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A tinta que sai da tela e ocupa o espaço inteiro

A tinta que sai da tela e ocupa o espaço inteiro

Pàulla Scàvazzini abre “Língua de Fogo” no Centro Cultural Correios RJ em 27 de maio: 15 obras inéditas que transformam arquitetura em pintura viva.

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Há pinturas que ficam dentro da moldura. E há pinturas que avançam sobre as paredes, escorrem pelo piso e reorganizam o espaço ao redor do espectador. É nesse segundo território que Pàulla Scàvazzini opera — e é essa aposta que ela traz ao Rio de Janeiro com a individual Língua de Fogo, com abertura marcada para o dia 27 de maio no Centro Cultural Correios.


Com curadoria de Shannon Botelho, a mostra reúne quinze trabalhos — a maior parte inédita — e funciona como desdobramento direto da exposição apresentada em Nova York. Mas não se trata de uma simples transposição: o contexto institucional e a espacialidade ampliada do Correios impõem limites mais rígidos, e é justamente nessa tensão que a artista aprofunda sua pesquisa sobre gesto, cor e a transformação da percepção do espectador.


Paisagens que se recusam a consolar


O imaginário botânico tropical é o ponto de partida — mas o destino é outro. Fragmentos de vegetação e elementos orgânicos se transformam, nas obras de Scàvazzini, em manchas, campos de cor e atmosferas que oscilam entre paisagem e ruína. O colapso ambiental e social não aparece como denúncia panfletária, mas como matéria sensorial: algo que o corpo sente antes de a mente nomear.


“As duas exposições partem do imaginário botânico tropical, em que paisagens se desfazem em manchas e campos de cor. Essa dissolução da imagem é também uma recusa em oferecer a paisagem de um mundo em colapso como consolo, como se a arte pudesse restituir ruínas. O que me interessa é uma pintura que permaneça nessa tensão, e que, por isso mesmo, precisa sair da tela para encontrar o corpo. É essa pintura que, a partir do meu corpo em movimento, avança sobre o espaço arquitetônico e convoca um encontro com os outros corpos que entram na sala”, afirma Pàulla Scàvazzini.


Os títulos das obras aprofundam essa experiência: vento desértico; fogueira de sal; precipício, suspiro; tudo o que brilha ao norte e derrete em festa ao sul. Pensados como micro poesias sinestésicas, eles convocam cheiro, temperatura e memória antes mesmo que o olhar alcance a imagem.


O corpo como instrumento da pintura


Scàvazzini não pensa a pintura como um ato manual isolado. Para ela, trata-se de uma prática do corpo inteiro — o que ela descreve como uma espécie de psicografia pictórica, em que não é a mão que decide a imagem, mas o corpo que a conduz enquanto a mente se retira. Cada pincelada registra um tempo de execução físico antes de ser intelectual.


Entendo o ato de pintar como uma prática do corpo inteiro — quase uma psicografia pictórica, no sentido de que não é a mão que decide a imagem, mas o corpo que a conduz enquanto a mente se retira. Cada pincelada registra um tempo de execução que é físico antes de ser intelectual. É catártico.


Essa dimensão performática da pintura não é retórica. Nas instalações e site-specifics de Scàvazzini, a tinta literalmente ultrapassa os limites da tela para ocupar paredes e pisos. A escala varia do íntimo ao arquitetônico, e é essa variação que modifica a percepção corporal de quem entra no espaço — transformando o espectador em parte ativa da composição.


De Nova York ao Rio de Janeiro


Antes do Rio, Scàvazzini ocupou a Kaliner Gallery, em Nova York, com o duo show Between Utopias and Abyss, ao lado da artista americana Austin Fields. A exposição, com curadoria de Maryana Kaliner, reúne 20 trabalhos e segue em cartaz até 30 de maio. No espaço nova-iorquino — uma galeria com grande fachada envidraçada voltada para a rua —, a artista esticou sua pesquisa de escala ao máximo, pintando do menor formato às grandes dimensões, com telas, paredes e piso integrados em uma única composição expandida.


As pinturas de Scàvazzini dialogam diretamente com as esculturas em vidro de Austin Fields: as telas funcionam como paisagens em expansão, enquanto as esculturas aparecem como fragmentos dessas mesmas paisagens, encapsulados em forma tridimensional. O conjunto opera como um organismo único, em que cada obra é fragmento de uma composição maior.


Nascida em São José dos Campos (SP) e radicada em São Paulo, Scàvazzini construiu sua trajetória de forma independente, com passagens por residências em Lisboa, Paris e Nova York — incluindo a Residency Unlimited, uma das mais relevantes instituições artísticas dos Estados Unidos. Suas obras integram coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior.




Serviço





A tinta que sai da tela e ocupa o espaço inteiro
Foto: Erika Garrido
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