Uma expedição que começou há 200 anos ganha agora novas imagens, vozes e urgências. A mostra Langsdorff 200 transforma a histórica travessia científica pelo interior do Brasil em um potente recorte audiovisual sobre o país contemporâneo — suas tensões ambientais, suas identidades e os desafios que atravessam diferentes territórios.
Realizada pela Documenta Pantanal em parceria com o Instituto Hercule Florence (IHF), a programação acontece entre os dias 17 e 25 de junho, em São Paulo, ocupando o Centro Cultural MariAntonia, o auditório da BBM e o Cinema do IMS. Com curadoria de Mônica Guimarães, a mostra reúne 17 filmes organizados em oito eixos temáticos que exploram relações entre natureza, memória, cultura e transformação social.
Do século XIX ao cinema contemporâneo
A proposta nasce a partir do projeto Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois, que revisita uma das mais ambiciosas incursões científicas já realizadas no Brasil. Liderada por Georg Heinrich von Langsdorff e financiada pelo Império Russo, a expedição partiu de Porto Feliz em 22 de junho de 1826, atravessando rios e territórios ainda pouco conhecidos à época.
Entre os integrantes estava Hercule Florence, responsável por registrar paisagens, espécies e culturas em desenhos e relatos que ajudaram a construir a imagem do Brasil no século XIX. Agora, dois séculos depois, o cinema assume esse papel de observação e interpretação.
“Se no século XIX os viajantes registraram o Brasil por meio de desenhos, diários e aquarelas, hoje o cinema amplia esse gesto, trazendo novas camadas de leitura sobre os mesmos territórios e seus desafios”
A curadora Mônica Guimarães destaca que a diversidade de olhares é central para o projeto, refletindo a complexidade do país e ampliando o debate sobre preservação, desenvolvimento e futuro.
Um Brasil visto por múltiplos eixos
A mostra se estrutura em oito eixos temáticos que funcionam como caminhos possíveis dentro dessa travessia audiovisual. Entre eles estão Expedições e Descobertas, Povos Indígenas, Rios e Travessias, Pantanal Vivo e Cidades e Natureza.
Os filmes percorrem desde territórios amazônicos até paisagens urbanas, revelando conflitos históricos e contemporâneos. Obras como Amazônia Sociedade Anônima, de Estêvão Ciavatta, expõem a luta de indígenas e ribeirinhos contra o desmatamento e a invasão de terras, enquanto Sukande Kasáká | Terra Doente aborda os impactos invisíveis do agronegócio sobre comunidades tradicionais.
Também há espaço para narrativas que atravessam memória e identidade, como 500 Almas, de Joel Pizzini, que resgata a história dos Guatós no Pantanal, e Mãri Hi – A Árvore do Sonho, de Morzaniel Iramari Yanomami, que propõe uma experiência sensorial a partir da cosmologia indígena.
Destaques e encontros entre gerações
A programação reúne nomes fundamentais do cinema brasileiro e produções recentes, criando um diálogo entre diferentes gerações. Filmes de Jorge Bodanzky aparecem como pontos de conexão histórica, como Iracema, Uma Transa Amazônica e Ruivaldo, O Homem Que Salvou a Terra, que abordam transformações sociais e ambientais ao longo do tempo.
Outros títulos ampliam o olhar sobre crises contemporâneas, como Sinfonia da Sobrevivência, de Michel Coeli, que acompanha o impacto dos incêndios no Pantanal, e Segredos do Putumayo, de Aurélio Michiles, que revisita denúncias históricas de violações de direitos humanos com forte ressonância atual.
A sessão de encerramento, no Cinema do IMS, apresenta A Queda do Céu, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, que acompanha o ritual Reahu na comunidade Yanomami Watoriki e reflete sobre a resistência diante de ameaças como o garimpo e as epidemias.
Entre memória, arte e urgência
Integrada a uma exposição em cartaz na BBM-USP até 26 de junho, a mostra amplia o alcance do projeto ao articular diferentes linguagens. Manuscritos de Hercule Florence dialogam com fotografias contemporâneas, criando uma ponte entre passado e presente.
Para Antonio Florence, fundador do Instituto Hercule Florence, a proposta vai além da revisitação histórica.
“Mais do que revisitar uma expedição histórica, a mostra convida o público a uma nova jornada: não mais de descoberta, mas de compreensão. Trata-se de um exercício coletivo de olhar, escutar e imaginar outras formas de convivência com o mundo natural”
O projeto, realizado em parceria com a BBM-USP, o Instituto Moreira Salles e o Centro MariAntonia, propõe justamente esse deslocamento: trocar a ideia de exploração pela de escuta, e transformar o registro em reflexão.
Serviço
- Mostra Langsdorff 200
- Data: 17 a 25 de junho
- Centro MariAntônia — USP | Endereço: Rua Maria Antônia, 294 — Vila Buarque, São Paulo — SP | Horário: terça a domingo e feriados, das 10h às 18h; segundas, fechado
- Instituto Moreira Salles — IMS Paulista | Endereço: Avenida Paulista, 2424 — Bela Vista, São Paulo — SP | Horário: terça a domingo, das 10h às 20h; segundas, fechado
- Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin — BBM-USP | Endereço: Rua da Biblioteca, 21 — Cidade Universitária, São Paulo — SP | Horário: segunda a sexta, das 8h30 às 20h30; sábados, das 9h às 13h; domingos e feriados, fechado


