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A ponte japonesa de 1673 que desafia a física da madeira

A ponte japonesa de 1673 que desafia a física da madeira

Sem pregos ou parafusos, a técnica kigumi sustenta estruturas por séculos. A Japan House SP mostra como — e deixa o público tocar os encaixes.

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Existe uma forma de construção que une madeira à madeira sem qualquer fixação metálica. Nenhum prego, nenhum parafuso, nenhuma ferragem. O que mantém tudo no lugar é a precisão milimétrica do corte e a inteligência do encaixe. Essa é a essência do kigumi — e é o que a Japan House São Paulo traz ao público a partir de 5 de maio de 2026, com entrada gratuita.

A exposição “Imbuídos das forças das florestas do Japão – KIGUMI: revelando a carpintaria por trás da junta de madeira” ocupa o segundo andar da instituição na Avenida Paulista até 2 de agosto. Ela é a segunda e última etapa de um projeto que começou em 2025, quando a Japan House explorou o universo dos carpinteiros japoneses, suas relações com a floresta e os mestres responsáveis por templos, santuários e casas de chá.

Mais de cinquenta encaixes que contam séculos de história

O curador Marcelo Nishiyama, diretor associado do Takenaka Carpentry Tools Museum, no Japão, selecionou mais de 50 tipos de encaixe para a mostra. Chamados também de tsugite-shikuchi — “emendas e entalhes”, em tradução livre —, esses sistemas vão muito além da simples junção de peças. São considerados uma tecnologia sofisticada que equilibra resistência, durabilidade e estética ao mesmo tempo.

Ao longo dos séculos, essa técnica se desdobrou em diferentes formas. O kumiko, treliça refinada em madeira, tem raízes no período Kamakura, do final do século XII. O sashimono foi aperfeiçoado durante o período Edo, entre 1603 e 1867. E o kumimono, estrutura complexa que sustenta tetos sobre pilares, é apresentado na exposição por meio de uma reconstrução baseada em exemplares do templo Engaku-ji, fundado no século XIII em Kamakura.

A ponte que ficou de fora de Los Angeles e Londres

A versão de São Paulo é diferente das anteriores. A mostra passou pela Japan House de Los Angeles, em 2024, e pela de Londres, em 2025. Mas chegou à capital paulista com um elemento inédito: a reprodução parcial da Ponte Kintaikyō, uma das obras mais emblemáticas da engenharia em madeira japonesa.

Construída originalmente em 1673, a ponte utiliza um sistema em arco capaz de sustentar um vão de 36 metros sem pilares intermediários — uma solução rara, especialmente executada em madeira, já que estruturas desse porte são tradicionalmente feitas em pedra. A peça exposta em São Paulo foi produzida especialmente para esta etapa do projeto.

A precisão das juntas para o encaixe perfeito resulta em alta durabilidade e solidez, alcançadas graças à sustentação gerada entre as partes. A funcionalidade e a estética são igualmente importantes e, na maioria das vezes, não é possível visualizar as juntas. Na exposição, não somente é possível vê-las como também testar sua impressionante eficiência.

Marcelo Nishiyama, curador da exposição e diretor associado do Takenaka Carpentry Tools Museum

Para ajudar o visitante a compreender o que sustenta aquela estrutura, a exposição oferece um recurso interativo que permite “desmontar” digitalmente a ponte — camada por camada — revelando os princípios que garantem sua estabilidade ao longo de séculos.

Tocar para entender

Outro diferencial da mostra está nas mesas com encaixes que o público pode manipular livremente. A ideia é revelar o que normalmente permanece oculto nas construções — a lógica interna da junta — por meio da experiência sensorial direta. Não basta ver: é preciso sentir a resistência e a precisão do encaixe para compreender por que essa técnica sobreviveu por tantos séculos.

Para Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da Japan House São Paulo, o conjunto das duas etapas do projeto cria uma imersão que vai além do visual. “A busca pelo constante aperfeiçoamento, a valorização do trabalho manual e a contínua transmissão desse conhecimento são essenciais para entender o Japão como grande referência na carpintaria”, afirma.

Palestra com o mestre da Ponte Kintaikyō

Antes mesmo da abertura oficial, no dia 3 de maio, a Japan House recebeu o mestre carpinteiro Kumetsugu Ebizaki para uma palestra sobre a Ponte Kintaikyō. Ebizaki foi responsável pela reconstrução mais recente da ponte, realizada entre 2001 e 2004, e trouxe ao público a perspectiva de quem participou diretamente da obra. O evento foi híbrido, com transmissão pelo canal do YouTube da JHSP, tradução simultânea japonês-português e interpretação em Libras.

Na data de abertura, 5 de maio, o curador Marcelo Nishiyama conduziu visitas guiadas às 14h e às 16h, apresentando os principais núcleos da exposição com tradução simultânea e Libras.

Acessibilidade integrada à experiência

A mostra integra a iniciativa JHSP Acessível, com conteúdos multilíngues via QR code, vídeos, textos em Libras, audiodescrições e objetos táteis. A proposta reforça o compromisso da instituição de tornar a experiência cultural disponível ao maior número possível de pessoas.


Serviço

A ponte japonesa de 1673 que desafia a física da madeira
Foto: Divulgação
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