A Orquestra Carioca de Flautas levou Pixinguinha, Tim Maia e Arlindo Cruz ao Museu da Justiça do Rio em tributo à ancestralidade negra e indígena.
Na tarde desta quinta-feira, 7 de maio, a Sala Multiuso do Edifício Desembargador Caetano Pinto de Miranda Montenegro ganhou outro significado. As flautas — do flautim às graves — preencheram o espaço com choro, samba e uma proposta que ia muito além da música: resgatar, por meio das notas, a memória de quem construiu a cultura brasileira e ainda luta por reconhecimento.
O concerto da Orquestra Carioca de Flautas foi organizado pelo Museu da Justiça do Rio como um tributo aos povos negros e originários, posicionado entre duas datas simbólicas: o Dia dos Povos Indígenas, em 19 de abril, e o aniversário da Abolição da Escravidão no Brasil, em 13 de maio.
Um repertório com alma e intenção
Paulinho da Viola, Pixinguinha, Tim Maia, Caymmi, Raul Costa d’Avila, Lô Borges e Hermeto Pascoal. A lista de homenageados diz muito sobre o recorte proposto pelo diretor artístico Sérgio Barrenechea, responsável por idealizar a orquestra há dez anos e por montar a coletânea especial da noite.
A gente escolheu um repertório que represente nosso público. Todas as músicas têm algum componente cultural identitário porque cultura é isso: é se comunicar com as pessoas a partir das artes e da música.
Sérgio Barrenechea, diretor artístico da Orquestra Carioca de Flautas
No palco, as flautas dividiram espaço com violão e cavaquinho — convidados especiais da noite. Gabriel Improta e Eduardo Seabra assumiram os instrumentos de corda e completaram uma formação que soou orgânica, quase como uma roda de choro que ganhou escala orquestral.
O maestro que pedia palmas — e o público que respondia
Eduardo Lagreca Fan conduziu a apresentação com uma postura que misturava rigor musical e despojamento. Em certos momentos, virou-se para a plateia e pediu que as palmas se juntassem ao sopro das flautas. O público respondeu. Foi esse tipo de troca que transformou um concerto formal em algo mais parecido com uma conversa.
A historiadora Julia Penelis foi uma das que saiu do evento visivelmente tocada. Ela havia chegado motivada pela curiosidade e saiu com outra sensação.
Música é uma das coisas que mais amo. Quando eu soube dessa orquestra aqui, pensei: eu não posso perder isso. Eu fiquei com o coração realmente tomado, parecia que estava em um sonho, envolta em uma sensação onírica.
Julia Penelis, historiadora e espectadora do concerto
Quando as flautas deram vez ao canto
Em alguns momentos da apresentação, as solistas Thayssa Nascimento e Isabella Passos colocaram os instrumentos de lado. A voz tomou o lugar do sopro — e o resultado mudou completamente a textura da performance, dando ao concerto uma amplitude que poucos esperavam de um grupo essencialmente de flautas.
O encerramento ficou por conta de “Meu lugar/Madureira”, de Arlindo Cruz. Uma escolha que resumiu bem a noite: uma música sobre pertencimento, cantada num espaço que, por algumas horas, pertenceu a todos que estavam ali.
Mais do que um show: uma tomada de posição cultural
Para Grace Rial, produtora cultural do Museu da Justiça do Rio, a iniciativa tem uma responsabilidade que vai além do entretenimento.
Esse é um concerto dedicado à celebração da memória, da ancestralidade e da diversidade cultural dos povos negros e originários. A proposta foi evidenciar, na música, elementos históricos e culturais ligados a esses grupos.
Grace Rial, produtora cultural do Museu da Justiça do Rio
A Orquestra Carioca de Flautas completa uma década de atividade com um perfil claro: música brasileira de raiz, formação diversa e compromisso com a identidade cultural. O concerto desta quinta foi mais um capítulo dessa trajetória — e um dos mais carregados de sentido.
Serviço
- Evento: Concerto da Orquestra Carioca de Flautas
- Data: 7 de maio de 2025
- Local: Sala Multiuso do Edifício Desembargador Caetano Pinto de Miranda Montenegro — Museu da Justiça do Rio
- Regência: Eduardo Lagreca Fan
- Direção artística: Sérgio Barrenechea
- Solistas vocais: Thayssa Nascimento e Isabella Passos
- Músicos convidados: Gabriel Improta (violão) e Eduardo Seabra (cavaquinho)

