Duzentos anos depois de atravessar rios e territórios ainda pouco conhecidos, a expedição Langsdorff retorna como um espelho incômodo do Brasil contemporâneo. Em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP), a exposição “Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois” propõe um confronto direto entre o país documentado no século XIX e as transformações profundas impostas pela crise ambiental atual.
A iniciativa surge em um momento marcado pelo agravamento das mudanças climáticas, pelo avanço do desmatamento e por disputas crescentes em torno de territórios tradicionais. Ao revisitar a travessia realizada entre 1826 e 1829, o projeto não se limita a olhar o passado — ele tensiona o presente e levanta uma pergunta inevitável: o que aconteceu com aquele Brasil registrado há dois séculos?
Uma expedição que moldou a imagem do Brasil
Chefiada por Georg Heinrich von Langsdorff e financiada pelo Império Russo do czar Alexandre I, a jornada partiu de Porto Feliz, em 22 de junho de 1826, com um objetivo ambicioso: explorar, mapear e compreender o interior do Brasil. A travessia fluvial percorreu o caminho do Tietê ao Amazonas, passando por São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará.
O grupo reunia cientistas e artistas que desempenhariam papéis fundamentais na documentação do território. Entre eles estavam o botânico Ludwig Riedel, o astrônomo Néster Rubtsov, o pintor Aimé-Adrien Taunay e o desenhista e inventor Hercule Florence, cuja produção visual se tornaria um dos registros mais importantes do Brasil oitocentista.
Florence, que se estabeleceria definitivamente no país, deixou um conjunto de diários, desenhos e relatos que ajudaram a construir a imagem do Brasil no exterior. Esse material, hoje preservado em diferentes instituições, é a base histórica que sustenta a exposição apresentada na USP.
Passado e presente em confronto
Com curadoria do Instituto Hercule Florence, a mostra reúne mais de uma centena de obras e documentos. Distribuída entre a Sala Multiuso e a Sala BNDES, a exposição estabelece um diálogo contínuo entre registros históricos e produções contemporâneas realizadas nas mesmas regiões percorridas pela expedição original.
De um lado, estão desenhos, relatos e publicações do século XIX, vindos de acervos como o da própria BBM-USP, do Instituto Moreira Salles e da Bibliothèque nationale de France. De outro, fotografias recentes de artistas como Lalo de Almeida, Paula Sampaio, Miguel Chikaoka e João Pompeu revelam um território profundamente transformado.
Essas imagens contemporâneas não apenas atualizam a paisagem: elas expõem cicatrizes. Assoreamento de rios, queimadas, desmatamento e conflitos territoriais aparecem como elementos centrais, criando um contraste direto com o olhar exploratório e, muitas vezes, maravilhado dos viajantes do século XIX.
Entre memória e alerta ambiental
Ao evitar tratar a expedição como uma façanha heroica, o projeto propõe uma leitura crítica da história. Para Antonio Florence, fundador do Instituto Hercule Florence, a travessia funciona quase como um alerta sobre a rapidez das transformações ambientais.
“Em apenas dois séculos, um intervalo ínfimo na história da humanidade, alteramos profundamente os ecossistemas que aqueles viajantes conheceram.”
A observação aponta para uma mudança de perspectiva: o século XIX, responsável por consolidar modelos de exploração econômica, também lançou as bases para a crise ambiental atual. Revisitar essa trajetória, portanto, não é apenas um exercício histórico, mas uma forma de compreender os impasses do presente.
Para a curadora Francis Melvin Lee, o valor da iconografia da expedição vai além da memória visual. Ela revela um momento em que a intervenção humana ainda não havia atingido a escala atual — um contraste que se torna evidente quando essas imagens são colocadas lado a lado com registros contemporâneos.
Cinema amplia o debate
O projeto não se limita ao espaço expositivo. Ele se desdobra em uma mostra de cinema ambiental brasileiro, com curadoria de Mônica Guimarães, da Documenta Pantanal. As sessões acontecem no auditório da BBM-USP, no Centro MariAntônia e no IMS Paulista, ampliando o alcance da discussão proposta pela exposição.
O encerramento da mostra audiovisual está marcado para o dia 25, às 19h, no Cinema do IMS, com a exibição de A queda do céu, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. O documentário acompanha a comunidade Watoriki durante o ritual funerário Reahu, em um esforço coletivo descrito como uma tentativa de “segurar o céu”.
A programação completa pode ser consultada em:
https://ihf19.org.br/langsdorff200/cinema/
Pesquisa, memória e futuro
Responsável pela curadoria da exposição, o Instituto Hercule Florence atua na preservação e difusão da obra do artista e inventor. A instituição reúne, organiza e digitaliza manuscritos originais, além de promover estudos interdisciplinares sobre cultura, ciência e história no Brasil.
Hercule Florence é reconhecido por suas experiências pioneiras no campo da reprodução de imagens e por pesquisas realizadas ainda na década de 1830, que o colocam como uma figura singular na história da fotografia. Seu legado, revisitado agora em diálogo com o presente, reforça a potência da arte e da ciência como ferramentas de reflexão crítica.
Ao reunir passado e presente em um mesmo percurso narrativo, o projeto transforma uma expedição científica em um instrumento de questionamento coletivo. Mais do que revisitar o que foi registrado, a mostra convida a repensar o que está sendo construído — e o que ainda pode ser preservado.
Serviço
- Exposição: “Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois”
- Local: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP)
- Período expositivo: de 31 de março até 26 de junho de 2026
- Endereço: Rua da Biblioteca, 21 | Cidade Universitária – SP
- Horário: de segunda-feira a sexta-feira, das 8h30 às 20h30; sábados, domingos e feriados, fechado
- Entrada gratuita

