de um repórter acostumado a apurar histórias foi substituída por tremores, apagões e vômitos diários. É desse ponto de ruptura que nasce Garrafas ao mar, livro de João Paulo Arruda que transforma uma experiência limite em narrativa crua e sem concessões.
O texto foi escrito ao longo de 110 dias de internação em uma clínica no Rio de Janeiro, sem computador, à mão e em tempo real. O resultado é um conjunto de crônicas que expõem não apenas a degradação física e emocional provocada pelo alcoolismo, mas também o lento e incerto processo de reconstrução.
Queda pública e reconstrução íntima
Com passagem por importantes redações cariocas, João Paulo Arruda começou a admitir que precisava de ajuda no início de 2024, aos 48 anos. O corpo já dava sinais claros: crises de sonambulismo, dificuldades para andar e apagões frequentes, tanto em casa quanto na rua.
Apesar de duas internações naquele ano, ele ainda tratava o processo como uma obrigação passageira. A recaída veio acompanhada de consequências diretas: piora no desempenho profissional e a demissão após mais de duas décadas no mesmo jornal.
Mergulhei na depressão e na autopiedade. Fiquei um mês deitado na rede da sacada, bebendo desesperadamente. A essa altura, eu já era conhecido como o bêbado do bairro
O ponto de virada aconteceu quando um amigo e a namorada o levaram para uma nova internação. Dessa vez, não havia mais espaço para negação. O reconhecimento da doença veio acompanhado de uma percepção dura: a morte já rondava de perto.
“Hoje, tenho consciência de que serei alcoólatra para o resto da vida. A doença é tão terrível que, mesmo estando bem, às vezes confundo paz com pasmaceira”, afirma o autor.
Escrever como sobrevivência
Sem acesso a tecnologia, João escreveu todo o livro à mão, acompanhando o desenrolar dos dias dentro da clínica. A limitação acabou se tornando um recurso narrativo poderoso. O texto preserva o olhar atento de repórter, mas agora voltado para dentro.
Ao longo das páginas, ele descreve a rotina da internação e os encontros com outros pacientes. Histórias que atravessam diferentes formas de dependência: álcool, drogas, sexo e jogos — um recorte que revela um fenômeno crescente e multifacetado.
Essa convivência amplia o alcance do livro. Não se trata apenas de um relato individual, mas de um retrato coletivo de fragilidades humanas que muitas vezes permanecem invisíveis.
Entre o fundo do poço e o recomeço
Mais do que documentar a queda, Garrafas ao mar se constrói como um registro de reconstrução. João descreve o processo de reaprender a viver, passo a passo, após perder referências básicas.
O título do livro nasce de uma imagem simbólica: escrever como quem lança mensagens ao mar, sem saber se alguém vai encontrá-las. Inicialmente, não havia intenção de publicação. Era um gesto íntimo de sobrevivência.
Não escrevi os textos imaginando que publicaria um livro. Foi como se eu estivesse jogando garrafas ao mar, uma forma de reconexão comigo mesmo
“Limpo” desde setembro de 2025, o jornalista retoma agora sua carreira com um novo olhar — mais consciente das próprias limitações e das armadilhas que enfrentou.
O livro também dialoga com um público mais amplo. Ao expor sem filtros a experiência do alcoolismo, ele se torna um possível espelho para famílias e indivíduos impactados pela dependência, direta ou indiretamente.
Com lançamento marcado para o dia 28 de maio, na Livraria da Travessa de Ipanema, a obra chega em pré-venda e será distribuída nas principais livrarias do país, além de mais de 20 plataformas digitais em formato e-book.
Serviço
- Lançamento: 28 de maio, quinta-feira, às 19h
- Local: Livraria da Travessa de Ipanema (Avenida Visconde de Pirajá, 572)
- Livro: Garrafas ao mar – Diário de um repórter internado para tratamento de alcoolismo
- Autor: João Paulo Arruda
- Editora: Máquina de Livros
- Páginas: 144
- Preço: R$ 68 (impresso) e R$ 39 (e-book)

