O encontro entre duas mulheres em trânsito se transforma em uma experiência cênica marcada por humor, tensão e reconhecimento em “DAQUI também me voy”, espetáculo que ocupa a Sala Multiuso do Sesc Copacabana entre os dias 11 e 21 de junho. A montagem parte de uma situação comum — viajar sozinha — para explorar, com comicidade física, as camadas emocionais que atravessam essa vivência.
Contemplada pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, a criação reúne artistas de três países latino-americanos e aposta na linguagem do corpo como principal ferramenta narrativa. A proposta é direta: provocar o riso sem fugir de temas como medo, vulnerabilidade e o constante estado de alerta que acompanha mulheres em deslocamento.
Do estranhamento ao reconhecimento
Em cena, duas figuras opostas se cruzam em um espaço indefinido de chegadas e partidas. Alucinda, interpretada por Cami Basterra, é metódica, desconfiada e obsessiva com organização. Magnolia, vivida por Florencia Santangelo, surge como seu contraponto: expansiva, excêntrica e imprevisível.
É desse contraste que nasce a comicidade. Entre malas que parecem ter vida própria, desencontros físicos e pequenas situações caóticas, o espetáculo constrói uma dinâmica que oscila entre o absurdo e a delicadeza.
Ao longo da narrativa, o que começa como desconfiança se transforma em uma identificação silenciosa. As diferenças dão lugar a um reconhecimento mútuo: ambas carregam o mesmo tipo de medo — aquele que acompanha mulheres que decidem atravessar o mundo sozinhas.
Humor como abertura emocional
A diretora Ana Carolina Sauwen aposta no humor como ferramenta de aproximação. Para ela, o riso não é apenas um recurso estético, mas uma forma de desmontar barreiras emocionais e criar conexão.
O encontro entre duas mulheres pode criar uma possibilidade de abertura e relaxamento diante de um mundo que exige delas um estado constante de alerta.
Essa abordagem permite que o espetáculo transite com naturalidade entre momentos de leveza e situações mais sensíveis. A comicidade física, característica da palhaçaria, surge como um caminho para tratar temas complexos sem recorrer à dramatização tradicional.
“O humor vai funcionando como uma fresta de intimidade. A comicidade tem essa potência de desmontar defesas e criar humanidade”, afirma a diretora.
Vivências que atravessam a cena
A dramaturgia é profundamente atravessada pelas trajetórias das artistas. Florencia Santangelo, uruguaia radicada no Brasil há mais de duas décadas, construiu sua carreira entre os dois países. Já Cami Basterra, argentina, mantém uma rotina itinerante, circulando pela América Latina e Europa com trabalhos ligados ao circo e à palhaçaria.
Essa vivência em constante deslocamento aparece na construção do espetáculo, que evita idealizar a figura da mulher viajante. Em vez disso, traz à tona as negociações internas necessárias para sustentar esse modo de vida.
Ser uma mulher viajante é mais uma evidência do quanto precisamos trabalhar internamente — psíquica e emocionalmente — para nos atrevermos a escolher como experimentar a própria vida.
A fala de Cami Basterra sintetiza o tom da obra: um olhar honesto sobre autonomia, liberdade e os desafios que acompanham essas escolhas.
Latinidade como linguagem e identidade
A conexão entre Brasil, Argentina e Uruguai não está apenas nos créditos da peça. Ela se manifesta na sonoridade, no humor e na própria construção cênica, que mistura português e espanhol tanto no título quanto na encenação.
A trilha sonora reforça essa identidade ao reunir referências como tango, funk, candombe e canções populares latino-americanas, criando um ambiente que dialoga diretamente com a experiência cultural compartilhada entre os países.
Para Florencia Santangelo, essa proximidade cultural vai além da geografia.
Eu sinto que sermos de países irmãos nos faz irmãs também. São culturas muito próximas e um ponto de vista muito especial sobre o mundo.
Esse sentimento se traduz em cena por meio de gestos, pausas e pequenas ações que valorizam o encontro, o olhar e a construção coletiva — elementos que atravessam toda a montagem.
Um espaço de acolhimento em movimento
Mais do que uma narrativa sobre viagens, “DAQUI também me voy” propõe uma reflexão sobre deslocamentos internos. O palco se transforma em um território simbólico onde o encontro com o outro pode gerar pertencimento.
Aos poucos, o espaço de passagem se converte em um lugar de pausa e reconhecimento, onde o riso abre caminho para a construção de vínculos inesperados.
“O espetáculo fala sobre deslocamentos geográficos e emocionais, mas também sobre o alívio de encontrar, no olhar de outra mulher, um lugar possível de pertencimento”, resume Ana Carolina Sauwen.
Com duração de 70 minutos e classificação indicativa de 12 anos, a peça aposta na simplicidade e na poesia para construir uma experiência que equilibra humor e sensibilidade, sem perder de vista a complexidade das vivências que a inspiram.
Serviço
- Espetáculo: DAQUI também me voy
- Data: 11 a 21 de junho de 2026
- Dias e horários: 11 e 12/6, às 19h; 14/6, às 17h; 17/6, às 19h; 18/6, às 15h e 19h (sessão dupla); 20 e 21/6, às 17h — sessões acessíveis em LIBRAS
- Local: Sala Multiuso do Sesc Copacabana
- Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
- Ingressos: R$ 30 (inteira); R$27 (conveniados), R$21 (credencial plena Sesc), R$15 (meia-entrada)
- Classificação: 12 anos
- Duração: 70 minutos
- Bilheteria: terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 14h às 20h
- Informações: (21) 3180-5226
- Venda online: https://ingresso.com/




