(artigo por Fillipe Romero *)
A inteligência artificial deixou de ser uma aposta futura para se tornar realidade nos setores de seguros e saúde, impulsionando mudanças tanto na forma como empresas operam quanto na maneira como consumidores acessam serviços e informações. No Brasil, um levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), divulgado em 2026, mostra que cerca de 80% das seguradoras já utilizam IA em alguma etapa de suas operações. O impacto mais visível está no atendimento ao cliente, onde assistentes virtuais conseguem agilizar respostas, esclarecer dúvidas e até adaptar a comunicação de acordo com o perfil emocional do usuário, tornando a experiência mais personalizada e eficiente.
A transformação acompanha uma tendência global. Em 2025, a implementação de agentes de inteligência artificial nos setores de seguros e saúde cresceu 41% em relação ao ano anterior. Além da adoção pelas empresas, o comportamento dos consumidores também mudou: dados apontam que sete em cada dez clientes já recorreram a ferramentas de IA para pesquisar seguros, comparar coberturas e entender melhor os produtos disponíveis antes da contratação. Ao mesmo tempo, o avanço da tecnologia na área da saúde amplia o acesso à informação e cria novas possibilidades para prevenção, acompanhamento e gestão do cuidado.
Nos Estados Unidos, esse avanço já se consolidou como uma das principais tendências do mercado. Segundo a National Association of Insurance Commissioners (NAIC), entidade que reúne os reguladores estaduais de seguros, 84% das seguradoras de saúde americanas já utilizam inteligência artificial e aprendizado de máquina em atividades como subscrição, processamento de sinistros e detecção de fraudes. O movimento também se reflete no setor como um todo: levantamento da consultoria Conning indica que cerca de 90% das seguradoras do país já avaliam aplicações de IA generativa e mais da metade avançou da fase de testes para algum nível de adoção. Não por acaso, a América do Norte concentra aproximadamente 44% do mercado global de IA em seguros, que ultrapassou US$10 bilhões em 2025.
No setor de saúde, a tecnologia também começa a ganhar espaço principalmente como ferramenta de orientação e triagem inicial. Plataformas digitais já oferecem informações sobre sintomas e cuidados básicos por valores acessíveis, ajudando pacientes a encontrar respostas rápidas para dúvidas simples. O avanço ocorre, porém, sob uma premissa clara: a inteligência artificial deve apoiar profissionais de saúde, e não substituí-los. A recente regulamentação do Conselho Federal de Medicina reforça que diagnósticos, prescrições e decisões clínicas continuam sendo responsabilidade exclusiva dos médicos.
Esse movimento também já apresenta resultados concretos em mercados mais maduros. Nos Estados Unidos, até maio de 2025, a Food and Drug Administration (FDA) havia autorizado mais de 1.200 dispositivos médicos baseados em IA, a maioria voltada para aplicações em radiologia. Os avanços também começam a ser percebidos na prática clínica: estudos recentes mostram que sistemas de triagem assistidos por IA podem reduzir em até 30 minutos o tempo até o início do tratamento de pacientes com AVC, evidenciando o potencial da tecnologia para apoiar decisões médicas e tornar o atendimento mais ágil.
Para que essas aplicações alcancem todo o seu potencial, porém, é necessário que as informações circulem de forma segura e integrada entre os diferentes agentes do sistema de saúde. É justamente nesse cenário que ganha relevância o chamado Open Health, iniciativa inspirada no sucesso do Open Finance. O objetivo é permitir que dados médicos sejam compartilhados de forma segura e padronizada entre hospitais, clínicas, laboratórios e operadoras de saúde, sempre mediante autorização do paciente. O Brasil já possui uma base importante para essa evolução por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma que conecta informações do sistema de saúde utilizando padrões internacionais de interoperabilidade.
A integração de dados é considerada um dos principais fatores para ampliar os benefícios tanto da inteligência artificial quanto da digitalização dos serviços de saúde. Com um histórico médico compartilhado, exames repetidos desnecessariamente podem ser reduzidos, tratamentos ganham continuidade e diagnósticos tendem a se tornar mais rápidos e precisos. Além disso, sistemas inteligentes passam a operar com informações mais consistentes, aumentando sua capacidade de apoiar profissionais e instituições na tomada de decisões.
Os ganhos também podem alcançar seguradoras e operadoras de saúde. O compartilhamento seguro de informações contribui para aprimorar a análise de riscos, fortalecer mecanismos de prevenção a fraudes e viabilizar serviços mais personalizados, alinhados às necessidades de diferentes perfis de clientes. Dessa forma, inteligência artificial e Open Health deixam de representar iniciativas independentes e passam a atuar de forma complementar gerando benefícios não apenas para as empresas do setor, mas para todo o ecossistema de saúde.
Na prática, essa transformação também já faz parte da rotina de desenvolvimento de soluções em grandes grupos do setor. Ao longo da minha atuação em projetos para uma das maiores seguradoras da América Latina, participei da construção de sistemas de atendimento baseados em inteligência artificial, que me permitiu enxergar de perto as duas faces da IA conversacional: de um lado, a melhoria da experiência direta do usuário, marcada por respostas mais rápidas e personalizadas; de outro, a complexidade técnica necessária para que isso funcione em escala, envolvendo integração com sistemas legados, arquitetura robusta e proteção de dados sensíveis.
Em projetos mais recentes voltados ao mercado norte-americano, esse mesmo padrão se repete em um estágio mais avançado de maturidade. Em um ambiente onde a adoção de IA já é ampla tanto em seguros quanto em saúde, o debate deixou de ser sobre implementação e passou a se concentrar em estrutura: dados consistentes, interoperabilidade entre sistemas e governança. Nesse contexto, iniciativas como Open Health e a própria Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) ganham relevância prática, ao evidenciarem que os ganhos prometidos por essas tecnologias dependem diretamente da qualidade e da integração da base de dados que as sustenta. No fim, o impacto da tecnologia é o que aparece na superfície; o que determina seu funcionamento real é o trabalho menos visível de arquitetura, integração e segurança.
Embora desafios relacionados à privacidade de dados, integração tecnológica e coordenação regulatória ainda precisem ser superados, especialistas avaliam que o país possui condições favoráveis para avançar. A combinação entre inteligência artificial, dados estruturados e regras claras de proteção ao cidadão pode abrir caminho para um sistema de saúde mais conectado, eficiente e centrado no paciente, ampliando o acesso à informação, fortalecendo a qualidade do atendimento e impulsionando a inovação nos setores de saúde e seguros.
* Fillipe Romero é engenheiro de software sênior com mais de dez anos de experiência em sistemas críticos de pagamentos (SETIS), IA conversacional em seguros (Bradesco Seguros) e plataformas de dados de aviação (JETNET). Formado em Ciência da Computação (PUC-SP) e MBA em Arquitetura de Soluções (FIAP), atua atualmente no Canadá em projetos voltados ao mercado norte-americano.

