A cor azul deixa de ser apenas um elemento visual e ganha dimensão sensorial na nova exposição de Daniela Dib no Museu da Imagem e do Som. Em “Quando o sonho encontra o azul”, a artista apresenta um conjunto inédito de fotografias que convidam o público a desacelerar e mergulhar em um universo onde percepção, memória e imaginação se cruzam.
Com direção artística de Marcelo Greco, a mostra reúne cerca de 15 imagens produzidas entre 2021 e 2026. O conjunto revela um percurso íntimo da artista, marcado por atmosferas silenciosas, jogos de luz e sombra, reflexos e paisagens que parecem suspensas no tempo. O resultado é uma narrativa visual que se equilibra entre o concreto e o onírico.
O azul como experiência e linguagem
O ponto de partida da exposição é o fascínio de Daniela Dib pela cor azul. Mais do que um recurso estético, ela surge como um estado emocional e simbólico. A artista se inspira em estudos linguísticos que indicam a ausência da palavra “azul” em diversas civilizações antigas, sugerindo um tempo em que céu e mar eram percebidos como territórios ainda não nomeados.
Essa ausência de definição transforma o azul em uma presença aberta, quase indefinível. Nas fotografias, ele não aparece necessariamente como cor dominante, mas como atmosfera — algo que envolve a cena e orienta a experiência do olhar.
Entre reflexos, sombras e gestos sutis, Dib constrói imagens que não se explicam de imediato. Há uma tensão delicada entre proximidade e distância, entre o que se revela e o que permanece oculto. Cada fotografia sugere uma pausa, um convite à contemplação.
Entre o íntimo e o invisível
As obras apresentadas refletem diretamente o universo interior da artista. Mais do que registros visuais, são fragmentos de percepção, atravessados por emoções e estados de espírito.
“As fotos apresentadas na exposição representam muito do meu universo interior. Uma busca silenciosa, um olhar através de uma fresta, habitando uma dimensão entre o caos e a magia da vida cotidiana – um delicado equilíbrio entre as pulsões de vida e morte”
A fala da artista ajuda a compreender a camada mais profunda do trabalho: há uma tentativa de capturar aquilo que escapa, o instante que não se fixa completamente. As imagens operam nesse limite, onde o visível encontra o invisível.
Essa abordagem reforça a natureza contemplativa da exposição. Em vez de conduzir o visitante por uma narrativa linear, a mostra propõe uma experiência aberta, em que cada pessoa constrói seu próprio percurso sensível.
Uma experiência imersiva no MIS
A montagem da exposição foi pensada para ampliar essa dimensão sensorial. As fotografias serão instaladas de forma a sugerir leveza e suspensão, como se estivessem flutuando no espaço expositivo. Esse recurso reforça a ideia de deslocamento e instabilidade presente nas imagens.
Além disso, um leve som de água acompanha o percurso, criando uma ambientação que dialoga diretamente com o conceito da mostra. O elemento sonoro não apenas complementa as imagens, mas amplia a percepção do público, tornando a visita mais imersiva.
O resultado é um ambiente que contrasta com a velocidade do cotidiano. Em vez de estímulos intensos ou excesso de informação, a exposição aposta na sutileza, no silêncio e na pausa como formas de engajamento.
Trajetória e reconhecimento
Nascida em Porto Alegre, Daniela Dib construiu uma trajetória que atravessa diferentes linguagens antes de chegar à fotografia autoral. Formada em Desenho Industrial pela ULBRA, ela atuou por anos no universo da moda até decidir, em 2018, direcionar seu trabalho para a fotografia, iniciando seus estudos no MAM São Paulo.
Desde então, sua produção tem ganhado reconhecimento em diferentes contextos. Em 2020, foi premiada pelo edital “Arte como Respiro”, do Itaú Cultural, iniciativa que resultou no livro “Aqueles Dias”, publicado em 2021 pela Editora Origem e finalista do Primeiro Prêmio Lovely House na categoria Fotolivro.
Além disso, a artista também desenvolveu projetos independentes, como “Caminho de volta” (2019) e o zine “Paisagens Internas” (2022), ampliando sua pesquisa sobre memória, percepção e subjetividade.
Seu trabalho já integrou exposições e publicações nacionais e internacionais, incluindo “Eye Mama Project” (Reino Unido, 2023), “The Annihilation of Space and Time” (Japão, 2023) e “Neptune Journal” (França, 2024), consolidando sua presença no circuito contemporâneo.
Nova Fotografia e novos olhares
A exposição integra o programa Nova Fotografia 2026 do MIS, iniciativa que seleciona anualmente seis fotógrafos por meio de convocatória aberta. O projeto tem como foco revelar e impulsionar novos talentos, destacando produções inéditas com originalidade técnica e estética.
A seleção é realizada pelo Núcleo de Programação do museu, sob supervisão da curadoria geral. Após o período expositivo, as séries escolhidas passam a integrar o acervo do MIS, ampliando o alcance e a permanência desses trabalhos.
Para Daniela Dib, participar do programa representa um marco significativo em sua trajetória.
“Ser selecionada por uma instituição do tamanho e importância do MIS é uma imensa honra. É uma mistura de felicidade, insegurança e orgulho. Ver que meu olhar atravessa outros olhares e emociona as pessoas é algo muito especial”
A fala evidencia não apenas o reconhecimento institucional, mas também a dimensão afetiva envolvida no processo artístico.
Serviço
- Exposição: “Quando o sonho encontra o azul”
- Entrada gratuita
- Abertura: 23 de junho, terça-feira, às 19h
- Período de visitação: de 23 de junho a 3 de agosto
- Local: Museu da Imagem e do Som | Av. Europa, 158 – Jardim Europa – São Paulo/SP
- Horário de funcionamento: terças a sextas, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h
- Instagram: @mis_sp | @danidibphoto
- Site: https://mis-sp.org.br/



