Em Brasília, Araquém Alcântara celebra 50 anos com exposição e livro que expõem beleza e devastação dos biomas brasileiros.
O olhar de Araquém Alcântara ocupa, a partir de 1º de junho, um dos espaços mais simbólicos do país. A sede do Superior Tribunal de Justiça recebe uma exposição em grande formato que sintetiza cinco décadas de um trabalho que ajudou a moldar a consciência ambiental no Brasil.
Com imagens que chegam a 2,20 metros, a mostra reúne registros da Amazônia, da Mata Atlântica e de outros biomas, além de cenas do cotidiano brasileiro. Mais do que um percurso estético, o conjunto revela uma trajetória guiada pela urgência: mostrar o que ainda resiste — e o que já se perde.
Araquém foi o primeiro fotógrafo a registrar todos os parques nacionais do país. Desde os anos 1970, construiu um acervo de cerca de 500 mil imagens, consolidando um dos mais relevantes patrimônios visuais da biodiversidade brasileira.
A fotografia como denúncia e legado
A exposição dialoga diretamente com o lançamento de um livro que marca esse mesmo ciclo de 50 anos. Com mais de 500 páginas e 220 fotografias, a obra reúne flagrantes da beleza natural e também registros duros: desmatamento, queimadas e os efeitos visíveis das mudanças climáticas.
Segundo o curador Eder Chiodetto, trata-se de uma “crônica visual da beleza e do horror”. O livro percorre desde os primeiros trabalhos no cais de Santos até as imagens mais recentes da devastação na Amazônia e no Pantanal.
Ao longo da carreira, Araquém publicou 62 livros, realizou 75 exposições individuais e recebeu mais de 40 prêmios. Suas obras integram acervos como Masp, Pinacoteca de São Paulo, MAM-SP, Centro Georges Pompidou e Museu Britânico.
O instante que mudou tudo
Entre as imagens revisitadas, uma se destaca como ponto de virada. Em 1980, Araquém fotografou seu pai, Manoel Alcântara, durante um protesto contra a instalação de usinas nucleares na Juréia. A cena se tornou um símbolo da crítica ambiental no Brasil.
“Ali se consolidou o caminho a ser seguido — investir toda sua energia de artista em nome de uma causa que, mesmo quando parece fadada ao fracasso, segue ecoando nas elipses do tempo”
O registro marcou a transição de repórter para autor. A partir dali, Araquém assumiu a fotografia como linguagem de combate e expressão poética — um equilíbrio raro que se tornou sua assinatura.
Entre epifanias e apocalipses
O livro e a exposição revelam essa tensão permanente. De um lado, a exuberância da flora e fauna brasileiras. De outro, a devastação ambiental, a poluição e as desigualdades sociais que atravessam o território.
“Sou um artista de combate, cúmplice dos injustiçados. Minhas fotos são um canto de amor à natureza e ao povo brasileiro”, escreveu o fotógrafo, que transformou sua câmera em instrumento de resistência.
Aos 75 anos, ele segue ativo, movido por uma ideia que atravessa toda sua obra: a fotografia como consciência. Mais do que registrar, provocar.
Essa postura nasce cedo. Ainda jovem, ao ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, encontrou uma frase que se tornaria norte: “Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero.”
Décadas depois, essa mesma tensão — entre beleza e colapso — segue pulsando em cada imagem.
Serviço
- Inauguração da exposição “O Brasil de Araquém Alcântara” e lançamento do livro “50 anos de fotografia”
- Data: 1º/06/2026
- Horário: 19h
- Local: Mezanino do Edifício dos Plenários – Superior Tribunal de Justiça



