O espetáculo VOO 372 chega ao Teatro Armando Gonzaga propondo uma experiência intensa e desconfortavelmente atual: colocar em xeque o valor das aparências em um mundo onde a verdade insiste em emergir. Com estreia marcada para 26 de Junho de 2026, a montagem dirigida por Eliano Lettieri transforma uma viagem aérea em um campo de tensão moral, social e psicológica.
Mais do que um drama de confinamento, a peça se constrói como um retrato direto da cultura contemporânea, marcada pela obsessão por status e pela construção de imagens públicas muitas vezes desconectadas da realidade. Em cena, personagens que representam engrenagens de um sistema onde reputação vale mais do que integridade — até que essa lógica começa a ruir.
Uma viagem onde tudo começa a desmoronar
A narrativa se desenrola dentro de uma aeronave em voo internacional rumo aos Estados Unidos. O ambiente, inicialmente controlado e previsível, vai se transformando à medida que segredos cuidadosamente escondidos começam a vir à tona.
Os passageiros formam um mosaico de figuras que refletem aspectos sombrios do mundo atual: indivíduos ligados a esquemas ilícitos, manipulação social e corrupção financeira. Cada um carrega uma narrativa construída para o mundo exterior — e todos têm algo a perder.
O confinamento físico da cabine intensifica o conflito. Não há para onde fugir, nem como sustentar indefinidamente as versões fabricadas. A tensão cresce de forma progressiva, criando uma atmosfera que mistura suspense psicológico com crítica social direta.
Quando o pouso vira julgamento
O ponto de virada acontece após o pouso da aeronave. Em uma situação imprevista, os passageiros são mantidos isolados na pista, sem acesso ao mundo exterior. É nesse momento que o espaço deixa de ser apenas um avião e se transforma simbolicamente em um tribunal contemporâneo.
Sem o suporte de privilégios sociais, influência política ou poder econômico, os personagens se veem obrigados a confrontar aquilo que tentaram esconder. A dinâmica muda radicalmente: o controle da narrativa deixa de estar nas mãos deles.
A partir desse cenário, o espetáculo tensiona questões centrais do nosso tempo: onde termina a privacidade e começa a responsabilidade pública? Existe espaço para defesa em um contexto de julgamento imediato? E até que ponto a verdade pode ser manipulada antes de colapsar?
Teatro como espelho do presente
Com linguagem dinâmica e forte apelo sensorial, VOO 372 estabelece um diálogo direto com a era da hiperexposição. Em um cenário dominado por redes sociais, fluxo constante de informação e vigilância permanente, a ideia de manter segredos torna-se cada vez mais frágil.
A direção de Eliano Lettieri, com assistência de Beatriz Cunha e preparação corporal de Robert Queiroz, aposta em um ritmo crescente de tensão. O elenco sustenta uma atmosfera que oscila entre o suspense e a crítica, mantendo o público em estado contínuo de alerta.
Essa construção cênica não busca apenas contar uma história, mas provocar reflexão. Ao colocar os personagens em confronto direto com suas próprias contradições, a peça convida o espectador a reconhecer, ainda que de forma incômoda, traços dessa mesma lógica no cotidiano.
Quedas que vão além da ficção
O diretor define a obra como uma narrativa sobre colapsos — não apenas individuais, mas estruturais. A queda aqui não é física, mas moral, social e humana. É o momento em que a construção cuidadosamente mantida deixa de se sustentar.
“É uma história sobre quedas — morais, sociais e humanas. Buscamos lembrar ao público que nenhuma narrativa artificialmente construída é forte o suficiente para sobreviver eternamente diante do peso da verdade. A maior turbulência dessa viagem não acontece no céu, mas na intimidade e no caráter de cada um daqueles indivíduos”.
Essa perspectiva reforça o caráter contemporâneo da montagem. Mais do que uma ficção isolada, VOO 372 se aproxima de um comentário direto sobre a realidade, onde escândalos, exposições públicas e disputas de narrativa fazem parte do cotidiano.
No palco, o impacto não está apenas no que é revelado, mas no processo de revelação. É nele que se constrói a tensão central da obra — e também sua força crítica.
Serviço
- VOO 372
- Texto, Concepção Cênica e Direção: Eliano Lettieri
- Assistente de Direção: Beatriz Cunha
- Preparador Corporal: Robert Queiroz
- Elenco: Daniel Martins, Sheeherazarde, Bruno Azevedo, Karol Silveira, Marcelo Joy, Fabio Calvosa, Leandro Soberano, Saulo Lima e Priscila Forni
- Local: Teatro Armando Gonzaga (Av. Gen. Osvaldo Cordeiro de Farias, 511 – Marechal Hermes, Rio de Janeiro – RJ)
- Data: 26 de Junho de 2026
- Horário: Sexta-feira, às 20h
- Ingressos: R$ 30,00 (Inteira) e R$ 15,00 (Meia-entrada)
- Vendas Online: https://funarj.eleventickets.com/#!/apresentacao/18607cfccba5f3396be54e980aef959bc1388cb6
- Classificação Indicativa: 12 anos
- Duração: 60 minutos
- Capacidade do Teatro: 205 lugares

