A fusão entre tecidos crus, sobreposições cromáticas e desenho ganha escala monumental na primeira exposição individual de Andre Barion na capital paulista, marcando uma década de trajetória do artista com obras inéditas e diálogo histórico.
A costura deixa de ser um mero suporte artesanal para assumir o papel de pensamento pictórico estruturado. Ao ocupar o segundo andar e o mezanino da Galeria Estação, o artista visual Andre Barion apresenta a exposição individual Toda minúcia, sob a curadoria de Amanda Tavares e texto crítico elaborado pelo arquiteto e pesquisador Omar Porto. O projeto consolida uma pesquisa técnica focada na tensão entre a rigidez dos moldes e a fluidez do gesto plástico.
Mais do que operar entre linguagens, Andre Barion trabalha justo no espaço em que essas fronteiras deixam de ser estáveis. No caso dele, uma linguagem acontece dentro da outra, e o que se produz não é exatamente uma fusão, mas uma zona de trânsito na qual os procedimentos permanecem reconhecíveis ao mesmo tempo em que, juntos, produzem efeitos inesperados.

A desconstrução da matéria têxtil
O processo técnico desenvolvido no ateliê dispensa o uso convencional da tela pronta. Barion adquire rolos extensos de tecidos industriais crus — variando entre jutas, algodão e brim —, pinta metragens inteiras desses materiais e fragmenta a superfície em retalhos que operam como uma paleta cromática física. Esses fragmentos passam por costura, sobreposição contínua e reaproveitamento como estênceis, sobre os quais veladuras revelam graduações de luz e textura.
Na leitura crítica de Omar Porto, essa metodologia insere o artista em uma vertente que evoca procedimentos históricos do recorte e da linha, dialogando conceitualmente com legados nacionais de nomes como Arthur Bispo do Rosário, Leonilson e Brígida Baltar. O fio atua na composição gráfica ao mesmo tempo em que a densidade do tecido estabelece o relevo e a profundidade de cada peça.
Formatos murais e trânsito de motivos
A produção selecionada concentra 22 obras criadas entre 2025 e 2026, revelando um recorte focado no momento contemporâneo de criação. A escala varia desde trabalhos intimistas, a exemplo de A visão da crisálida (33 x 43 cm), até painéis de dimensão arquitetônica, como A caçada da sereia (140 x 290 cm) e Onde a alva dança (220 x 290 cm). A convivência entre diferentes proporções evidencia um jogo visual pautado pela continuidade temática.
Elementos figurativos e conceituais atravessam séries distintas sem fronteiras rígidas. Mariposas e insetos noturnos percorrem telas como Pegando borboletas e Catando borboletas, pescando flores. Em paralelo, a familiaridade do artista com a modelagem do vestuário surge em composições como Shorts com padrão azul e Na risca do jeans, desaguando em imagens ligadas a redes marítimas e capturas.

Encontro geracional e acervo histórico
Fundada por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp, a galeria reforça com a mostra a ponte entre a vanguarda e a tradição não-erudita. Simultaneamente à exibição principal, o espaço inaugura a sala Cardosinho: Acervo Especial, reunindo oito pinturas recém-adquiridas de José Bernardo Cardoso Júnior (1861-1947), que se somam a outras três obras do pintor autodidata já preservadas pela instituição.
Com visitação agendada entre 6 de outubro e 28 de novembro de 2026, a programação reúne produções datadas de 1931 a 1947 do mestre luso-brasileiro — reconhecido pelo MoMA e pela Tate —, estabelecendo uma conversa silenciosa sobre minúcia, detalhe manual e persistência do gesto artístico.
Serviço
- Exposição: Toda minúcia, de Andre Barion (curadoria de Amanda Tavares; texto de Omar Porto)
- Mostra paralela: Cardosinho: Acervo Especial
- Abertura: 6 de outubro de 2026, às 18h
- Período de visitação: de 6 de outubro a 28 de novembro de 2026
- Local: Galeria Estação (2º andar e mezanino)
- Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros, São Paulo
- Funcionamento: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h
- Telefone: (11) 3813-7253
- Site: www.galeriaestacao.com.br
