O encerramento da exposição Sala dos Espelhos, de Rodrigo Andrade, ganha um desdobramento especial neste sábado, 20 de junho, quando o artista e o curador Germano Dushá se encontram com o público na Almeida & Dale para uma conversa aberta. Mais do que uma despedida formal, o encontro propõe um mergulho direto nos processos e tensões que atravessam a produção recente do artista, em um momento-chave de sua trajetória.
Marcada para as 11h, a conversa acontece no último dia da mostra, em cartaz desde abril, e se apresenta como uma extensão crítica da própria exposição. Ao compartilhar bastidores, decisões e impasses, Andrade e Dushá revelam as camadas conceituais que sustentam o conjunto de obras exibido.
Uma virada na trajetória recente
Sala dos Espelhos marca a primeira exposição individual de Rodrigo Andrade em quatro anos e inaugura o que o próprio artista define como o início de “um ciclo de grandes proporções”. A mostra reúne trabalhos inéditos que reorganizam questões já presentes em sua produção, agora articuladas por novas relações entre espaço, matéria e representação.
Desde 2022, sua pintura vem se afastando das paisagens para explorar ambientes internos, estruturados por perspectivas centrais e espaços confinados. Essa mudança não é apenas formal, mas também conceitual, tensionando a forma como o espaço pictórico é construído e percebido.
Quando essas perspectivas e esses espaços interiores entraram na pintura, era algo a ser combatido. Ao mesmo tempo em que organizam o espaço, também o aprisionam.
A fala de Andrade sintetiza um dos núcleos centrais da exposição: a pintura como campo de disputa entre organização e ruptura, controle e escape.
Matéria, espelhos e tensão visual
A materialidade da pintura segue como eixo estruturante da pesquisa do artista. Em Sala dos Espelhos, esse interesse se manifesta de forma ainda mais intensa, com o uso de camadas densas de tinta e uma paleta concentrada em poucas cores, criando composições que oscilam entre figuração e abstração.
Elementos como espelhos, ornamentos e espaços liminares reaparecem nas obras, instaurando um jogo visual que desafia a percepção. Em uma das pinturas, uma tela preta de cerca de dois metros abriga duas formações que evocam espelhos, cada uma composta por aproximadamente 40 quilos de tinta.
O próprio artista descreve esse trabalho como um “Rothko punk”, apontando para uma convivência entre tradição e ruptura, reverência histórica e experimentação radical.
Entre reflexo e inquietação
O título da exposição faz referência à música Room Full of Mirrors, de Jimi Hendrix, sugerindo um espaço ao mesmo tempo lúdico e perturbador. A imagem de um ambiente saturado de reflexos serve como metáfora para um estado mental de intensa reflexão, onde múltiplas possibilidades coexistem sem síntese definitiva.
Mais do que oferecer respostas, Sala dos Espelhos reafirma a pintura como um campo aberto, marcado por tensões permanentes entre matéria e representação, ordem e caos. Essa recusa de fechamento é um dos pontos que tornam a exposição particularmente relevante dentro da produção contemporânea brasileira.
Uma trajetória em constante reinvenção
Nascido em 1962, em São Paulo, Rodrigo Andrade construiu uma trajetória marcada pela investigação contínua das possibilidades da pintura. Sua obra transita entre gesto e repetição, densidade e dissolução, criando superfícies que parecem sempre em transformação.
Seu início está ligado à retomada da pintura no Brasil nos anos 1980, quando integrou o ateliê Casa 7, grupo que ganhou projeção em importantes instituições. Desde então, participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, incluindo bienais e museus de referência.
Com trabalhos presentes em coleções como MAM São Paulo, Pinacoteca de São Paulo, MAC USP e Instituto Itaú Cultural, Andrade consolidou uma produção que equilibra rigor conceitual e impulso intuitivo, mantendo a pintura como um território vivo e em constante reinvenção.
A atuação da Almeida & Dale
Fundada em 1998, a Almeida & Dale se consolidou como uma das galerias mais influentes do país, com atuação nacional e internacional. Representando mais de 50 artistas e espólios, a galeria articula tradição e contemporaneidade em seu programa expositivo.
Em 2025, a fusão com a galeria Millan ampliou ainda mais sua atuação, reforçando o compromisso com o experimentalismo e a projeção internacional de artistas brasileiros. Com três endereços em São Paulo, a galeria segue como uma plataforma ativa na difusão da arte latino-americana.
Serviço
- Rodrigo Andrade: Sala dos espelhos
- Conversa com o artista Rodrigo Andrade e o curador Germano Dushá
- 20 de junho de 2026, sábado, às 11h
- Rua Fradique Coutinho, 1360
- Segunda a sexta-feira: 10h às 19h
- Sábado: 11h às 16h
- Entrada gratuita



