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Denise Calasans abre exposição sobre memória e cuidado no Rio

Denise Calasans abre exposição sobre memória e cuidado no Rio

Entre raízes e paredes reúne pintura, instalação e têxteis no Centro Cultural Correios RJ a partir de 6 de maio, com entrada gratuita.

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Há um momento em que jardim e casa deixam de ser espaços e passam a funcionar como memória — territórios onde gesto, cuidado e tempo se acumulam em camadas invisíveis. É exatamente desse campo que emerge a produção de Denise Calasans. Carioca, com trajetória que atravessa o design, as artes visuais, a educação e um Mestrado em Memória Social, a artista inaugura no dia 6 de maio de 2026 a exposição individual Entre raízes e paredes, no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro.

Com curadoria de Marisa Flórido, crítica de arte, professora e pesquisadora, a mostra organiza um conjunto amplo de obras — pinturas em tela e papel, instalação, vídeo, projeção, trabalhos têxteis, impressões, objetos e textos — em uma proposta que se aproxima de uma dimensão cênica. O espaço se constrói na travessia do corpo e na duração do olhar.

Dois territórios, um campo de tensões

A exposição se estrutura em torno de dois núcleos: Jardim e Casa. Não como ambientes decorativos, mas como regimes sensíveis que dialogam e se contaminam. É Marisa Flórido quem define com precisão essa dinâmica:

Jardim e casa — que operam como regimes sensíveis complementares: um voltado à dissolução das demarcações, à fluidez e à expansão do gesto; outro, à inscrição, à memória e à ambivalência do cotidiano. Entre ambos, a artista constrói um campo de ressonâncias, contaminações e porosidade das bordas: entre natureza e cultura, privado e o público, o inumano e o cultivado, o cuidado e a violência, a memória e o apagamento.

Marisa Flórido, curadora

O núcleo Jardim: entre o vegetal e o aquático

No núcleo Jardim, pinturas se apresentam como superfícies imersivas onde o vegetal e o aquático se confundem em transparências e sobreposições. Denise Calasans utiliza pincéis da caligrafia japonesa — o shodō — em diálogo com o espirógrafo, instrumento associado ao desenho infantil. Dessa combinação surgem traços, manchas e ritmos que deslocam a obra da representação para a experiência direta.

“Os reflexos possibilitam renunciarmos ao horizonte, responsável por estruturar o espaço. Quer seja na escolha da paleta de cores, quer seja na luminosidade, cada efeito se revela aos poucos”, define a própria artista.

A videoinstalação Sopro, realizada a partir de registros na Serra da Mantiqueira no período pré-pandemia, aprofunda essa investigação. O vídeo foi o ponto de partida para a pesquisa de Denise sobre a vida das plantas, alimentada pela leitura de Ailton Krenak e do livro A Vida das Plantas, de Emanuele Coccia — referências que tensionam a ideia de separação entre humano e natureza.

O núcleo Casa: objetos como inscrição de memória

No núcleo Casa, o olhar da artista se volta para o doméstico como arquivo afetivo. Tecidos, louças, talheres, cristais e objetos pessoais, coletados em feiras e brechós, são ativados como suportes de inscrição. Em Cama e Mesa, elementos têxteis, bordados herdados e fragmentos de objetos compõem uma estrutura em suspensão que expõe tensões nas relações cotidianas.

Um dos trabalhos mais tocantes da mostra é Palavras ao Vento. Nele, Denise utiliza parte do enxoval de sua avó — que se casou à distância, por procuração — e imprime frases recolhidas de questionários online com mulheres sobre conversas em chats e aplicativos de relacionamento. O resultado fala sobre a fluidez e a fragilidade do amor contemporâneo, em diálogo com o pensamento de Zygmunt Bauman. A instalação foi recentemente remontada na galeria Hosek Contemporary, em Berlim.

Na série Desfiar a Paisagem, a pintura migra para o tecido: aparas da indústria da moda são costuradas, sobrepostas e depois abertas por cortes, tornando-se matéria constitutiva da imagem. Já em Objetos Essenciais — Uma Arqueologia — apresentado na I Bienal Internacional de Poesia Experimental da Argentina, em novembro de 2024 —, utensílios recebem gravações a laser com palavras que produzem deslocamentos de sentido, fundindo a memória da artista à dos objetos. Em Cartas-Poema, textos datilografados em papel vegetal são amassados e jamais enviados, reunindo fragmentos de memória e linguagem em gestos de contenção.

O feminino como força crítica

Ao articular Jardim e Casa, a exposição desloca o feminino de um lugar de confinamento para um campo de operações ativas. A curadora Marisa Flórido conclui com precisão o que está em jogo:

Aquilo que sustenta, repete e cuida, mas também aquilo que prolifera, desborda e reconfigura. O que estava invisível torna-se sensível; o que era considerado menor revela sua centralidade. Entre raízes e paredes, o cuidado deixa de ser apenas um destino imposto e se apresenta como força crítica capaz de reorganizar as formas de ver, habitar e lembrar.

Marisa Flórido, curadora

Ao longo do período expositivo, serão realizadas ações como conversas e visitas guiadas, ampliando o diálogo com o público. A entrada é gratuita.


Serviço

Denise Calasans abre exposição sobre memória e cuidado no Rio
Foto: Divulgação

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