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Cem mulheres wichís tecem resistência no MASP

O MASP exibe a partir de 6 de março obras do coletivo Silät, com mais de cem tecedeiras wichís que transformam saberes ancestrais em arte e luta política.

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Arte que nasce das mãos e da memória

De 6 de março a 2 de agosto de 2026, o MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo. A mostra reúne 25 trabalhos da artista Claudia Alarcón (La Puntana, Argentina, 1989) e do coletivo Silät, formado por mais de cem mulheres do povo Wichí. É a estreia da artista e do grupo em um museu brasileiro.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Laura Cosendey, curadora assistente, a exposição integra a programação anual dedicada às Histórias latino-americanas.

O chaguar como matéria-prima e símbolo

Todas as obras são tecidas com fios de chaguar, uma bromélia nativa do Gran Chaco — o maior bioma da América Latina depois da Amazônia. A técnica é herdada da confecção das bolsas yicas, objeto central da cultura wichí: peças quadradas com padrões geométricos que representam fauna e flora do território, como orelhas de tatu, olhos de coruja e cascos de tartaruga.

A inovação de Alarcón & Silät está tanto na cor quanto no processo. Historicamente, os têxteis wichís tinham tons terrosos. O coletivo passou a usar anilinas, chegando a matizes intensos de laranja e fúcsia. Além disso, enquanto a tecelagem era sempre individual, as integrantes do Silät desenvolveram métodos para trabalhar simultaneamente em uma mesma peça, multiplicando vozes e padrões em um único tecido.

Mitos, estrelas e território

A mitologia wichí atravessa a exposição. Em Kates tsinhay — Mujeres estrellas [Mulheres-estrelas] (2023), Claudia Alarcón evoca o mito das mulheres que desciam do céu por fios de chaguar para roubar peixes dos homens. Quando os fios foram cortados, elas ficaram na Terra. Estrelas, luas e céus estrelados surgem nas geometrias ancestrais da obra, mescladas a elementos figurativos.

“Recupero lendas e histórias do nosso povo, sinto que tem muito trabalho a ser revivido. Penso em como recuperar isso, porque é algo que talvez não possa ser dito oralmente, não podemos gritar isso. Mas o tecido também fala. Há quem possa entender ou sentir isso no tecido. Eu me dei conta de que, embora teçamos em silêncio, tudo está dito no tecido.” — Claudia Alarcón

O território sagrado wichí, chamado de tayhi, também guia os trabalhos. A obra Kyelhkyup — El otoño [Outono] (2023), pertencente ao acervo do MASP, capta em abstração as mudanças de luz e textura durante as estações no monte — paisagem plana e semiárida do Chaco.

Um coro de mais de cem vozes

O ponto alto da mostra é a instalação Hilulis ta llhaiematwek — Un coro de yicas [Um coro de yicas] (2024-25): mais de cem bolsas, cada uma feita por uma integrante diferente do Silät. As escolhas pessoais de cor e padrão se revelam individualmente, enquanto o conjunto afirma o poder político do coletivo — uma crítica direta à desvalorização do saber ancestral e à precarização do trabalho das tecedeiras.

Outro trabalho de destaque é N’äyhay wet layikis — Caminos y cicatrizes [Caminhos e cicatrizes] (2025), tecido para o Nove de Julho — dia da independência argentina — para denunciar a repressão histórica do Estado argentino contra povos indígenas.

“Os tecidos tornaram-se bandeiras de luta, estandartes que portam mensagens, histórias, e dão vozes às mulheres da comunidade.” — Laura Cosendey, curadora assistente, MASP

Bienal de Veneza e catálogo bilíngue

As obras de Claudia Alarcón & Silät participaram da Bienal de Veneza de 2024, consagrando o coletivo no cenário internacional. O coletivo Silät foi formado em 2023, a partir de oficinas que propunham repensar as bolsas yicas, nas comunidades de La Puntana e Alto de la Sierra. “Silät” significa mensagem em wichí lhämtes.

A exposição terá um catálogo bilíngue (português e inglês), com organização de Adriano Pedrosa e Laura Cosendey, ensaios de Andrei Fernández, Lynne Cooke, Natalia Brizuela e Sofia Gotti, além de uma entrevista inédita com Alarcón. A Loja MASP também disponibilizará produtos especiais da mostra, incluindo postais, ímãs e marca-páginas.

Serviço

Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo

Curadoria: Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP, e Laura Cosendey, curadora assistente, MASP

Período: 6 de março a 2 de agosto de 2026

Local: Edifício Pietro Maria Bardi, 3º andar

MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200 Telefone: (11) 3149-5959

Horários: Terças: grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h) | Quarta e quinta: das 10h às 18h (entrada até as 17h) | Sexta: das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30) | Sábado e domingo: das 10h às 18h (entrada até as 17h) | Fechado às segundas

Ingressos: R$ 85 (inteira) | R$ 42 (meia-entrada)

Agendamento on-line obrigatório: masp.org.br/ingressos

Acessibilidade: Entrada gratuita para pessoas com deficiência e acompanhante. Visitas em Libras ou descritivas mediante solicitação pelo e-mail acessibilidade@masp.org.br

Realização: Lei Federal de Incentivo à Cultura, com apoio da Renner

Site oficial: https://www.masp.org.br

Foto: Eduardo Ortega

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Foto: Divulgação
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