A força da biodiversidade catarinense e a memória científica de Raulino Reitz ganham uma nova leitura artística na exposição “Bromeliário”, de Walmor Corrêa. A mostra abre ao público no dia 26 de maio, às 19h, na Helena Fretta Galeria de Arte, em Florianópolis, reunindo mais de 40 obras que traduzem o encontro entre arte e botânica.
Com curadoria de Fabrício Tomazi Peixoto, a exposição marca a primeira individual de Walmor na galeria e propõe uma imersão visual no universo das bromélias, a partir de um diálogo direto com o trabalho do Padre Raulino Reitz (1919–1990), referência no estudo da flora de Santa Catarina.
Um legado científico reinterpretado
Reconhecido como um dos maiores botânicos do país, Raulino Reitz dedicou décadas à catalogação da flora catarinense, alcançando um feito expressivo: mapear cerca de 95% das espécies do Estado. Seu trabalho, especialmente voltado às bromélias, serve como ponto de partida para a nova série de Walmor Corrêa.
“Espero que o conjunto de obras revigore, no âmbito local, a memória do prestigiado botânico e a valorização da fauna, da flora e da imensa biodiversidade brasileira”, afirma o artista, que desenvolveu os trabalhos ao longo de cinco anos de pesquisa e produção.
Esse processo contou com apoio técnico do Herbário Barbosa Rodrigues, por meio do biólogo Luís Adriano Funez, além da Fundação Universidade do Vale do Itajaí (Univali), atual mantenedora da instituição.
Três núcleos, múltiplas linguagens
A exposição foi organizada em três núcleos que articulam diferentes técnicas e abordagens, mantendo como eixo central a relação entre natureza, ciência e representação artística.
Paisagens e expedições
O primeiro núcleo mergulha nas expedições realizadas por Raulino Reitz ao longo de cinco décadas — um total de 953 incursões pelo território catarinense. Inspirado por esse percurso, Walmor apresenta nove pinturas que retratam paisagens exploradas pelo botânico.
As obras revelam cenários bucólicos e aparentemente intocados, mas trazem um diferencial técnico: ao lado de cada pintura, o artista detalha com precisão científica as espécies de bromélias e seus respectivos polinizadores, conectando estética e conhecimento.
O núcleo inclui ainda três pinturas dedicadas exclusivamente aos agentes polinizadores, como insetos e pássaros, destacando o papel fundamental dessas espécies no equilíbrio ecológico.
Azulejaria e composição visual
O segundo núcleo apresenta um conjunto de obras em azulejaria, inspirado na publicação “Flora Ilustrada Catarinense”, de Raulino Reitz. Walmor transpôs 30 espécies de bromélias para superfícies cerâmicas, criando uma coleção que combina rigor científico e experimentação visual.
As peças se dividem entre 10 representações em azulejos duplos e 20 em unidades únicas, permitindo múltiplas composições. Na exposição, essa produção aparece organizada em 21 quadros e cinco objetos tridimensionais revestidos com azulejos serigrafados.
Gravuras e espécies ameaçadas
O terceiro núcleo reúne seis gravuras de bromélias, além de representações de polinizadores e flores. O foco recai sobre espécies nativas do Sul do Brasil, especialmente de Santa Catarina, ressaltando sua diversidade e importância ecológica.
Entre as espécies retratadas estão Aechmea recurvata, Nidularium innocentii, Wittrockia superba, Canistropsis billbergioides, Neoregelia laevis e Edmundoa lindenii. Muitas delas enfrentam ameaças em seus habitats naturais, o que reforça o caráter de alerta presente na exposição.
A presença de polinizadores como abelhas e beija-flores, incluindo a abelha Euglossa verde-azulada, evidencia a interdependência entre espécies e a delicadeza dos ecossistemas. O ambiente expositivo é complementado por um revestimento artístico que recria a atmosfera de uma floresta de bromélias.
Entre arte, memória e preservação
Ao reunir diferentes linguagens — pintura, gravura, escultura e cerâmica —, “Bromeliário” propõe uma reflexão sobre a preservação ambiental e a importância do conhecimento científico na compreensão da natureza.
A exposição também reafirma o papel da arte como meio de resgate histórico e valorização cultural, ao trazer para o presente o legado de um pesquisador fundamental para a botânica brasileira.
Mais do que uma homenagem, a mostra constrói uma ponte entre gerações, territórios e saberes, ampliando o olhar sobre a biodiversidade e seus desdobramentos no campo artístico contemporâneo.
Serviço
- Exposição: Bromeliário – legado botânico de Raulino Reitz sob a perspectiva artística de Walmor Corrêa
- Abertura: 26 de maio, às 19h
- Período: até 27 de junho
- Local: Helena Fretta Galeria de Arte
- Endereço: Rua Presidente Coutinho, 532, Centro, Florianópolis/SC
- Visitação: segunda a sexta, das 10h às 18h30; sábados, das 10h às 13h

