Com cinco indicações ao Prêmio Shell de Teatro após passagens aclamadas por duas capitais e uma temporada em Buenos Aires, o solo concebido por Matheus Macena retorna aos palcos cariocas para confrontar feridas históricas do país sob a ótica dos trabalhadores.
Duas curtas passagens de estreia bastaram para que o solo escrito, dirigido e interpretado pelo ator carioca Matheus Macena conquistasse público e crítica, assegurando cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro. Vencedor do troféu de Melhor Ator em 2024 por “Musical Pré-Fabricado”, de Michel Melamed, Macena agora figura duplamente na mesma categoria de atuação, concorrendo pelas temporadas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A produção concorre ainda em Melhor Dramaturgia, Melhor Música com Pedro Nego e Melhor Cenário com Bidi Bujnowski.
O que essas grandes premiações representam é a continuidade e a manutenção de um trabalho que começou independente, autoral, sem patrocínio e dentro de uma linguagem contemporânea. Eu espero mesmo que essas cinco indicações deem para nossa peça uma boa e longa expectativa de vida!
A reestreia na capital fluminense acontece em 09 de outubro, no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, onde o monólogo cumpre temporada até 1º de novembro. A nova etapa carioca foi pensada para dialogar com o período eleitoral, reforçando o compromisso político da montagem ao abordar o movimento estudantil e a repressão de Estado em um momento decisivo de ida às urnas.

A colisão entre documento e fabulação poética
Ao se autodirigir em seu primeiro monólogo, o artista examina o ciclo das tragédias brasileiras e suas reincidências. No palco, a narrativa confronta os fatos sobre a execução de Edson Luís de Lima Souto, jovem estudante secundarista morto pela ditadura militar em março de 1968, com especulações ficcionais acerca do que poderia ter sido a trajetória de seus familiares. A trilha sonora executada ao vivo na guitarra por Pedro Nego costura a encenação e conduz as modulações dramáticas.
A gênese da montagem ocorreu um dia após a execução da vereadora Marielle Franco. O artista notou que exatamente cinquenta anos separavam os episódios de violência contra Marielle, em março de 2018, e Edson, em março de 1968. A constatação serviu de alerta sobre a repetição histórica e a urgência de retomar a narrativa desse jovem para repensar o presente.
Para construir a obra, Macena realizou uma imersão documental de meses na Biblioteca Nacional, revirando jornais de época, notas marginais e matérias censuradas. Contudo, o dramaturgo percebeu que o registro factual precisava ser ampliado pela via artística, buscando na poesia um caminho para conferir dignidade humana a personagens marginalizados.

O protagonismo dos migrantes e a memória de base
Diferente de abordagens tradicionais que centralizam a militância de classe média escolarizada durante os anos de chumbo, “Edson” opta por esmiuçar a história da família Lima Souto partindo de Belém do Pará até o Rio de Janeiro. A trama resgata a luta contra o analfabetismo e as privações severas enfrentadas pelo jovem, que viveu em situação de rua e prestou serviços de limpeza no Restaurante Calabouço antes de ser alvejado em uma mobilização por alimentação estudantil.
Para além da repressão política que desembocou no endurecimento da censura e na decretação do AI-5 após a histórica Passeata dos Cem Mil, o espetáculo aponta a violência estrutural do apagamento imposto a jovens negros, indígenas e retirantes no país. Ao trazer Pai, Mãe, Irmã e Edson como um espelho alegórico popular, o trabalho propõe uma discussão aprofundada de representatividade assentada na densidade subjetiva e psicológica.
A passagem por São Paulo repetiu a lotação da estreia fluminense e abriu espaço para debates com sobreviventes da tortura e da censura, consolidando o solo como um rito de passagem profissional para o ator, que já acumula passagens marcantes no teatro com peças como “Caranguejo Overdrive” e “Veias Abertas 60′ 30′ 15′”, além de trabalhos no cinema e na televisão.

Serviço
- Espetáculo: “EDSON”
- Temporada: 09 de outubro a 1º de novembro de 2026
- Horários: Sexta-feira e Sábado às 20h, Domingo às 19h
- Ingressos: R$ 35 (meia-entrada) | R$ 70 (inteira)
- Vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/126722
- Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa
- Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824 – Ipanema – Rio de Janeiro
- Telefone: (21) 2523-9794
- Classificação indicativa: 16 anos
- Duração: 75 minutos
- Instagram: @edson.espetaculo

