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A peça que expõe o que o amor interracial ainda custa

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“aCordoAmor” estreia dia 1º de maio em São João de Meriti com entrada gratuita e enfrenta de frente o preconceito racial nas relações amorosas contemporâneas.

Até que ponto alguém se anula para permanecer em um relacionamento? A pergunta não é retórica. Ela é o ponto de partida de “aCordoAmor”, espetáculo inédito que estreia no dia 1º de maio no Instituto Cultural Cerne, em São João de Meriti, com entrada gratuita. A peça parte da vivência de um casal interracial para desnudar preconceitos que ainda hoje moldam — e muitas vezes destroem — relações afetivas no Brasil.

A iniciativa nasceu de uma inquietação da atriz Jessica Obaia, que convidou os autores Aza Njeri e Rei Black para escreverem um texto sobre as dinâmicas interraciais contemporâneas, analisadas sob perspectiva histórica e estrutural. Com direção e adaptação de Vilma Melo, o espetáculo é contemplado pelo edital Fluxos Fluminenses e produzido pela Cia Águia, com direção de produção de Leandro Fazolla e Rohan Baruck.

Um casal, uma redação, um espelho

Em cena, Jessica divide o palco com o ator Saulo Segreto. Os dois interpretam um casal que trabalha junto em uma emissora de TV, apresentando um telejornal. Mas o que acontece quando as câmeras se apagam é o verdadeiro território da peça: os desafios pessoais, sociais e familiares que emergem de uma relação marcada pela diferença racial — e também socioeconômica.

A diretora Vilma Melo não esconde a complexidade do que está em jogo. “Até que ponto essa relação interracial se sustenta? Como e por que ela se estabelece? Há um fator socioeconômico muito forte que separa esses dois mundos. Nesse caso, a mulher vem de uma situação financeira mais confortável. Ela é uma mulher negra, o que vai ao encontro a todos os estereótipos que vemos por aí. O fato de ela ser mulher também é um incômodo. Então, também levantamos questões sobre diversos preconceitos, como o relacionado a relações do mesmo sexo, entre outros. A peça pode provocar inúmeras reações, dependendo de quem está assistindo”, afirma.

Mais de 200 livros e um cenário que muda com a trama

Um dos elementos mais marcantes da encenação é o cenário assinado por Cachalote Mattos: mais de 200 livros que os próprios atores empilham e reorganizam ao longo do espetáculo, criando novas formas e novos significados à medida que a relação avança. É uma escolha visual que diz muito sobre o quanto as narrativas que carregamos constroem — e limitam — o modo como enxergamos o outro.

A direção de movimento de Fernanda Dias completa esse jogo, alternando entre momentos de intimidade e conexão e instantes de desentendimento e falta de empatia. O corpo em cena conta o que as palavras nem sempre conseguem.

Vivências reais como matéria-prima

O texto não parte do zero. Vivências pessoais do elenco e acontecimentos reais são usados como base para construir uma narrativa que aproxima o público dos temas abordados. A linguagem é direta, sem condescendência: a peça propõe questionar e desconstruir os estereótipos historicamente construídos em torno do homem branco como centro da sociedade.

Desmistificar a escravidão, a limitação e a repetição que estão impregnadas nas pessoas é crucial, mas, infelizmente, esses desafios persistem e até se intensificam com o tempo. A mera convivência não é garantia de menos preconceito. Houve uma ruptura brutal em nossa história, um apagamento que precisamos encarar de frente, pois uma parte significativa das pessoas desconhece essa narrativa oculta. É necessário cultivar a escuta atenta para reparar esses equívocos. Olhar para o que foi apagado nos permite reconstruir nossa identidade de maneira mais completa e justa. Apenas assim poderemos romper com as correntes do passado e construir um futuro mais inclusivo e humano.

Jessica Obaia, atriz e idealizadora de “aCordoAmor”

Após a estreia em São João de Meriti, o espetáculo percorre outros dois municípios da Baixada Fluminense, reforçando o compromisso da produção com a descentralização cultural na região.


Serviço

A peça que expõe o que o amor interracial ainda custa
Foto: Higor Nery
A peça que expõe o que o amor interracial ainda custa
Foto: Higor Nery
A peça que expõe o que o amor interracial ainda custa
Foto: Higor Nery
A peça que expõe o que o amor interracial ainda custa
Foto: Higor Nery
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