O 15º Olhar de Cinema chegou ao fim consagrando dois filmes que concentraram a atenção da Mostra Competitiva Brasileira e sintetizam a força artística da edição: o cearense “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques, e o alagoano “Olhe Para Mim”, de Rafhael Barbosa. Enquanto o primeiro levou o Prêmio Olhar de Melhor Filme e o troféu de Melhor Atuação para Verônica Cavalcanti e Luciana Souza, o segundo saiu com três vitórias importantes, em Melhor Direção, Melhor Som e Melhor Direção de Arte.
O anúncio dos premiados fecha uma edição que reuniu 80 filmes de todo o mundo em Curitiba, entre estreias nacionais e mundiais espalhadas pelas diferentes mostras do festival. Nas competitivas, o panorama apresentado foi amplo: longas e curtas brasileiros disputaram os principais troféus nacionais, enquanto a seleção internacional também premiou obras que atravessam fronteiras geográficas e estéticas.
Os destaques da Competitiva Brasileira
Na principal disputa brasileira do festival, “Olhe Para Mim” foi o título que mais acumulou prêmios entre os longas. Dirigido por Rafhael Barbosa, o filme venceu Melhor Direção para o próprio cineasta, Melhor Som para Lucas Coelho e Melhor Direção de Arte para Nina Magalhães. A produção se apresenta como uma fantasia alegórica inspirada no imaginário popular que margeia o Rio São Francisco, combinando atmosfera mística e travessia íntima.
O enredo acompanha Marcelo, que ainda convive com o desaparecimento da mãe dez anos depois da grande festa religiosa em que ela sumiu. Na véspera de uma nova celebração, ele conhece Sandra e seu filho Ivan, dois viajantes misteriosos que despertam fascínio imediato. A partir daí, a jornada do personagem avança por uma fronteira perigosa, reservando encontros com seres místicos e experiências transcendentes.
Se “Olhe Para Mim” foi o longa mais premiado em número de troféus, “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” alcançou o prêmio mais simbólico da mostra: o Prêmio Olhar de Melhor Filme. Dirigido por Janaína Marques, o longa ainda garantiu o reconhecimento de Melhor Atuação para Verônica Cavalcanti e Luciana Souza, consolidando o peso da interpretação na construção da obra.
No filme, Rosa está cercada pelo zumbido hipnótico de uma máquina de ressonância magnética quando recebe a instrução de pensar em um momento feliz da vida. É dentro dessa odisseia subconsciente que ela reencontra a mãe, Dalva, e passa a inventar com ela memórias que nunca existiram. A proposta dá ao longa um eixo emocional forte e, ao mesmo tempo, um terreno fértil para lidar com ausência, imaginação e reconstrução afetiva.
Outros longas premiados
“Adulto/Homem”, com direção de Pedro Diógenes, levou o prêmio de Melhor Roteiro. O filme se constrói como um plano sequência que acompanha 20 atores à espera de um teste de elenco, partindo de uma situação simples para explorar expectativa, tensão e exposição em tempo real.
Já “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans, foi reconhecido em duas frentes técnicas centrais: Melhor Montagem, para Affonso Uchoa, e Melhor Fotografia, para João Dumans. A produção retrata um grupo de amigos em um pequeno distrito minerário do interior do Brasil, cercado pelo tédio, pela falta de oportunidades e pelo álcool como companhia constante nas noites e nos dias.
Os curtas brasileiros vencedores
Entre os curtas-metragens da Competitiva Brasileira, o Prêmio Olhar de Melhor Filme foi para “Pirexia”, de Nico da Costa. O curta acompanha Baby, um rockstar em ascensão atormentado por uma febre que o impede de criar músicas novas. Quando recebe uma ligação de Pepeu, ex-companheiro musical e ex-amante, os dois decidem compor uma última canção juntos: uma melodia de cura e ressurreição a ser tocada em uma noite de lua de sangue.
O Prêmio Especial do Júri foi para “Pinguim de Doce de Leite”, de Ana Vitória Miotto Tahan. O filme acompanha futuras lembranças que vão se formando em uma noite goiana qualquer, quando Caju, uma criança de 10 anos, vive sua primeira madrugada em claro nos fundos da casa da avó ao lado dos amigos do tio Tiago, um jovem rebelde.
