A clássica dúvida sobre a traição feminina dá lugar a um confronto direto sobre controle, violência de gênero e disputas narrativas na nova montagem que ocupa os palcos cariocas.
O dilema que atravessa gerações na literatura ganha uma leitura incisiva na adaptação concebida pelo Grupo Teatral Caparaó. Em vez de se ater à tradicional pergunta sobre a suposta infidelidade que atormenta o narrador de Dom Casmurro, a montagem conduzida pelos atores Bruna Frari e Danyel Sueth investiga as dinâmicas de poder e as fissuras de um discurso construído sobre o controle absoluto da memória alheia.
Vivemos em uma sociedade onde se torna cada vez mais urgente o debate sobre os direitos das mulheres; a garantia de proteção à vida; e o combate à violência de gênero, à misoginia e ao machismo. Revisitar um clássico, refazer questionamentos e aprofundá-lo na contemporaneidade é algo mais que oportuno, necessário. A ideia é subverter, questionar e dialogar com os anseios de agora

O direito de narrar a própria versão
A produção desembarca no Teatro Dulcina com o aval de reconhecimento no cenário teatral capixaba, acumulando distinções como o troféu de melhor espetáculo no 10º Prêmio Super da Cultura Capixaba e sete láureas no 26º Festival Nacional de Teatro de Guaçuí. O roteiro, estruturado de maneira fragmentada, estabelece uma fricção constante entre o relato romanceado e a realidade vivenciada pela figura feminina.
Dar corpo a essa perspectiva exigiu da intérprete uma imersão direta no peso simbólico da figura machadiana. A composição procura desarticular visões preconcebidas e sustentar no palco uma mulher cuja voz se recusa a ser meramente descrita pelo olhar externo, confrontando de maneira aberta os excessos da obsessão ciumenta.
Desafio porque é um clássico que faz parte do nosso imaginário e delicioso porque é tão significativo dar vida a uma mulher autêntica, inteligente e forte. Capitu foi um presente.

Música ao vivo e experimentação em cena
A atmosfera cênica é pontuada pela execução de uma partitura musical ao vivo, assinada por Renan Silveira na guitarra, Marcos Tadeu no baixo e Ronnie Silveira na bateria. O ritmo instrumental atua como termômetro dos descompassos emocionais vivenciados pelos protagonistas, intensificando a carga dramática dos diálogos e monólogos.
Criado em 2010 na cidade de Alegre, no Espírito Santo, o coletivo mantém como premissa a união entre pesquisa cênica, integração audiovisual e temáticas sociopolíticas urgentes. A temporada, que se estende ao longo do mês de 1º de outubro a 18 de outubro, conta ainda com a presença especial da atriz Milena Paiva em datas pré-determinadas.
Serviço
- Espetáculo: Capitu e Bentinho
- Local: Teatro Dulcina (Rua Alcindo Guanabara, 17 – Cinelândia)
- Temporada: 1º a 18 de outubro de 2026 (não haverá sessão no domingo, dia 4 de outubro)
- Horários: de quinta a sábado, às 19h; domingos, às 18h
- Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
- Vendas digitais: sympla.com.br/capituebentinho
- Duração: 90 minutos | Classificação indicativa: 14 anos
- Informações institucionais: @grupoteatralcaparao e www.grupoteatralcaparao.com.br
