Entre o horror dos conflitos armados e as descobertas de identidades à margem, o cinema produzido na América Central encontra uma janela inédita no Brasil com uma seleção que desafia apagamentos históricos e reflete dilemas contemporâneos latinos.
A produção audiovisual de seis países localizados na estreita faixa entre o Caribe e o Pacífico desembarca no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ) para oferecer um mergulho narrativo profundo. A partir de 23 de setembro, o público pode acompanhar a mostra gratuita SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA, que expõe obras da Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, regiões escassamente representadas no circuito comercial brasileiro.
Realizar esta mostra no Brasil é mais do que uma aproximação cultural: é um gesto político. Conhecer as histórias dos países centro-americanos significa construir pontes entre imaginários latino-americanos e perceber seus desafios.

A estética da memória e o peso do real
A programação, concebida pela curadora e cineasta hondurenha-brasileira Laura Bermúdez, estrutura-se sobre 16 longas e cinco curtas-metragens que trafegam entre a ficção pura, os relatos documentais e formatos híbridos. As obras utilizam vivências estritamente territoriais para debater angústias universais, evocando o direito à própria história, os reflexos do autoritarismo e a sexualidade cercada por tabus.
O título de abertura, o drama familiar costarriquenho Tengo sueños eléctricos, sob a direção de Valentina Maurel, ilustra a força da região nos grandes polos internacionais, carregando mais de 30 prêmios, incluindo reconhecimentos principais no Festival de Locarno. Na mesma rota de consagração, o guatemalteco La Llorona, de Jayro Bustamante, ressignifica a tradicional figura do horror para personificar as feridas ainda abertas pelos crimes de guerra no país, o que o levou a ser o primeiro representante da região a disputar o Globo de Ouro.
O corpo feminino como território de resistência
O protagonismo das mulheres, tanto nas equipes de direção quanto nos conflitos projetados na tela, revela a urgência de histórias que romperam o silêncio cimentado por gerações. O incisivo documentário de El Salvador Nuestra Libertad, de Celina Escher, acompanha mulheres condenadas a sentenças devastadoras por passarem por emergências obstétricas, desnudando as consequências brutais da penalização do aborto na localidade.
Expandindo os discursos sobre identidades e laços maternos, a ficção Eva, dirigida por William Reyes, promove uma quebra de paradigmas para o cinema de Honduras ao centralizar sua trama em uma matriarca trans. A personagem enfrenta o súbito cuidado da neta enquanto gerencia a dor do luto e a fratura emocional com o próprio filho, marcando a presença de corpos historicamente invisibilizados nas narrativas locais.

