Com obras de 16 artistas visuais de diferentes gerações, a mostra coletiva ocupa uma residência histórica nos Jardins para investigar o impacto das relações humanas através de instalações, tecnologias analógicas e acervos históricos raros.
Logo na entrada do espaço expositivo, a recepção aos visitantes não parte de uma equipe convencional ou de mediações guiadas tradicionais. O primeiro contato ocorre diante de Maria, uma escultura-móvel humanoide concebida pela artista carioca D’Anunziata. Estruturada a partir de movimentos coreografados de forma prévia, sem o uso de inteligência artificial ou modelos de aprendizado de máquina, a criatura mecânica atua no limiar entre a presença escultórica e a ação performática.
Maria surgiu do desejo de criar uma presença localizada entre o humano e o não humano. Ela não foi feita para nos obedecer ou oferecer respostas.
A provocação inicial introduz a sexta edição da Mostra Contemporâneas Vivara, intitulada “Que afeto é esse?”. O projeto, viabilizado por meio da Lei Rouanet com realização da Tête-à-Tête e do Ministério da Cultura, reúne uma curadoria difusa conduzida pela diretora artística Stefania Dzwigalska, em colaboração conceitual com D’Anunziata, consultoria artística de Marc Pottier e programação paralela assinada por Giuliana Bergamo ao lado da Casa do Saber.

Fotografia parisiense de 1921 e diálogos históricos
Entre os núcleos de maior densidade histórica do percurso, a mostra exibe um registro fotográfico raro de Tarsila do Amaral (1886–1973), capturado em Paris em 1921, meses antes das articulações que culminaram na Semana de Arte Moderna de 1922. A imagem original, preservada desde 1972 por um amigo pessoal da pintora modernista, foi cedida especialmente para a montagem e serviu como ponto de partida conceitual para um trabalho inédito desenvolvido pela artista Thix, focado nos regimes de representação do corpo e arquivos queer.
A genealogia modernista ganha densidade com a presença de peças de Maria Martins (1894–1973). Suas esculturas em bronze, marcadas por figurações orgânicas e tensões mitológicas que circularam ao lado das vanguardas surrealistas em Nova York e Paris, contrastam diretamente com propostas imersivas de artistas da cena internacional, como a sérvia Marina Abramović, a holandesa Janet Vollebregt e a argentina Graciela Sacco (1956–2017).

Intervenções espaciais e tecnologia interativa
A arquitetura do imóvel na Rua Groenlândia foi convertida em suporte estrutural ativo para as criações. A artista conceitual Regina Silveira apresenta a intervenção sonora e visual “Moscaglia”, desenvolvida para alterar a percepção das paredes laterais do imóvel a partir de jogos gráficos de perspectiva e desfamiliarização ótica do ambiente doméstico.
Na confluência entre arquitetura e ambiente digital, o duo formado por Raquel Kogan e Rejane Cantoni concebeu uma instalação sensorial onde espelhos móveis, códigos de comunicação e luzes reagem à pisada e à passagem física do público, transformando o espectador no articulador direto das variações da sala.
O elenco de criadoras conta ainda com as pesquisas têxteis de Sonia Gomes, as sobreposições materiais de Karen de Picciotto, os retratos manipulados de Helena Martins-Costa, além de produções de Leandra Espírito Santo, Maria Fernanda Paes de Barros, Mercedes Lachmann e Nazareth Pacheco, abrangendo desde reflexões sobre a virtualização corporal até investigações sobre ancestralidade e matéria.
Serviço
- Exposição: Que Afeto É Esse?
- Abertura: 23 de setembro de 2026
- Período de visitação: 23 de setembro a 25 de outubro de 2026
- Local: Casa Conteúdo
- Endereço: R. Groenlândia, 1089, Jardim Europa – São Paulo
- Horários: Terça a sexta-feira, das 11h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h
- Entrada gratuita (reserva de ingressos pelo site)