Já o Prêmio do Público de curta-metragem ficou com “Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid?”, de Gustavo Caboco Wapichana. O filme propõe uma reflexão sobre Macunaíma, personagem de Mário de Andrade que completará 100 anos em 2028, e suas relações com raízes indígenas, em especial com o povo Wapichana.
A seleção internacional também premiou obras de forte identidade
Na Mostra Competitiva Internacional, o Prêmio Olhar de Melhor Filme foi para “Um Calendário Incompleto”, de Sanaz Sohrabi, uma coprodução entre Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu e Venezuela. O longa parte de um vinil pouco conhecido dos anos 1980, “Rhymes and Songs for OPEC”, gravado pelo coro da Universidade Central da Venezuela para marcar os 20 anos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.
Combinando canções e arquivos raramente vistos, o filme redefine o petróleo não como mercadoria, mas como alavanca política para as lutas de libertação na Palestina e para a construção da solidariedade pan-árabe entre 1960 e 1970. O prêmio confirma o espaço que o Olhar de Cinema abre para obras que articulam linguagem cinematográfica e leitura histórica em escala internacional.
O Prêmio Especial do Júri foi para “Bouchra”, de Orian Barki e Meriem Bennani, coprodução entre Itália, Marrocos e Estados Unidos. A animação acompanha uma coiote marroquina de 35 anos em Nova York, que documenta o relacionamento à distância com a mãe, em Casablanca, enquanto as duas exploram amor, dor e segredos por meio de ligações e conversas íntimas.
Curta internacional e prêmio do público
Entre os curtas internacionais, o Prêmio Olhar de Melhor Filme foi para “Dragão”, de Yashira Jordán, coprodução entre Bolívia e México. O filme apresenta Dragón Rojo e Puma Punku, dois adolescentes abandonados e perdidos em uma cidade boliviana, que se tornam viciados em um videogame retrô chamado Dragon para escapar de uma realidade marcada pelo trabalho no mercado com as tias e pelo tédio.
No voto popular entre os longas, o vencedor foi “Se Pombos Virassem Ouro”, de Pepa Lubojacki, uma coprodução entre República Tcheca e Eslováquia. A obra acompanha uma mulher que explora a luta geracional de sua família contra o alcoolismo a partir de uma perspectiva profundamente pessoal, misturando imagens documentais, ritmo, texto e imagens aprimoradas por IA para compor um retrato honesto e compassivo dos impactos do vício.
Novos Olhares, Abraccine e prêmios paralelos ampliam o mapa da edição
Na Mostra Novos Olhares, o Prêmio Olhar de Melhor Filme foi para “Como Todo Mortal”, de Maria Molina Peiro, coprodução entre Espanha e Países Baixos. O longa se passa em um planeta distante, onde um robô procura sinais de vida, enquanto, a anos-luz dali, uma das minas mais antigas do mundo revela sob toneladas de resíduos de mineração um ecossistema situado entre exploração e explotação, em uma paisagem entre Andaluzia e Marte.
O Prêmio Abraccine de Melhor Longa-Metragem Brasileiro ficou com “Reparação”, de Marcus Curvelo. O filme acompanha Marcus no dia em que completa 35 anos, em busca de um lugar no litoral com a mãe para espalhar as cinzas do pai. Quando ela adoece, ele passa a sentir que o sal do mar onde o pai descansa corrói lentamente a sua vida. Além do reconhecimento da crítica, “Reparação” recebeu Menção Honrosa no 15º Olhar de Cinema.
Na categoria de curta-metragem, o Prêmio Abraccine ficou com “Disciplina”, de Affonso Uchôa, reforçando a presença de diferentes gerações e propostas do cinema brasileiro contemporâneo entre os títulos destacados nesta edição.
Prêmios com incentivo direto às obras
A Associação de Vídeo e Cinema do Paraná – AVEC – PR premiou “Tornar-se Ciborgue no Interior”, de Louisa Sauvignon, da Mostra Mirada Paranaense Sanepar, com o Prêmio AVEC-PR – Lu Rufalco. Além do troféu, o filme recebe R$5 mil oferecidos pela Sanepar. A produção gira em torno de Leo e Julia, proprietários de um sítio que querem ter filhos, mas enfrentam problemas de fertilidade, até a chegada de Ava e Mia, um casal lésbico que se muda para o sítio vizinho e cria tensão com os moradores ao redor.
