Ícone do site Aurora Cultural

A peça que expõe a ditadura chega ao Teatro Poeira

fd a c fcb

Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, estreia no Rio em 30 de abril com Eric Lenate e Fernando Billi no palco do Teatro Poeira.

Um refugiado polonês. Um ex-torturador varguista. Dez minutos para provar quem é. Essa é a premissa de Novas Diretrizes em Tempos de Paz, texto de Bosco Brasil que volta aos palcos em uma nova montagem, agora com temporada carioca no Teatro Poeira, em Botafogo, de 30 de abril a 28 de junho de 2026.

Um duelo de memórias e humanidades

A história se passa em abril de 1945, com a Segunda Guerra Mundial chegando ao fim. Clausewitz (Eric Lenate) desembarca no porto do Rio de Janeiro sem documentos, sem pertences e falando português fluentemente. Isso desperta a desconfiança de Segismundo (Fernando Billi), oficial da alfândega e ex-torturador da polícia política do Estado Novo. Sem um salvo-conduto, Clausewitz será mandado de volta no mesmo cargueiro. Mas Segismundo propõe um desafio inusitado — e começa um embate que confronta os dois homens com suas memórias mais sombrias.

A direção é de Eric Lenate, em codireção com Vitor Julian, com direção de produção de Mauricio Inafre. O espetáculo estreou nacionalmente na 17ª FITA – Festa Internacional de Teatro de Angra, em agosto de 2025, onde venceu o Prêmio FITA 2025 de Melhor Cenário (Eric Lenate). A montagem também recebeu indicações nas categorias melhor espetáculo, melhor direção, melhor ator (Eric Lenate), melhor trilha sonora (L. P. Daniel) e melhor iluminação (Aline Sayuri e Eric Lenate). Lenate ainda foi indicado ao Prêmio APCA 2025 de melhor ator.

Um clássico que atravessou fronteiras

Montada pela primeira vez em 2002, sob a direção de Ariela Goldmann, a peça ganhou os Prêmios Shell e APCA daquele ano e foi traduzida para diversos idiomas. Houve montagens em Portugal, Itália, Argentina, Porto Rico, Uruguai, Chile e México. O texto também foi adaptado para o cinema no longa-metragem Em Tempos de Paz (2009), dirigido por Daniel Filho e estrelado por Tony Ramos e Dan Stulbach.

A potência política do texto

Ao colocar frente a frente um refugiado da guerra europeia e um algoz do regime varguista, Bosco Brasil confronta o mito do Brasil como país pacífico e acolhedor. A peça aproxima dois contextos marcados pela violação sistemática de direitos humanos — a Segunda Guerra Mundial e o Estado Novo — e convoca uma reflexão sobre memória, barbárie e o papel da arte diante do horror.

A tensão dramática expõe os mecanismos de subjugação humana presentes tanto no fascismo europeu quanto na estrutura política autoritária brasileira. Mais do que uma reconstituição histórica, o espetáculo coloca em jogo a dificuldade de converter o horror extremo em testemunho dotado de sentido — e questiona o papel (im)possível da arte no mundo que emerge da barbárie.


Serviço

Sair da versão mobile