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Cinco Minutos Sem Respirar ganha primeira montagem no Brasil

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O instante em que duas mulheres cruzam caminhos dentro de um supermercado prestes a fechar torna-se o estopim para uma suspensão temporal que desafia o real e expõe as engrenagens silenciosas da violência cotidiana.

O encontro improvável entre figuras de vivências distintas ancora a estreia brasileira de Cinco Minutos Sem Respirar. Contemplada pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, a montagem da Notória Companhia ocupa o Mezanino do Sesc Copacabana a partir de 3 de setembro de 2026, apresentando pela primeira vez no país o texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott sob a direção de Danielle Martins de Farias. Em cena, as atrizes Carla Guidacci e Vanessa Pascale dão vida a duas personagens imersas em dinâmicas de opressão e aprisionamento social que, ao verem os ponteiros pararem, desdobram aquela mesma noite em cinco caminhos possíveis.

A peça fala sobre encontro. São duas mulheres que, apesar das diferenças, reconhecem uma na outra experiências comuns. Mas esse encontro acontece dentro de uma dramaturgia que desloca constantemente aquilo que entendemos como realidade. É justamente nessa instabilidade que encontramos a potência da obra.

A fragmentação do tempo e a poética do ordinário

A dramaturgia de Ott desmantela a lógica realista ao transformar um ambiente corriqueiro de compras em um território de memórias, medos e projeções. O espaço físico perde gradualmente suas certezas para permitir que múltiplas versões daquela interação coexistam, convidando o público a vivenciar um estado contínuo de instabilidade perceptiva.

A encenação aprofunda esse trânsito entre concretude e poesia cênica por meio do dramaturgismo de Juliana Pamplona, que costurou o texto venezuelano ao contexto nacional contemporâneo. O processo incorporou depoimentos reais e poemas de autoras brasileiras, expandindo as subjetividades em cena sem descaracterizar a espinha dorsal da narrativa.

Para além dos polos de vítima e algoz

A investigação temática recusa soluções maniqueístas ou ilustrações didáticas de dados estatísticos. Uma das personagens carrega os traumas diretos da violência doméstica, enquanto participa ativamente de cadeias de opressão econômica por meio de sua profissão. A outra vive a sobrecarga naturalizada do cuidado com terceiros, tendo estruturado sua rotina em torno de demandas alheias.

Ao conectar simbolicamente as lógicas do banco e do supermercado — balizadas pela capacidade de pagamento, endividamento e padrões de consumo —, a montagem amplia o debate sobre as estruturas sociais que operam aprisionamentos invisíveis no dia a dia.

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