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Encontro secreto entre poetas sob a PIDE chega ao palco no Rio

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Poucas horas antes de fugir para o Brasil em 1959, o escritor Jorge de Sena teria vivido um último encontro com Sophia de Mello Breyner Andresen — interrompido por agentes da polícia política portuguesa. Esse instante, que talvez nunca tenha existido, ganha corpo no palco em “Um País Que é a Noite”, que estreia no Rio de Janeiro nos dias 9 e 10 de agosto.

Depois de lotar teatros em Portugal e figurar entre os destaques da 32ª edição do Festival Porto Alegre em Cena, em 2025, o espetáculo desembarca no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, para duas apresentações às 20h. A montagem é dirigida pelo dramaturgo Martim Pedroso e imagina o reencontro entre duas das vozes mais relevantes da resistência intelectual ao Estado Novo: Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena.

A cena parte de um pressuposto ficcional, mas ancorado em fato histórico: horas antes de embarcar rumo ao exílio no Brasil, em 1959, Sena teria se despedido secretamente de Sophia. O encontro é interrompido por agentes da PIDE, a polícia política da ditadura portuguesa, e é dessa tensão entre intimidade e vigilância que a peça extrai sua força dramática.

Um diálogo entre censura de ontem e de hoje

Entre o teatro documental e o drama histórico, o espetáculo reconstrói o clima de medo, censura e perseguição de um dos regimes autoritários mais longos da Europa. Ao mesmo tempo, propõe uma reflexão sobre temas que a montagem trata como persistentes: democracia, liberdade de expressão, intolerância política e o papel da cultura diante do autoritarismo.

Embora a peça dialogue com um período específico da história portuguesa, ela fala do presente. Enquanto houver censura, perseguição ao pensamento crítico e ameaças à democracia, esta história continuará a fazer sentido.

A frase é do próprio Martim Pedroso, que assina também o texto ao lado da escritora e jornalista carioca Flávia Lins e Silva e da romancista luso-brasileira Tatiana Salem Levy. Para o diretor, o teatro cumpre a função de preservar a memória e impedir que o esquecimento se torne, ele mesmo, um instrumento de opressão.

Flávia Lins e Silva reforça que a intenção do grupo não era limitar a narrativa a um recorte português. “Queríamos falar da coragem de quem escolhe pensar, escrever e criar mesmo diante da violência do poder. A poesia, neste espetáculo, torna-se um ato de resistência e uma forma de manter viva a esperança”, afirma a dramaturga.

Cartas reais, encontro imaginado

A base dramatúrgica da peça está nas cartas trocadas entre os dois escritores, documentos que revelam a dimensão íntima de uma história atravessada pela repressão política. A partir desse material, os autores construíram um encontro de despedida que talvez nunca tenha ocorrido, mas que, em cena, ganha contornos de eternidade pela força dos vínculos criados na escrita.

Tatiana Salem Levy destaca que o processo de escrita buscou equilibrar rigor histórico e emoção. “É nesse cruzamento entre o coletivo e o individual que a peça encontra sua força”, diz a autora, que assina o texto ao lado de Pedroso e Lins e Silva.

Produzido pela Nova Companhia em coprodução com o Teatro da Trindade – INATEL, o espetáculo integra as comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos e conta com financiamento da República Portuguesa, por meio da Direção-Geral das Artes e da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril.

O que a montagem propõe ao público brasileiro

Para Flávia Lins e Silva, a passagem pelo Rio de Janeiro tem um significado adicional. “A peça oferece ao público brasileiro uma oportunidade de conhecer uma produção que alia rigor histórico, força dramatúrgica e relevância política, reafirmando a arte como espaço de memória, reflexão e resistência. Assim como em Portugal, não podemos deixar a ditadura brasileira cair no esquecimento e montagens como essas são refresco para a memória social do nosso país”, afirma a dramaturga.


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