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Edifício Vertigem: duas vizinhas, uma noite de confissões

No corredor de um prédio carioca, duas vizinhas transformam um encontro inusitado em noite de confissões. “Edifício Vertigem” estreia em maio no Espaço Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.

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A cena é simples, mas carregada: uma madrugada no Rio de Janeiro, Fernanda aparece no corredor de touca, roupão e luvas de plástico. Raquel chega bêbada da Lapa. O que poderia ser apenas um momento constrangedor entre vizinhas se transforma em uma noite inteira de confissões, acusações e tentativas — nem sempre bem-sucedidas — de dar sentido a escolhas que já foram feitas.

Um texto sobre a geração que perdeu a conexão com o outro

A narrativa é assinada pelo escritor e dramaturgo gaúcho Pedro Gomes, em sua estreia na dramaturgia para o teatro. A direção é de Lara Coutinho, que também assina a direção de arte em parceria com Elisa Schumacher. A peça cruza humor com crítica social, transformando o corredor em um espaço de confronto com o passado, o presente e com versões de si mesmas que ambas já não conseguem sustentar.

O texto nasce de uma inquietação minha e sinto que também da minha geração. Acredito que a gente vem perdendo a conexão com o outro, que é fundamental para não ficarmos perdidos em nossas próprias projeções. A Fernanda e a Raquel precisam uma da outra nesse corredor. Elas enxergam na outra aquilo que falta nelas mesmas. — Pedro Gomes, dramaturgo

Ana Cordeiro e Tamie Panet no centro do palco

As personagens são vividas pelas atrizes Ana Cordeiro, que dá vida a Fernanda, e Tamie Panet, que interpreta Raquel. Juntas, elas revelam tensões de uma geração de mulheres em torno dos 30 e poucos anos, marcada por temas como casamento, maternidade, solidão, luto, perdas e a relação com o próprio corpo. Questões íntimas que, na peça, também expõem a crítica a um recorte social específico: o de mulheres privilegiadas, cujos conflitos existenciais são atravessados pelo contexto em que vivem.

A Fernanda é uma mulher que não percebeu a vida passando. Vejo nela um esforço muito grande para se libertar das amarras nas quais ficou presa, com a ajuda da Raquel. Acho que muita gente já viveu ou vai viver momentos de questionamento, e a arte tem esse papel muito importante de iluminar pontos cegos das nossas vidas. — Ana Cordeiro, atriz

Ana Cordeiro tem passagens pelo cinema, tendo trabalhado com Domingos de Oliveira no longa “Aconteceu numa Quarta-Feira”, e pela televisão, com participação na minissérie “Todas as Mulheres do Mundo”, de Jorge Furtado, entre outros trabalhos. Tamie Panet, atualmente no elenco da novela Globo das 18h “A Nobreza do Amor”, já participou de produções como as novelas “Três Graças” e “Dona de Mim”.

Sinto que Raquel e Fernanda têm os seus privilégios e as suas dificuldades, e que o encontro das duas serve muito como espelho para ambas. São personagens muito interessantes, muito contraditórias. Muitas vezes não percebemos, mas a vida sempre nos apresenta pessoas que nos mostram o que está bem na nossa frente. — Tamie Panet, atriz

A encenação como balança entre humor e desconforto

Lara Coutinho, além de dirigir, assina a direção de arte em parceria com Elisa Schumacher. Com experiência em filmes e séries como “Homem com H” (Netflix), “Um Contra Todos” (Globoplay) e “DOM” (Prime Video), ela propõe uma encenação construída a partir de uma leitura crítica do nosso tempo — e atualmente também trabalha em um longa sobre a biografia do Zeca Pagodinho, “Deixa a Vida me Levar”.

As personagens falam de questões fixadas em muitas de nós. Penso na encenação como uma balança entre o humor e o desconforto, o controle e o desequilíbrio. O público percorre esse corredor concreto, mas preenchido pelo encontro do inconsciente das duas personagens. — Lara Coutinho, diretora

A diretora ainda aponta para uma camada política da peça: enquanto as duas personagens estão absortas em seus conflitos internos, o mundo segue acontecendo ao redor. “A ideia é que a cena seja entrecortada por presenças que não fazem parte desta bolha — elementos que não foram convidados e nem ao menos reconhecidos, como os sons do mundo exterior. O barulho interior é tão alto que suprime a voz do coletivo”, finaliza Lara Coutinho.

Ficha Técnica


Serviço

Edifício Vertigem: duas vizinhas, uma noite de confissões
Foto: Daniella Mynssen
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