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Curta brasileiro expõe silêncio sobre escravidão

Premiado e exibido na Europa, filme brasileiro questiona o apagamento histórico da escravidão em Portugal e estreia no Amazônia FIDOC

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O curta Não São Águas Passadas chega ao Amazônia FIDOC com uma proposta direta: confrontar o silêncio histórico sobre a escravidão em Portugal. Dirigido pela paraense Viviane Rodrigues, o filme investiga como esse apagamento ainda molda desigualdades no presente.

Filmado em território português e produzido pela BR153 Filmes, o projeto nasce de uma inquietação pessoal da diretora. Ao percorrer cidades marcadas pela presença africana, a obra revela uma ausência incômoda: a falta de reconhecimento público sobre o papel de Portugal no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Memória apagada em espaços visíveis

Ao longo de Não São Águas Passadas, monumentos, ruas e construções revelam uma história que raramente é nomeada. Embora esses espaços carreguem marcas da exploração colonial, faltam placas, registros e narrativas oficiais que contextualizem sua origem.

Essa ausência, segundo o filme, não é casual. Pelo contrário, reflete uma escolha histórica de silenciamento que ainda reverbera. Assim, o curta evidencia como a falta de reconhecimento contribui para a permanência de desigualdades sociais, racismo e xenofobia.

“O comércio de pessoas escravizadas é tratado como tabu, como se fosse apenas um ‘efeito colateral’ dessa expansão.” — Viviane Rodrigues

Vozes que conectam passado e presente

A narrativa ganha força com a participação de Naky Gaglo, guia togolês radicado em Lisboa. Por meio de seu trabalho com a African Lisbon Tour, ele revela camadas invisibilizadas da presença africana na cidade.

Além disso, a artista brasileira Bia Ferreira contribui com sua perspectiva contemporânea. Conhecida por sua atuação como artivista, ela amplia o debate ao conectar memória histórica com lutas atuais contra racismo, feminismo e LGBTfobia.

A trilha sonora, assinada pela banda Metá Metá, reforça esse diálogo. Com forte influência afro-brasileira, o grupo traduz em música a ideia central do filme: não existe identidade brasileira sem a herança africana.

Produção independente e escolha coletiva

Realizado sem apoio institucional, o curta foi financiado com recursos próprios de Viviane Rodrigues e do produtor Brunno Constante. Ainda assim, a produção mobilizou uma equipe majoritariamente brasileira.

Um dos pontos mais marcantes foi a decisão consciente de envolver profissionais brancos em uma perspectiva antirracista. Dessa forma, o projeto assume um caráter coletivo, reforçando a responsabilidade compartilhada na construção de novas narrativas.

Para a diretora, o cinema tem papel essencial nesse processo. Segundo ela, registrar e questionar a história é também uma forma de transformação social.

“A escravidão não é uma página virada se não foi devidamente lida.” — Viviane Rodrigues

Reconhecimento e trajetória internacional

Desde sua estreia, Não São Águas Passadas tem circulado por diferentes espaços culturais e acadêmicos. O filme conquistou o segundo lugar do Júri Popular no festival Revoluções Curtas, em 2025, o que impulsionou sua presença internacional.

Além disso, foi exibido em eventos no Brasil e em Portugal, incluindo sessões em Lisboa e Niterói. No meio acadêmico, tornou-se ferramenta de debate em cursos ligados à história da arte e comunicação intercultural.

Agora, a obra se prepara para um momento simbólico: sua exibição no Amazônia FIDOC, em Belém. Para Viviane, retornar à cidade onde cresceu representa mais do que uma estreia — é um reencontro com suas origens.

Reflexão que ultrapassa o cinema

Mais do que documentar, o curta propõe um questionamento direto: como as sociedades escolhem lembrar — ou esquecer — sua própria história? Ao abordar a escravidão não como passado encerrado, mas como processo ainda ativo, o filme amplia o debate para o presente.

Assim, Não São Águas Passadas se consolida como uma obra que une arte, pesquisa e posicionamento político. Entre imagens, vozes e música, o filme constrói uma experiência sensível que desafia o público a encarar feridas ainda abertas.


Serviço

Curta brasileiro expõe silêncio sobre escravidão
Foto: Pedro Barros
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