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Exposição transforma objetos comuns em reflexão sobre solidão

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A repetição de gestos simples e o acúmulo de objetos cotidianos ganham novos significados na exposição “Algo Sobre a Solidão”, da artista Elke Coelho, que estreia no dia 25 de junho na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis. A mostra reúne cerca de 20 obras e propõe uma imersão sensível no tempo, no trabalho manual e na experiência silenciosa da solidão.

A abertura ocorre às 19h, mas o público poderá se aproximar ainda mais do processo criativo da artista em uma Roda de Conversa que antecede a inauguração, às 18h, no mesmo local. Tanto a exposição quanto o encontro têm entrada gratuita.

Objetos comuns, significados ampliados

A base da exposição está na transformação de materiais simples em experiências visuais complexas. As obras de Elke Coelho utilizam itens de uso cotidiano como cotonetes, alfinetes, flores ornamentais, cápsulas de comprimido, recipientes de vidro e guardanapos de papel.

Esses elementos são organizados por meio de repetição e acúmulo, criando instalações de parede e objetos que exigem atenção ao detalhe e uma observação mais demorada. Já as pinturas presentes na mostra foram realizadas com pastel oleoso sobre papel, ampliando o repertório técnico da artista dentro da mesma investigação conceitual.

O tempo como matéria da obra

Mais do que os materiais em si, a exposição se estrutura a partir da ideia de tempo. A artista destaca a presença de uma “temporalidade distendida” nos processos de criação, que atravessa praticamente todos os trabalhos apresentados.

Um dos exemplos mais emblemáticos é a obra “Ferida”, composta por mais de duzentas mil flores sempre-viva vermelhas organizadas em cerca de 550 caixas de acrílico. A construção dessa peça exigiu mais de cem horas de trabalho ao longo de oito meses.

Outro destaque é “Deserto”, que reúne quase trinta mil pontas de cotonetes. Cada unidade foi selecionada, cortada e posicionada manualmente em grades plásticas, em um processo minucioso e repetitivo que demanda longas horas de dedicação.

Contra o ritmo acelerado

A insistência no trabalho manual e na repetição aparece também como uma crítica ao ritmo contemporâneo. Para a artista, a lentidão que marca seu processo criativo contrasta diretamente com a lógica dominante da velocidade.

“Experiências similares, em termos de artesania, se aplicam a maior parte dos meus trabalhos e essas práticas manuais demandam um tipo de temporalidade que vai na contramão do fluxo contemporâneo. Sendo a rapidez, desde a instalação do capitalismo, entendida enquanto qualidade, a morosidade torna-se, neste tipo de sociedade, uma debilidade”

Essa tensão entre tempo, produção e percepção atravessa toda a exposição, convidando o público a desacelerar e observar os detalhes que, à primeira vista, poderiam passar despercebidos.

Trajetória e reconhecimento

A mostra foi selecionada pelo Edital de Exposições 2026 e marca a primeira apresentação de “Algo Sobre a Solidão” em Florianópolis. Para Elke Coelho, o reconhecimento institucional tem um peso importante dentro de sua trajetória.

“Para mim, em termos conceituais, ter sido selecionada, dentre tantas propostas de vários lugares do país, foi uma grande honra. E espero que, por algum motivo, o que será exibido faça sentido para quem visitar a exposição”, afirma.

Pesquisadora, artista e professora do Departamento de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina (UEL/PR), Elke possui mestrado pela UFRGS e doutorado pela USP. Sua produção, desenvolvida ao longo de duas décadas, é marcada justamente pelo uso de objetos cotidianos e por procedimentos de repetição e acúmulo.

Além das exposições individuais e coletivas das quais participa desde 2005, a artista também é uma das organizadoras do livro Cartografias Cotidianas (2011) e autora da trilogia Coisas de Iracema (2017-2020-2023).

Visitação e acesso

A exposição permanece aberta ao público até o dia 13 de agosto, no Espaço Fernando Beck, dentro da Fundação Cultural Badesc. A visitação pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 13h às 19h, e aos sábados, das 10h às 16h.

Com entrada gratuita, a mostra se apresenta como uma oportunidade de contato direto com uma produção que valoriza o tempo, o gesto e a transformação do banal em experiência estética.


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