Artista restaurou 80 cruzes de acidentes fatais antes de fotografá-las. “daBeira do Caminho” encerra no domingo (3/5) no Serro, com entrada gratuita.
Antes de fotografar uma única cruz, Tiago Aguiar as restaurava. Esse gesto — concreto, silencioso e carregado de sentido — está no centro da exposição “daBeira do Caminho”, em cartaz no Museu Regional Casa dos Ottoni, no Serro (MG), até este domingo, dia 3 de maio.
A mostra nasceu de um mapeamento feito pelo artista ao longo das rodovias entre Serro e Belo Horizonte, onde identificou cerca de 80 cruzes erguidas em locais de acidentes fatais. Cada uma dessas marcas virou ponto de partida para um trabalho que transita entre fotografia, vídeo e performance.
Uma promessa de vida nas beiras de estrada
Irmão do Rosário e dançante catopê de Nossa Senhora do Rosário do Serro, Tiago Aguiar não chegou a esse tema por acaso. A devoção moldou o método. Antes de cada registro fotográfico, ele cuidava da cruz — limpava, pintava, restaurava. Um ritual que, para ele, tem tanto de prática quanto de espiritualidade.
Fiz uma promessa de vida, de cuidar dessas cruzes. Esse gesto não é só simbólico, ele envolve uma prática concreta e também espiritual.
Tiago Aguiar
Essa dimensão do compromisso atravessa toda a exposição. O trabalho não trata as cruzes como objetos fotogênicos, mas como presença — algo que exige atenção, cuidado e reverência.
Fotografia, vídeo e uma sonoridade que envolve
A mostra reúne três frentes distintas. O vídeo “Promessa para as Almas” ancora a experiência com uma sonoridade imersiva que impõe ritmo ao espaço. Em paralelo, duas séries fotográficas ampliam o olhar: “Cruz das Almas” traz os registros das cruzes já restauradas, enquanto “Ponto de Cruz” apresenta imagens aéreas dos locais de acidente — uma perspectiva que desloca o olhar e transforma o traçado da estrada em desenho.
A montagem não busca conforto estético. Tiago Aguiar foi direto sobre essa escolha.
Não queria apenas uma coisa estetizada, de fotografias bonitas. Acho importante trazer o risco.
Tiago Aguiar
Esse incômodo calculado é parte da proposta. A beleza existe, mas ela convive com a violência implícita de cada local marcado por uma cruz.
Morte naturalizada e o convite para desacelerar
O trabalho também opera como crítica à lógica da velocidade — nas estradas e no cotidiano. Em um contexto em que mortes no trânsito se tornam estatísticas, “daBeira do Caminho” propõe outra relação com esses dados.
Este trabalho é um convite para olhar de forma mais ampla para a morte. Para pensar nossa relação com a ancestralidade, com os rituais e com o outro.
Tiago Aguiar
A exposição encerra neste domingo com visitação gratuita. Para quem ainda não foi ao Serro conferir, este é o último fim de semana.
Serviço
- Exposição: “daBeira do Caminho”, de Tiago Aguiar
- Até: domingo, 3 de maio de 2026
- Horários: terça a sábado, das 10h às 18h; domingos, das 8h às 12h
- Local: Museu Regional Casa dos Ottoni — Praça Cristiano Ottoni, 72, Serro (MG)
- Entrada: gratuita
