Com avanço da IA na música, experiências ao vivo crescem e reforçam o valor da conexão humana na arte e na economia cultural.
Enquanto milhares de músicas geradas por inteligência artificial chegam diariamente às plataformas digitais, um movimento oposto ganha força: o público está voltando sua atenção para experiências artísticas presenciais. O contraste entre volume automatizado e vivência real tem reposicionado o valor da arte ao vivo.
Dados divulgados pela Deezer revelam a dimensão dessa transformação. Atualmente, cerca de 75 mil faixas totalmente criadas por IA são enviadas por dia, representando 44% de todos os uploads. Em 2025, a plataforma passou a identificar e etiquetar esse tipo de conteúdo, marcando um novo capítulo na relação entre tecnologia e produção musical.
Ao mesmo tempo, surgem preocupações econômicas. Um estudo da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (CISAC), em parceria com a PMO Strategy, aponta que até 2028 quase 25% das receitas dos criadores podem estar em risco. Ainda assim, o impacto não é uniforme em todo o setor.
Eventos ao vivo crescem na contramão
Se o ambiente digital enfrenta incertezas, o mercado de eventos mostra força. Levantamentos da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc) e do Sebrae indicam que o setor movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano — o equivalente a 4,3% do PIB nacional.
Além disso, dados do Ecad reforçam essa tendência. No primeiro semestre de 2025, a arrecadação de direitos autorais em shows cresceu 16%, atingindo R$ 195 milhões. O número sinaliza que, diante da saturação digital, a experiência presencial ganha novo peso cultural e econômico.
A conexão humana como diferencial
Para o músico e produtor cultural Welton Nadai, o momento atual não representa uma ameaça direta à arte, mas uma redefinição de valores. Segundo ele, a tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui a essência da experiência artística.
“Se a tecnologia fosse capaz de substituir a performance artística, isso já teria acontecido há muito tempo”
Nadai lembra que, historicamente, cada avanço tecnológico — do rádio ao streaming — expandiu o acesso à música sem eliminar o interesse por apresentações ao vivo. Agora, o cenário parece repetir esse padrão, mas com um elemento novo: a escala massiva da produção automatizada.
Essa abundância, em vez de afastar o público, pode aumentar o desejo por autenticidade. “Acredito que estamos caminhando para uma valorização cada vez maior das experiências artísticas autênticas e orgânicas”, afirma o músico.
Tecnologia como aliada, não substituta
Apesar do avanço da IA, o artista não descarta seu potencial positivo. Recursos como realidade virtual e aumentada, por exemplo, podem enriquecer espetáculos e aproximar artistas e público de novas formas. Ainda assim, ele destaca que o elemento central permanece intocado.
“O que nos emociona não é apenas a perfeição técnica, e sim a capacidade de reconhecer no artista algo de nós mesmos. É essa conexão entre seres humanos que torna a arte insubstituível”
Nesse contexto, o crescimento da inteligência artificial não elimina a arte humana — ele a reposiciona. O palco, antes apenas um espaço de apresentação, passa a ser também um território de autenticidade em meio à produção massificada.
A tendência sugere um futuro híbrido. De um lado, algoritmos criando em escala. De outro, artistas oferecendo aquilo que a tecnologia ainda não alcança: presença, imperfeição e troca emocional em tempo real. E é justamente nesse contraste que o valor da experiência ao vivo tende a se fortalecer.
Com trajetória consolidada na música instrumental, Welton Nadai atua na valorização da música brasileira por meio de apresentações, produções e projetos educativos. Integrante de formações como o Violões Artes Trio, ele também desenvolve iniciativas que aproximam o público da música de concerto e ampliam o acesso às experiências presenciais.


