Nem sempre o que nos atravessa encontra palavras — e é justamente nesse intervalo que o Ateliê de Escuta se instala. Criado em Florianópolis, o projeto propõe uma experiência coletiva que articula arte, psicanálise e filosofia para lidar com aquilo que insiste, afeta e muitas vezes permanece sem nome.
Idealizado pelas psicanalistas Cléia Canatto e Luana Vizentin, o Ateliê surge como uma proposta singular na cidade ao apostar na escuta da intersubjetividade. A ideia não é oferecer respostas prontas, mas abrir espaço para aquilo que emerge no encontro entre sujeitos, numa experiência que privilegia o que há de comum — e, ao mesmo tempo, absolutamente singular — em cada trajetória.
“A arte chega antes naquilo que a palavra muitas vezes inibe”, afirma Cléia Canatto. “Ela desloca, toca, provoca. E é exatamente por isso que ela entra no trabalho como potência.”
Uma escuta que atravessa linguagens
Diferente de formatos tradicionais, o Ateliê de Escuta não se define como terapia, curso ou palestra. A proposta vai além dessas categorias ao criar um espaço híbrido, onde a escuta analítica se entrelaça com experiências artísticas e deslocamentos filosóficos.
O ponto de partida está no conceito freudiano de “mal-estar na cultura”, esse desconforto difuso que marca a experiência contemporânea. Em vez de tratá-lo como algo a ser eliminado, o Ateliê propõe escutá-lo — e, mais do que isso, elaborá-lo coletivamente.
A filosofia entra como ferramenta de deslocamento, capaz de tensionar certezas e abrir novas perspectivas. Já a arte atua como via de acesso ao sensível, alcançando dimensões que escapam à linguagem racional. Nesse cruzamento, o inconsciente ganha outras formas de expressão.
O “ensaio de si” como prática
O projeto nasce a partir de mais de 20 anos de experiência clínica de Cléia Canatto e se ancora no conceito de “ensaio de si”. A expressão carrega dois sentidos complementares: o ensaio como forma aberta, inacabada e reflexiva; e o ensaio como prática artística, onde o erro não é falha, mas parte do processo.
Essa perspectiva redefine a relação com a própria existência. Em vez de buscar um ideal fixo, o sujeito é convidado a experimentar-se, a sustentar suas próprias questões e a construir um estilo de vida a partir do desejo.
A tríade arte-psicanálise-filosofia me norteia e está no centro de minha experiência. Ela determina minhas escolhas, fundamenta meus atos e me autoriza a me ensaiar na vida sustentada pelo desejo.
Para as coordenadoras, o coletivo não dilui a experiência individual — ao contrário, potencializa. É nesse encontro com o outro que novas formas de elaboração se tornam possíveis.
Edição inaugural: o cuidado de si
Prevista para agosto de 2026, a primeira edição do Ateliê tem como eixo central o tema “O Cuidado de Si: alinhavando afetos e afrouxando nós”. Ao longo de cinco encontros, o projeto percorre questões fundamentais da existência a partir de referências como Freud, Nietzsche, Espinosa e Michel Foucault.
O percurso começa pelo mal-estar e avança para a compreensão dos afetos como forças que antecedem a razão. Em seguida, o conceito de cuidado de si — desenvolvido por Foucault em sua obra tardia — ganha protagonismo como prática ética e condição para a constituição do sujeito.
Mais do que um gesto individual, cuidar de si aparece como um movimento que implica o mundo, o outro e as relações. É a partir do que afeta e mobiliza cada sujeito que se torna possível construir uma posição, uma voz e uma forma de intervenção na realidade.
O ciclo se encerra no que o Ateliê nomeia como “dor-de-existir” — um ponto de encontro entre arte, filosofia e psicanálise onde o que resiste à palavra pode, ainda assim, ganhar forma.
Eventos abertos antecipam experiência
Antes da estreia oficial, duas atividades abertas ao público funcionam como porta de entrada para o universo do Ateliê de Escuta, criando um campo de experimentação e aproximação com a proposta.
No dia 26 de junho, o Museu da Escola Catarinense recebe uma roda de conversa inspirada na obra “(Trans)bordando afetos e (des)fazendo nós”, da artista plástica Dirce Körbes. O encontro propõe uma reflexão a partir do gesto de bordar, desfazer e refazer, em diálogo com as organizadoras do projeto e com a curadora Lucila Horn.
Já no dia 11 de julho, o Paradigma Cine Arte exibe o filme “Dias de Nietzsche em Turim” (2001), de Júlio Bressane. A sessão será seguida de debate com Anderson Abreu e Luiz Felipe Guimarães Soares, que discutem o legado do pensamento de Nietzsche em interlocução com a psicanálise e a arte.
Mais do que atividades isoladas, os encontros funcionam como extensão da proposta central: criar espaços onde pensar, sentir e escutar possam acontecer de forma integrada.
Quem está por trás do projeto
Cléia Canatto é psicanalista com mais de duas décadas de atuação clínica, com experiência na escuta de adultos, adolescentes e crianças. Sua trajetória reúne formação em Psicanálise, Psicologia, Ciências Sociais, Gestão de Pessoas e Dinâmica de Grupo, além de atuação em projetos que articulam arte e clínica.
Luana Vizentin também atua há quase 20 anos como psicanalista. É mestranda em Direito pela UFSC, com formação em psicanálise freudo-lacaniana, especialização em Psicologia Clínica com habilitação em Terapia Familiar e graduação em Psicologia pela UNIVALI.
Juntas, conduzem uma proposta que não busca enquadrar o sujeito, mas abrir espaço para que ele se experimente — em relação consigo, com o outro e com o mundo.
Serviço
- Roda de Conversa: O Cuidado de Si: alinhavando afetos e afrouxando nós
- 26 de junho de 2026 (sexta-feira) | 15h às 17h
- Museu da Escola Catarinense – MESC | Florianópolis
- Entrada gratuita e aberta ao público
- Debate: Dias de Nietzsche em Turim (2001)
- 11 de julho de 2026 (sábado) | Filme: 10h às 11h30 | Debate: 11h40 às 13h
- Paradigma Cine Arte – SC 401, Corporate Park | Florianópolis
- Ingressos: R$ 5,00 no local
- Ateliê de Escuta
- Edição Inaugural: 08 de agosto de 2026 | Cinco encontros
- Segunda edição: setembro de 2026 | Cinco encontros
- Inscrições: ensaiodesi.com.br
- @cleia_canatto | @luanavizentin

