As plantas nunca foram apenas cenário na obra de Roberto Burle Marx. Na exposição Burle Marx: Plantas em Movimento, em cartaz no Museu Judaico de São Paulo, a vegetação surge como elemento central de uma linguagem artística que segue viva, dinâmica e em transformação — um conceito que ganha nova força diante das urgências ambientais contemporâneas.
Realizada em parceria com o Instituto Burle Marx, a mostra apresenta um recorte introdutório da produção do artista, reunindo desenhos de projetos, fotografias, filmagens e documentos que ajudam a compreender como espécies vegetais estruturam suas composições paisagísticas. Com curadoria de Isabela Ono e Guilherme Wisnik, a exposição segue em cartaz até 2 de agosto.
Plantas como linguagem e movimento
O percurso expositivo evidencia um dos aspectos mais singulares da obra de Burle Marx: o paisagismo entendido como linguagem viva. Em seus projetos, as plantas não ocupam um papel decorativo, mas estruturante — organizando espaços, criando ritmos visuais e estabelecendo relações dinâmicas que se transformam ao longo do tempo.
A seleção apresentada privilegia a recorrência de determinadas espécies e suas combinações, revelando um verdadeiro vocabulário vegetal. Esse repertório atravessa sua produção e se ancora na observação direta dos biomas brasileiros, bem como na relação entre natureza e cultura.
Mais do que uma retrospectiva cronológica, a exposição propõe um olhar atento sobre como essas escolhas constroem uma poética baseada no movimento, na mutação e na convivência entre formas diversas.
Um processo coletivo e experimental
Outro eixo importante da mostra é o caráter coletivo do trabalho de Burle Marx. Seus projetos não eram construídos de forma isolada, mas a partir de um diálogo constante com botânicos, arquitetos, paisagistas, artistas e jardineiros.
As expedições realizadas pelo território brasileiro também desempenharam papel fundamental nesse processo. Foi a partir dessas viagens que o artista ampliou seu conhecimento sobre a biodiversidade nacional, incorporando espécies nativas em suas composições e promovendo deslocamentos entre diferentes biomas e contextos.
A atualidade do legado de Burle Marx reside em sua militância absolutamente pioneira em prol da preservação da natureza, e também na sua compreensão da arte como uma presença viva e em movimento, já que os elementos com os quais trabalhava – as espécies vegetais – mudam constantemente, não admitindo formas fixas.
A afirmação do curador Guilherme Wisnik sintetiza um dos pontos centrais da exposição: a ideia de que o trabalho de Burle Marx permanece atual não apenas por sua estética, mas por sua dimensão ética e ambiental.
Entre natureza, cultura e identidade
A trajetória de Burle Marx também é apresentada sob uma perspectiva cultural mais ampla. Filho de um judeu alemão emigrado para o Brasil no início do século 20, o artista desenvolveu uma abordagem aberta à convivência entre diferenças — algo que se reflete diretamente em suas composições, onde espécies de origens distintas coexistem de forma harmônica.
Essa dimensão ganha destaque na leitura proposta pela exposição, que aproxima sua obra de uma experiência histórica marcada por deslocamentos, adaptações e reinvenções.
Na exposição, Burle Marx é apresentado como figura central do paisagismo moderno e de uma reivindicação ambientalista ainda incipiente no Brasil.
Segundo Patricia Wagner, diretora de Curadoria e Participação do Museu Judaico de São Paulo, sua prática incorporou uma dimensão crítica voltada a questões como preservação ambiental, valorização da biodiversidade e construção de cidades mais sustentáveis e inclusivas.
Essa leitura amplia o entendimento da obra do artista, posicionando-o não apenas como um criador de paisagens, mas como um pensador que articulou arte, natureza e sociedade em um projeto cultural de grande alcance.
Paisagismo como ferramenta de futuro
A exposição também destaca o compromisso ético presente na atuação de Burle Marx. Para a curadora Isabela Ono, o paisagismo foi entendido por ele como uma ferramenta capaz de promover cidades mais verdes, plurais e inclusivas, ampliando o bem viver.
Esse aspecto reforça a atualidade de seu legado, especialmente em um contexto marcado por desafios ambientais e urbanos cada vez mais complexos. Ao colocar a vegetação no centro do projeto, Burle Marx antecipou debates que hoje se tornaram urgentes.
Mais do que revisitar uma obra histórica, Plantas em Movimento propõe uma reflexão sobre o presente e o futuro das cidades, evidenciando o paisagismo como uma prática crítica e transformadora.
O papel do Museu Judaico de São Paulo
Inaugurado em 2021, o Museu Judaico de São Paulo se consolidou como um espaço dedicado à diversidade das expressões culturais judaicas em diálogo com o contexto brasileiro e contemporâneo. Com o maior acervo judaico da América Latina, a instituição também atua na defesa dos direitos humanos e no combate ao preconceito.
Além das exposições, o museu promove uma programação ampla que inclui festivais literários, concertos, debates, oficinas e atividades educativas. O espaço ainda conta com biblioteca, café e loja, ampliando a experiência do visitante.
A parceria com o Instituto Burle Marx reforça esse compromisso com a produção de conteúdo cultural relevante e conectado a temas contemporâneos.
Serviço
- Exposição: Burle Marx: Plantas em Movimento
- Curadoria: Isabela Ono e Guilherme Wisnik
- Abertura: 30 de abril
- Período expositivo: 30 de abril a 2 de agosto
- Local: Museu Judaico de São Paulo
- Endereço: Rua Martinho Prado, 128 – São Paulo, SP
- Funcionamento: Terça a domingo, das 10 horas às 18 horas (última entrada às 17h30)
- Ingresso: R$24,00 (inteira) | R$12,00 (meia) | sábados gratuitos
- Acesso para pessoas com mobilidade reduzida

