A primeira grande exposição dedicada aos memes no país desembarca no Rio de Janeiro reunindo mais de 800 criações para examinar como o debochado humor digital se consolidou como linguagem artística, memória coletiva e instrumento de crítica social.
Depois de passar pelas unidades do CCBB em São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, a mostra “MEME: no Br@sil da memeficação” abre ao público no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro no dia 7 de novembro de 2026. Sob curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, o projeto reúne trabalhos de 200 produtores de conteúdo e artistas, permanecendo em cartaz até 1º de fevereiro de 2027 com entrada gratuita.
Os memes são ferramentas políticas e afetivas. É por meio deles que o Brasil elabora e expressa, em tempo real, suas diferenças sociais, raciais, de gênero e estéticas.

Da zoeira digital à reflexão sobre a cultura nacional
A ocupação abrange a rotunda e o primeiro andar do prédio histórico no Centro do Rio, exibindo vídeos, neons, esculturas, roupas, quadrinhos, pinturas, instalações audiovisuais e experiências interativas. Logo na entrada, o público é recepcionado pela instalação tátil “Alisa meu pelo”, que recria em diversos materiais a célebre escultura de onça inspirada na nota de R$ 50, obra dos artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.
A proposta curatorial vai além da exibição de piadas virtuais e propõe uma análise aprofundada sobre a memeficação como fenômeno social. O conceito investiga a forma como imagens, frases, gestos e acontecimentos são constantemente apropriados, reproduzidos e ressignificados. Embora amplificada pelas redes sociais, essa dinâmica resgata tradições culturais antigas como a paródia, a sátira e a inversão de papéis.
O percurso da exposição foi gestado a partir de conversas entre os curadores durante o isolamento da pandemia de Covid-19. Esse processo impulsionou a criação anônima do perfil @newmemeseum por Monticelli, página que acumulou quase meio milhão de seguidores no Instagram entre 2020 e 2025, servindo de laboratório para a construção do projeto expositivo.

Diálogo entre a arte contemporânea e os criadores da web
O acervo da mostra estabelece pontes diretas entre nomes consagrados das artes visuais e personalidades do humor e da internet. Obras de artistas históricos como Anna Maria Maiolino e Nelson Leirner dividem o espaço com produções de fenômenos da comunicação digital e do audiovisual.
O humor carioca e fluminense ganha posição de destaque na montagem. A sátira política resgata a memória do semanário O Pasquim, fundado em 1969, e traz charges de Chico Caruso e Claudius Ceccon. O percurso celebra também a trajetória de Rafael Portugal, Paulo Gustavo, Marcelo Adnet, Raphael Vicente, Felipe Neto e do coletivo Porta dos Fundos.
Artistas visuais ligados ao estado do Rio de Janeiro marcam presença com trabalhos de Felipe Barbosa, Victor Arruda, Laura Lima, Panmela Castro, Pietrina Checcacci, Alexandre Mury, Gustavo Speridião e Regina Vater. O time de criadores de conteúdo conta com nomes como Ademara, Dri Maria (Blogueira Trans), Erika Affonso, Fábio Cruz (Fabão), Felipe Haiut, Gilberto Porcidonio, Guto TV, História no Paint, Juju dos Teclados, Nathalia Cruz, Rafael Madeira e Valentina Bandeira.

Estrutura temática e investigação acadêmica
A exposição está dividida em cinco núcleos principais localizados no primeiro andar. O núcleo “Ao pé da letra” aborda os jogos linguísticos e dublagens cômicas, incluindo o tiopês e o pajubá. “A hora dos amadores” explora a emergência do cidadão comum como protagonista das redes, destacando o meme como tecnologia social de visibilidade.
Em “Da versão à inversão”, a imitação surge como recurso crítico e paródico. Já o núcleo “O eu proliferado” investiga a exposição da vida privada e a autoperformance nas plataformas digitais. Por fim, “Combater ficção com ficção” se debruça sobre a polarização política, abordando o papel do humor no combate à desinformação e na resistência social.
O encerramento do circuito apresenta o epílogo “Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?”, desenvolvido em parceria com o projeto #MUSEUdeMEMES da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob coordenação do pesquisador Viktor Chagas. O espaço reúne dez entrevistas em vídeo com personalidades como Gregório Duvivier, Malfeitona e Marcelo Zorzanelli para debater a natureza desse fenômeno contemporâneo.
Serviço
- Exposição: MEME: no Br@sil da memeficação
- Local: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ)
- Endereço: Rua Primeiro de Março, 66, Centro – Rio de Janeiro/RJ
- Período: 7 de novembro de 2026 a 1º de fevereiro de 2027
- Horário de funcionamento: Quarta a segunda, das 9h às 20h (fechado às terças-feiras)
- Entrada: Gratuita (ingressos disponíveis na bilheteria do CCBB e no site bb.com.br/cultura)
- Classificação indicativa: Livre
- Contato: (21) 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br