Roteiro de exibições: a programação dia a dia
Semana de abertura: choques familiares e heranças indígenas
23/09 (quarta) às 18h30: TENGO SUEÑOS ELÉCTRICOS (Costa Rica/Bélgica/França). Ficção com direção de Valentina Maurel. Contra a vontade da filha adolescente, uma mãe decide reformar a casa, enquanto a jovem procura amparo na figura de um pai desorientado e explosivo.
24/09 (quinta) às 15h: LA PIEL DEL AGUA (Costa Rica/Chile). Sessão acessível. Após um acidente deixar sua mãe em coma, Camila enfrenta o caos emocional de morar com uma nova família enquanto busca refúgio no primeiro amor. Às 17h: TODOS LOS PECES (El Salvador). Documentário ficcional sobre a busca incansável de Lucia pelos irmãos desaparecidos nos arredores do Lago Coatepeque.
25/09 (sexta) às 18h30: BILA BURBA (Panamá). O registro da Revolução Dule de 1925, que garantiu a autonomia do povo indígena Gunadule através da resistência ao governo panamenho.
26/09 (sábado) às 14h: TENGO SUEÑOS ELÉCTRICOS. Às 16h: Masterclass “Um olhar para os cinemas da América Central”, com a curadora Laura Bermúdez. Às 18h30: Sessão de Curtas com Solo La Luna Comprenderá (Costa Rica/EUA), Liremu Barana (Guatemala), Oscurana (Honduras/Hungria/Portugal/Bélgica), El Pescador (Honduras) e Tierra de Leche (Nicarágua).
27/09 (domingo) às 15h: LA PIEL DEL AGUA. Às 17h: MEMORIAS DE UN CUERPO QUE ARDE (Costa Rica/Espanha). Ficção que entrelaça memórias de três mulheres na faixa dos 70 anos em torno dos tabus da sexualidade feminina de gerações passadas.
Silêncios do Estado e vozes femininas
28/09 (segunda) às 17h: BILA BURBA.
30/09 (quarta) às 17h: EL SILENCIO DEL TOPO (Guatemala). Documentário sobre um jornalista que atuou como espião no interior de um governo repressivo. Às 18h45: Debate “Cinema documentário centroamericano”, com Laura Bermúdez e Maria Campaña Ramia.
01/10 (quinta) às 18h: NUESTRA LIBERTAD (El Salvador). A jornada incansável de Teodora Vásquez e do grupo Las 17 contra as sentenças criminais absurdas.
02/10 (sexta) às 18h: LA LLORONA (Guatemala). O espírito de uma mulher assassinada assombra um general aposentado e expõe as fraturas de um genocídio impune.
03/10 (sábado) às 16h: HEREDERA DEL VIENTO (Nicarágua). Documentário de Glória Carrión Fonseca revendo seu passado familiar durante a Revolução Sandinista. Às 18h: TODOS LOS PECES.
04/10 (domingo) às 15h: ROZA (Guatemala/México). O complexo retorno de um imigrante rejeitado por sua comunidade após anos de ausência. Às 17h: 90 MINUTOS (Honduras). Vidas entrelaçadas pelos dilemas da sociedade e a fuga através do esporte.
Identidades trans, meio ambiente e diálogos com o fim
05/10 (segunda) às 17h: PATRULLAJE (Nicarágua). Documentário expondo a devastação ambiental de reservas indígenas por criadores ilegais de gado.
07/10 (quarta) às 18h: LUMINOSO ESPACIO SALVAJE (Panamá/Espanha). A jornada interna de um cineasta investigando territórios inexplorados como forma de lidar com o luto de seu pai.
08/10 (quinta) às 17h: EVA (Honduras). Sessão comentada pela professora Maria Celina Ibazeta. As barreiras rompidas por uma avó trans tentando costurar o vínculo emocional com seu pequeno neto.
09/10 (sexta) às 18h30: TENGO SUEÑOS ELÉCTRICOS (Sessão inclusiva com legendas descritivas).
10/10 (sábado) às 16h: HEREDERA DEL VIENTO. Às 18h: MEMORIAS DE UN CUERPO QUE ARDE.
11/10 (domingo) às 15h: Sessão de Curtas (Solo La Luna Comprenderá, Liremu Barana, Oscurana, El Pescador, Tierra de Leche). Às 17h: EVA, acompanhado de sessão comentada.
Reta final: museus pessoais e busca pela verdade
12/10 (segunda) às 15h: PARA SU TRANQUILIDAD, HAGA SU PROPIO MUSEO (Panamá). Documentário retratando o universo poético e imortal de Senobia Cerrud, que transformou a própria casa em um antiquário. Às 17h: 90 MINUTOS.
14/10 (quarta) às 18h: LUMINOSO ESPACIO SALVAJE.
15/10 (quinta) às 18h: NUESTRA LIBERTAD.
16/10 (sexta) às 18h: PARA SU TRANQUILIDAD, HAGA SU PROPIO MUSEO.
17/10 (sábado) às 16h: ROZA. Às 18h: NUESTRAS MADRES (Guatemala). A imersão em julgamentos militares através do olhar de um jovem antropólogo forense no encalço de seu pai desaparecido.
18/10 (domingo) às 15h: EL SILENCIO DEL TOPO. Às 17h: LA LLORONA.
19/10 (segunda) às 17h: PATRULLAJE.

Serviço
- Mostra SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA
- Local: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março 66, Centro)
- Data: De 23 de setembro a 19 de outubro de 2026
- Atividades: 21 filmes, debate, masterclass, sessões comentadas e inclusivas
- Entrada: Gratuita (ingressos disponíveis a partir das 9h do dia da exibição na bilheteria ou no site bb.com.br/cultura)
- Contato: (21) 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br




