Uma mulher, um deserto e uma história que atravessa milênios para dialogar com o presente. O espetáculo Agar estreia no Sesc Copacabana em julho propondo uma experiência que mistura teatro, narração poética e projeções visuais para revisitar uma das figuras mais simbólicas das tradições religiosas e culturais.
Em cartaz de 02 a 26 de julho, a montagem mergulha na trajetória de Agar, personagem descrita no Corão, na Bíblia e na Torá como mãe de Ismael, patriarca do povo árabe. A peça transforma essa narrativa ancestral em uma fábula potente sobre liberdade, pertencimento e resistência.
Uma travessia entre vida e morte
A história se desenrola durante a passagem de Agar e seu filho pelo deserto, em um momento extremo de sobrevivência. Sem água e sem comida, os dois enfrentam a iminência da morte enquanto atravessam um território hostil que também funciona como metáfora de exclusão e abandono.
É nesse cenário que a peça constrói sua força dramática. A narrativa não se limita ao sofrimento físico, mas amplia o olhar para as dimensões culturais e políticas que cercam a personagem. Agar surge como uma figura visionária, fora dos padrões, que reivindica o direito de existência e de herança para seu filho e seus descendentes.
Ao trazer essa história para o palco, o espetáculo estabelece conexões diretas com questões contemporâneas, especialmente aquelas relacionadas a território, identidade e reconhecimento de povos.
Elenco e conexões com o presente
A montagem é interpretada por Tatiana Henrique, no papel de Agar; Hebert Said, como Ismael; e Sheila Martins, como Deusa. Juntos, eles constroem uma dramaturgia que aproxima passado e presente, criando uma ponte entre a ancestralidade e os debates atuais.
Todos os povos têm direito de existir. As comunidades originárias têm o direito ao espaço em que vivem
A fala sintetiza o eixo central do espetáculo, que parte da ideia de patrimônio imaterial para refletir sobre o significado de território. Mais do que um espaço físico, ele é apresentado como base essencial para a existência de um povo.
Essa perspectiva ganha ainda mais densidade a partir das vivências dos próprios criadores. Tatiana Henrique e Hebert Said trazem para o trabalho referências pessoais e artísticas que atravessam diferentes culturas.
Sempre conversamos sobre o quanto é importante saber sobre as nossas origens para tanto nos entender intimamente quanto a questões sociais e políticas. Eu pesquiso teatro negro, Hebert é neto de refugiados sírios que aqui se juntaram com indígenas e pretos também. Essa história é como um reencontro nosso com África e Ásia, pretos e árabes. Isso faz muito sentido pra gente
Pesquisa estética e linguagem cênica
Agar não se limita a uma única linguagem. A proposta mistura teatro, narração poética e projeções visuais para criar uma experiência sensorial e imersiva. Essa combinação amplia as possibilidades de leitura da obra e reforça o caráter simbólico da narrativa.
A dramaturgia também se destaca pela diversidade linguística. O espetáculo incorpora textos em português, copta e árabe, ampliando a dimensão cultural da montagem e reforçando sua conexão com diferentes matrizes históricas.
As legendas fazem parte do próprio espaço cênico, contribuindo tanto para a acessibilidade quanto para a construção estética da peça. Elas atendem pessoas surdas não falantes de LIBRAS e também enriquecem a experiência do público em geral.
Acessibilidade como elemento poético
Um dos aspectos centrais da montagem é a presença da LIBRAS em todas as sessões. Mais do que um recurso de acessibilidade, ela é incorporada como parte da linguagem artística do espetáculo.
A proposta parte da ideia de que a LIBRAS pode ser entendida como uma língua ancestral, o que transforma sua presença em cena em um elemento poético e narrativo. Essa escolha amplia o alcance da obra e reforça seu compromisso com inclusão.
Além disso, as sessões de domingo contam com audiodescrição, garantindo que diferentes públicos possam acessar a experiência de forma completa.
Trajetória da Obalufônica
O espetáculo é produzido pela Obalufônica, coletivo coordenado por Tatiana Henrique e Hebert Said. Com cerca de 25 anos de atuação, o grupo desenvolve ações artísticas e educativas voltadas para pesquisas em linguagens culturais africanas, afro-brasileiras, dos povos originários brasileiros e indianas.
Ao longo de sua trajetória, a Obalufônica construiu uma produção marcada pela multilinguagem e pelo diálogo entre diferentes tradições. Entre seus trabalhos estão Ọ̀rọ̀, Contos de Orí, Ògún pèlé o! e Nuang, caminhos da liberdade, além de colaborações com artistas e espetáculos parceiros.
Com Agar, o coletivo aprofunda essa pesquisa ao reunir referências culturais diversas em uma narrativa que conecta África, Ásia e América Latina, propondo uma reflexão sobre identidade e pertencimento em escala global.
Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, o espetáculo chega ao palco em curta temporada, com 16 apresentações distribuídas de quinta a domingo.
Serviço
- Espetáculo: Agar
- Local: Teatro Sesc Copacabana – Sala Mezanino
- Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
- Temporada: 02 a 26 de julho, de quinta a domingo
- Horário: Quintas e sextas, às 20h30; sábados e domingos, às 19h
- Ingressos: R$ 40 (inteira); R$36 (conveniados), R$28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia-entrada) e Gratuito (público cadastrado no PCG)
- Venda disponível: https://ingresso.com/
- Bilheteria: Terça a sexta – das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados – das 14h às 20h
- Classificação indicativa: 12 anos
- Instagram: @obalufonica



