A combinação de ventos constantes, esportes náuticos e preservação ambiental consolidou o litoral cearense na rota do mercado europeu, fazendo com que visitantes internacionais representassem cerca de 45% do público de pousadas da região e movimentassem toda a cadeia econômica local com estadias prolongadas.
O peso do viajante da Europa nos resultados globais do setor reflete diretamente no fluxo registrado em destinos do Ceará como Jericoacoara e Praia do Preá. Segundo levantamento divulgado pelo Visual Capitalist, o turismo internacional movimentou mais de US$ 2 trilhões em 2025, sendo que o continente europeu liderou os gastos de visitantes internacionais ao concentrar US$ 835 bilhões, o equivalente a mais de 40% do volume total entre as regiões analisadas.
Nas pousadas Vila Kalango e Rancho do Peixe, que integram o Grupo e*, milhares de clientes vieram do exterior ao longo do ano passado. Dentro dessa fatia de cerca de 45% de hóspedes internacionais, os viajantes da França tiveram participação expressiva, respondendo por quase 30% do total de estrangeiros recebidos pelos dois empreendimentos.
O francês chega muito motivado pelo kite e pelas condições de vento que encontra aqui, mas percebemos que existe também uma identificação forte com a proposta das pousadas. É um público que valoriza natureza, preservação e empreendimentos que procuram reduzir seu impacto. Para ele, sustentabilidade faz parte da experiência de viagem e não fica separada da escolha da hospedagem
A análise é de Paolo Piatti, sócio do Grupo e*, que aponta a união entre vocação esportiva e consciência ambiental como o diferencial de Preá e Jericoacoara perante o mercado europeu. Embora as condições naturais para a prática do kitesurf, do wingfoil e do windsurf sejam o chamariz inicial, o contato direto com a natureza e a relação dos meios de hospedagem com o entorno têm peso decisivo na escolha do visitante.

Estadias de até 20 dias espalham recursos pelo comércio local
O perfil do turista europeu que desembarca na região caracteriza-se pela longa permanência. Há hóspedes que ficam por até 20 dias no destino, mesclando a rotina de esportes movidos pelo vento com gastronomia e vivências no território.
Essa integração mais longa com o destino amplia o alcance econômico das viagens. Em vez de ficar restrito à diária de hotelaria, o gasto do visitante estrangeiro distribui recursos por uma rede de negócios locais, beneficiando escolas e instrutores de esporte, restaurantes, serviços de transporte, passeios e o comércio da região.

Preservação ambiental como ativo econômico e reconhecimento internacional
Para continuar atraindo um público exigente que busca temperaturas elevadas, extensa faixa de praia e vento constante, a conservação da paisagem deixou de ser apenas uma pauta socioambiental e passou a operar como um ativo econômico.
Na prática, essa diretriz molda a arquitetura e a operação dos empreendimentos locais:
- No Rancho do Peixe, as áreas construídas ocupam somente 8% de um terreno com mais de 60 mil metros quadrados, preservando a maior parte da área original.
- Cerca de 90% das mais de 100 vagas de trabalho do Rancho do Peixe são preenchidas por moradores da própria região.
- Na Vila Kalango, todos os 59 coqueiros que existiam originalmente no terreno foram mantidos e integrados ao desenho arquitetônico, preservando a harmonia com a paisagem de Jericoacoara.
Esse modelo de operação rendeu às duas pousadas a conquista da Certificação B Corp, concedida pela organização internacional B Lab após avaliação de critérios como governança, desempenho ambiental e social, relação com trabalhadores, comunidade e clientes. A Vila Kalango obteve 93,7 pontos e o Rancho do Peixe atingiu 97 pontos, tornando-se as únicas pousadas do Ceará com o selo e passando a integrar um grupo restrito da hotelaria nacional.
Para Silmara Ambrósio Américo, CEO do Grupo e*, o selo valida uma estratégia focada em crescer no mercado externo sem descaracterizar o destino. “Receber cada vez mais visitantes estrangeiros é importante para a economia da região, mas queremos que esse crescimento aconteça preservando justamente aquilo que faz essas pessoas atravessarem o oceano para chegar até aqui. A Certificação B Corp reconhece uma forma de gestão em que resultado econômico, impacto social e cuidado ambiental precisam caminhar juntos”, conclui a executiva.
