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Da infância dura ao mundo: a arte de Fogaça cresce

Da infância dura ao mundo: a arte de Fogaça cresce

Entre memórias do interior e exposições internacionais, Gerson Fogaça amplia sua presença global e cria projeto cultural no Vale do Araguaia.

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Do Vale do Araguaia para o circuito internacional, Gerson Fogaça construiu uma trajetória que desafia distâncias — geográficas e simbólicas. Com mais de quatro décadas dedicadas à arte contemporânea, o artista goiano reafirma sua presença fora do país enquanto fortalece, ao mesmo tempo, vínculos com suas origens.

Nascido na Cidade de Goiás e criado em Britânia, Fogaça traz na própria história as marcas que atravessam sua obra. A infância, vivida entre limitações materiais e experiências intensas, moldou um olhar que mais tarde se transformaria em linguagem artística. Desde cedo, o desenho apareceu como caminho possível.

“Meu pai era carpinteiro, meu avô marceneiro e minha avó lavadeira. Venho de uma família preta, atravessada pela pobreza e por muitas fraturas. Meu avô fazia caixões, e eu cresci sob a presença silenciosa deles, pendurados na sala da casa. Era uma visão que me assombrava. Durante muito tempo, não compreendi o alcance daquela imagem sobre mim. Só depois percebi que aquela convivência precoce com a morte, o medo e o desamparo havia deixado marcas fundas no meu imaginário. Minha avó revestia os caixões com tecido azul, quando eram para crianças, e roxo, quando destinados aos adultos”, recorda o artista.

Aos oito anos, ele já desenhava. Pouco depois, o incentivo de uma diretora escolar mudou seu destino. Aos 14, deixou Britânia rumo a Goiânia. Aos 16, entrou em um museu pela primeira vez — um marco que ampliaria definitivamente suas referências.

Uma linguagem entre cidade e transformação

Desde os anos 1980, Gerson Fogaça desenvolve uma produção consistente, marcada pela abstração e por uma intensa pesquisa sobre cidade, tempo e transformação. Em suas telas, o espaço urbano não é cenário: é tensão, deslocamento e reinvenção constante.

Ao longo das décadas, seu trabalho circulou por instituições relevantes no Brasil e no exterior. Entre elas, o Centro Cultural Las Rozas, em Madri; o Museu de Arte Contemporânea de Caracas; o Museo Histórico y Militar de Chile, em Santiago; a Caixa Cultural, no Rio de Janeiro; e espaços em cidades como Berlim, Miami, Lisboa, Havana e Buenos Aires.

Em 2026, essa presença internacional se fortalece com a exposição “Antes que Desaparezca” e participações previstas na Cidade do México, Flórida, Córdoba e São Paulo. Mais do que acumular exibições, o artista mantém uma linha de pesquisa coerente, que dialoga com diferentes contextos sem romper com sua origem.

O retorno ao Vale e o projeto Urukum

Se por um lado a carreira se expande globalmente, por outro Fogaça volta seu olhar para o território que o formou. Em parceria com a produtora cultural Malu da Cunha, iniciou em 2025 a criação do Instituto Cultural Urukum, em Britânia.

O projeto nasce com foco na formação artística, na realização de oficinas e na ampliação do acesso à arte contemporânea no Vale do Araguaia. A proposta busca fortalecer a vida cultural de uma região historicamente afastada dos grandes centros, promovendo encontros entre artistas, curadores e a comunidade local.

Ao mesmo tempo, o instituto se propõe a criar pontes entre diferentes saberes, incluindo a população originária da região. A ideia é construir um espaço vivo, onde a arte seja também instrumento de transformação social.

“É uma maneira de devolver tudo aquilo que recebi e pensar nas crianças do presente, mas com um olhar para o futuro”, afirma o artista.

Assim, entre a memória e o movimento, Gerson Fogaça mantém sua obra em constante expansão. Partindo do interior de Goiás, ele alcança o mundo sem perder o vínculo com aquilo que o originou — e, ao retornar, transforma esse caminho em possibilidade para outros.


Serviço


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Foto: Divulgação
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