Depois de quase meio século fora de cartaz, Tristão e Isolda retorna ao Theatro Municipal de São Paulo em uma montagem que resgata um dos marcos mais intensos da história da ópera. A obra de Richard Wagner, apresentada pela última vez no local em 1978, volta agora ao palco com direção cênica do brasileiro Allex Aguilera e uma estrutura que reúne alguns dos principais nomes da música erudita.
Com récitas entre os dias 22 de julho e 2 de agosto, sempre às 17h, a produção ocupa a Sala de Espetáculos com uma proposta que combina tradição e novas leituras visuais. A expectativa é de um reencontro histórico entre o público paulistano e uma obra que redefiniu os limites da linguagem musical.
Um marco da música ocidental
Descrita pelo próprio Wagner como seu trabalho mais audacioso, a ópera em três atos representa uma ruptura estética que ecoa até hoje. O chamado “acorde de Tristão”, apresentado logo no prelúdio, tornou-se um símbolo da transformação da harmonia tradicional e influenciou gerações de compositores.
Mais do que inovação técnica, a obra mergulha em uma dimensão emocional radical. Inspirada no mito medieval reinterpretado por Gottfried von Strassburg e atravessada pela filosofia de Arthur Schopenhauer, a narrativa acompanha a paixão inevitável e destrutiva entre os protagonistas.
Esse amor, desencadeado por uma poção, evolui para um conflito entre desejo e destino, culminando na célebre ária final Liebestod, considerada um dos momentos mais emblemáticos da história da música.
Leitura cênica e estética contemporânea
Na concepção de Allex Aguilera, a ópera se destaca dentro do repertório wagneriano por sua natureza profundamente íntima. Para o diretor, a obra carrega uma melancolia contínua que atravessa som e palavra, criando uma experiência sensorial expansiva.
Há nela algo de vasto e insondável, como uma expansão contínua da sensibilidade humana, conduzida por um fluxo musical que parece não conhecer fronteiras.
A encenação aposta em transformações visuais marcantes ao longo dos atos. No início, mares monocromáticos simbolizam o estado emocional de Isolda. Em seguida, o palco se converte em um jardim vibrante e onírico. Já no terceiro ato, a influência do Butoh — linguagem corporal japonesa — introduz uma dimensão mais visceral e introspectiva.
Elenco internacional e produção robusta
A montagem reúne a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coro Lírico Municipal, sob direção musical de Roberto Minczuk e regência de Hernán Sánchez Arteaga. A produção é assinada pelo Teatro de la Maestranza de Sevilla.
O elenco principal se alterna entre apresentações. Os tenores Simon O’Neill e Michael Weinius interpretam Tristão, enquanto as sopranos Annemarie Kremer e Eiko Senda assumem o papel de Isolda. Completam o time nomes como Leonardo Neiva, Denise de Freitas, Luisa Francesconi e Hernan Iturralde.
A equipe técnica inclui ainda Gabriel Pederneiras no design de luz, Arnaud Pottier no vídeo, Jesús Ruiz no figurino, com assistência de Ana Llena, e Piero Schlochauer como assistente de direção.
Um retorno carregado de história
A relação da obra com o Theatro Municipal de São Paulo remonta à própria inauguração do espaço, em 1911, quando foi apresentada pela primeira vez. Desde então, teve poucas montagens, sendo a última há mais de quatro décadas.
Para Jorge Takla, diretor artístico do Theatro, a retomada representa uma oportunidade rara de reconectar o público com um dos pilares da ópera mundial, especialmente por meio de uma encenação contemporânea assinada por um diretor brasileiro com carreira internacional.
A nova temporada, portanto, não apenas resgata um clássico, mas também reafirma o papel do Municipal como espaço de circulação de grandes produções e de diálogo entre tradição e novas linguagens.
Serviço
- Tristão e Isolda, ópera em 3 atos com música e libreto de Richard Wagner
- Local: Sala de Espetáculos – Theatro Municipal de São Paulo
- Datas: 22, 26, 29 e 31 de julho; 2 de agosto
- Horário: 17h
- Direção musical: Roberto Minczuk
- Direção cênica: Allex Aguilera
- Ingressos: de R$ 47 a R$ 290
- Duração: 300 minutos, com intervalo
- Classificação: não recomendado para menores de 12 anos


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