Nesta segunda-feira (29), às 14h de Brasília, o Brasil entra em campo em Houston, no Texas, para disputar a primeira fase do mata-mata da Copa do Mundo de 2026 contra o Japão. A seleção brasileira chega ao confronto embalada pela vitória por 3×0 sobre a Escócia, que garantiu a liderança do Grupo C. Do outro lado, um adversário que vai muito além dos animes, da culinária e da tecnologia — um país com histórias, geografias e laços com o Brasil que surpreendem até quem pensa que já sabe tudo.
De um vulcão adormecido que moldou civilizações a um navio russo que uniu dois mundos, passando pela figura lendária de um craque brasileiro que se tornou um deus no oriente, o Japão carrega camadas que tornam esse confronto ainda mais especial. Antes do apito inicial, vale conhecer quatro curiosidades que revelam um lado diferente da terra do sol nascente.
O país que dorme sobre o território mais instável do mundo
Poucos símbolos carregam tanto peso quanto o Monte Fuji. Com seus 3.776 metros, o pico mais alto do Japão não é apenas uma paisagem de cartão-postal: é um símbolo sagrado que vem inspirando artistas e peregrinos ao longo de séculos. “A geografia e a cultura se entrelaçam de forma poética e implacável em solo japonês. O Monte Fuji é a prova viva de que uma montanha pode carregar o peso de séculos de devoção”, explica o professor de Geografia do Colégio Positivo, Eduardo Berkenbrock Lopes.
Mas por trás da beleza há força bruta. O Fuji é um vulcão adormecido, e sua última erupção registrada, em 1707, expeliu 800 milhões de m³ de cinzas, cobrindo vastas áreas e desencadeando deslizamentos, inundações, crise alimentar e problemas de saúde para grande parte da população. Uma lembrança silenciosa de que o arquipélago inteiro repousa sobre o Círculo de Fogo do Pacífico, a região mais instável da crosta terrestre.
Esse contraste entre beleza e perigo define muito da relação dos japoneses com seu território — uma convivência séculos antiga com a fragilidade do chão em que pisam, que moldou sua cultura, sua resiliência e sua forma de encarar o mundo.
Climas para todos os gostos
A geografia japonesa reserva mais surpresas. O país é um arquipélago de mais de 6,8 mil ilhas que se estende por 2,8 mil quilômetros de norte a sul — uma dimensão que poucos imaginam quando pensam no Japão. Essa extensão cria um mosaico climático impressionante, com realidades completamente distintas entre uma ponta e outra do país.
“No norte, Hokkaido, por exemplo, enfrenta invernos rigorosos. Essa região é muito próxima à Rússia e, por isso, já chegou a registrar temperaturas de -41ºC. Enquanto isso, no sul, cidades como Okinawa são conhecidas por seu clima subtropical, com média anual de 22°C, o que mostra os muitos contrastes da geografia local”, pontua Lopes.
Mais de 70% do território japonês são cobertos por florestas e montanhas, tornando o Japão uma das nações mais arborizadas do mundo. Paradoxalmente, a população está concentrada em poucas planícies costeiras, como a de Kanto, onde se situa a megalópole de Tóquio, a capital. Uma nação que escolheu viver espremida entre o mar e as montanhas, num equilíbrio delicado entre natureza e urbanização extrema.
O navio russo que uniu dois países
Quando a primeira grande leva de imigrantes japoneses chegou ao Brasil, em 1908, o navio que os trouxe não era japonês. O Kasato Maru era originalmente um navio a vapor russo, batizado de Kazan, que havia servido como navio-hospital durante a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905). Ao fim do conflito, a embarcação foi entregue ao Japão como parte da indenização de guerra — e, anos depois, cumpriu um destino que ninguém poderia prever.
Foi o Kasato Maru que desembarcou 781 imigrantes japoneses no porto de Santos, inaugurando uma das maiores histórias de imigração da América Latina. Uma embarcação nascida de um conflito entre impérios asiáticos terminou sendo o veículo de um encontro entre culturas que moldaria o Brasil para sempre.
É uma curiosidade que diz muito sobre como a história é feita de acasos. Uma embarcação de guerra russa, que era parte de um conflito asiático, terminou sendo decisiva para a formação de uma das maiores comunidades de imigrantes do Brasil. Um navio que não era nem russo, nem japonês, nem brasileiro, mas que uniu as três histórias.
Quem faz a análise é Juliano Costa, mestre em Educação, licenciado em História e diretor de Produtos e Marketing da Aprende Brasil Educação. Hoje, o Brasil abriga a maior população de descendentes japoneses fora do Japão — e boa parte dessa história começou justamente por esse acaso histórico que começou num conflito a milhares de quilômetros daqui.
Zico, o Deus do Futebol no Japão
Poucos personagens simbolizam a conexão entre Brasil e Japão de forma tão poderosa quanto Zico. Ídolo do Flamengo, tetracampeão brasileiro, vencedor da Libertadores e de um Mundial de Clubes, o craque chegou ao país asiático em 1991 para jogar pelo Kashima Antlers — que, na época, ainda se chamava Sumitomo Metal. O futebol japonês era semi-amador, distante do profissionalismo que já era realidade na Europa e na América do Sul.
Mesmo já aposentado, Zico aceitou o desafio. Atuou como jogador pelo clube até 1994 e ajudou a plantar a semente daquela que viria a ser a J-League, criada em 1993. Mais tarde, assumiu o comando técnico do Kashima e, em 2002, passou a treinar a própria seleção japonesa, cargo que ocupou até 2006. Nesse período, conquistou a Copa da Ásia em 2004 e levou o Japão à Copa do Mundo de 2006.
Mas o legado de Zico vai além dos títulos. Ele introduziu uma mentalidade profissional, uma seriedade tática e uma cultura de trabalho que eram desconhecidas para o futebol japonês. Sua influência foi tão profunda que, até hoje, ele é reverenciado como “Sakka no Kami-sama” — o Deus do Futebol. Sua estátua em frente ao estádio do Kashima é um testemunho permanente de um legado que inspirou gerações de craques japoneses e colocou o país no mapa do futebol mundial.
Ironicamente, é justamente esse Japão que Zico ajudou a construir que agora enfrenta o Brasil no mata-mata da Copa. Uma história que fecha um círculo com toda a poesia que o futebol sabe criar.
Serviço
- Jogo: Brasil x Japão — Copa do Mundo de 2026, primeira fase do mata-mata
- Data: segunda-feira, 29 de junho
- Horário: 14h (horário de Brasília)
- Local: Houston, Texas, Estados Unidos

