A reconexão entre um filho gay e seu pai conservador virou uma série de retratos que desafia expectativas de masculinidade e celebra o afeto familiar por meio da arte drag.
A experiência íntima de aproximação familiar ganhou visibilidade com a abertura da mostra fotográfica assinada pelo artista visual Danilo Zocatelli, com curadoria de Renato Negrão. A reunião de obras investiga identidade queer, memória e convivência a partir da imagem do próprio pai do artista, João Cesco Filho, caracterizado no universo drag queen em imagens que ganharam repercussão imediata.
Eu não quero te transformar em outra pessoa, porque eu aprendi a te amar e te entender como você é. Eu só quero poder te mostrar como pertenço ao mundo e como me sinto
Homem do campo e de raízes humildes, João esteve presente no espaço cultural para acompanhar presencialmente a reação do público aos retratos em grande formato. O processo criativo serviu como ponte de comunicação entre duas realidades distintas, convidando o genitor a experimentar maquiagem e linguagem performática sem impor rupturas à sua essência.

Memória rural e reconciliação através de cartas
Nascido no interior paranaense antes de fixar residência no exterior, o autor da série lidou na juventude com pressões ligadas ao modelo tradicional de masculinidade. A estrutura narrativa do ensaio apoia-se em trechos de correspondências trocadas com a figura paterna, que também servem como títulos para cada uma das imagens expostas.
O momento decisivo dessa trajetória ocorreu na adolescência, quando a revelação sobre sua sexualidade culminou na afirmação explícita de carinho paterno, quebrando barreiras impostas pela criação conservadora. O trabalho busca justamente documentar esse espaço de aceitação e diálogo mútuo.

Intervenções de corpos dissidentes e cultura ballroom
O evento de lançamento expandiu o debate sobre identidades dissidentes ao integrar intervenções selecionadas via edital. A artista Anuby Messias abriu a noite com reflexões profundas sobre as vivências de indivíduos transexuais, unindo fala reflexiva e performance musical.
Em seguida, PAVUNAGATOPRETO transformou o ambiente expositivo em uma pista dedicada à tradição Ballroom, resgatando a história de celebração e disputa originada por comunidades negras e latinas LGBTQIA+. A coreografia envolveu os visitantes e amplificou as camadas temáticas de pertencimento levantadas pela exposição.

Reconhecimento em circuitos internacionais
Antes de chegar à capital paulista, a série conquistou projeção em mostras e festivais conceituados pela Europa e América do Norte. O projeto passou por instituições como Saatchi Gallery e Institute of Contemporary Arts, em Londres, Rencontres d’Arles, PhotoBrussels Festival e representações diplomáticas no exterior.
A pesquisa visual rendeu ainda a inclusão na iniciativa New Contemporaries e a conquista do prestigiado Dior Photography and Visual Arts Award for Young Talents, consolidando a relevância da pesquisa sobre masculinidades no cenário da fotografia artística contemporânea.

Serviço
- Exposição: Querido Pai, de Danilo Zocatelli
- Curador: Renato Negrão
- Local: O Jardim, galeria de arte
- Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/SP
- Período de visitação: 12 de setembro a 17 de outubro de 2026
- Site: ojardim185.com
- Instagram: @ojardim185