Também na Mirada Paranaense Sanepar, “Estrelas Terrestres”, de Rafael Neri M. Ferreira, recebeu o Prêmio Itaú Cultural Play. O filme receberá R$ 15 mil, com o recebimento condicionado ao licenciamento da obra para a plataforma Itaú Cultural Play por um período de 24 meses.
O Prêmio Cardume de Curtas foi para “Marimbã Está Acontecendo”, de Maryn Marynho. O reconhecimento, promovido pela plataforma Cardume, prevê contrato de licenciamento exclusivo de um ano e o valor de R$3 mil para o melhor curta-metragem da Mostra Competitiva Brasileira, pelo Júri Cardume. O filme percorre o pensamento de Marimbã e seus diversos sonhos através das águas, tecendo relações de afeto para corpos dissidentes em um vislumbre de futuro possível.
Já o Prêmio Canal Brasil de Curtas foi entregue a “O Segredo Sagrado”, de Everlane Moraes. A escolha foi feita por um júri formado pelos jornalistas Henrique Nascimento, da Rolling Stone, Paulo Ernest, do Adoro Cinema, e Josianne Ritz, do Bem Paraná. No filme, duas tribos inimigas esperam há séculos pela grande revelação do segredo sagrado.
Um festival que mobiliza o cinema brasileiro e internacional
A 15ª edição do Olhar de Cinema reuniu 80 filmes de diferentes partes do mundo e distribuiu seus prêmios a partir de um corpo de jurados formado por nomes de áreas diversas do audiovisual e da reflexão crítica. Nos longas da Mostra Competitiva, o júri foi composto pelo cineasta e roteirista Bruno Costa, pela antropóloga cultural e curadora de cinema Jacqueline Nsiah, por David Montenegro, gestor cultural, curador de cinema e artista, por Janaina Oliveira, pesquisadora de cinema e curadora independente, e por Saravy, atriz brasileira contadora de histórias no cinema e no teatro.
Nos curtas-metragens da Competitiva, a avaliação ficou a cargo de Juliana Rojas, roteirista, diretora e montadora, Layla Braz, produtora e curadora de festivais de cinema, e Pablo Mazzola, programador e consultor para projetos cinematográficos. Os três também julgaram os títulos da Mostra Novos Olhares, ampliando o alcance da avaliação sobre diferentes formatos e propostas da programação.
O festival é realizado com recursos da Lei Rouanet, com patrocínio master do Terminal de Contêineres de Paranaguá e patrocínio de Peróxidos do Brasil, Mili, Itaú, Fomento Paraná e Sanepar. A edição também contou com apoio da Cinemateca, Teatro da Vila, Cine Passeio, Icac, Projeto Paradiso e Uninter, além de apoio cultural do MON. O projeto ainda foi realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba, da Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba, e aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE, da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná.
Serviço
- 15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
- Data: 4 a 13 de junho
- Site oficial: www.olhardecinema.com.br
- Instagram: www.instagram.com/Olhardecinema
- Facebook: www.facebook.com.br/Olhardecinema
- Tik Tok: @olhardecinema
- X/Twitter: @Olhardecinema_
- Produção: Grafo Audiovisual
- Patrocínio Master: Terminal de Contêineres de Paranaguá
- Patrocínio: Itaú, Peróxidos do Brasil, Mili, Fomento Paraná e Sanepar
- Apoio: Teatro da Vila, Cine Passeio, ICAC – Instituto Curitiba de Arte e Cultura, Fundação Cultural de Curitiba, Prefeitura Municipal de Curitiba, Projeto Paradiso e Uninter
- Apoio Cultural: MON
- Incentivo: Fundação Cultural de Curitiba, Prefeitura de Curitiba, Secretaria da Cultura, Profice e Objetivos de desenvolvimento sustentável
- Realização: Ministério da Cultura – Governo Federal – Do lado do povo brasileiro
- Projeto realizado com recursos da Lei Rouanet.
- Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná.
- Projeto realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba – Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.



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