A Galeria Estação abre 2026 com “Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi”, de 5/3 a 11/4, reunindo 22 pinturas e a série Nbimda.
Aberta ao público em 5 de março, com visitação até 11 de abril, a exposição “Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi” inaugura a programação de 2026 da Galeria Estação. A mostra reafirma a força poética e a crescente complexidade do trabalho do artista paulistano Rafael Pereira, de 39 anos.
Ao longo da trajetória, Pereira percorreu diversos estados do Brasil, viveu 14 anos em Teófilo Otoni (MG) e, atualmente, reside em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Agora, ele apresenta um conjunto que articula memória, identidade e subjetividade.
Da “Lapidar Imagens” à nova individual
Desde “Lapidar Imagens”, sua primeira individual na Galeria Estação, realizada em 2023, o artista atravessou um ciclo de amadurecimento. Nesse período, ele ampliou o vocabulário visual ao revisitar pontos estruturantes de sua trajetória, da formação como lapidador de pedras preciosas à experiência de circulação pelo país.
“Desde que Rafael entrou na Estação, em 2023, acompanhamos de perto seu processo consistente de amadurecimento. Ele é um artista que cresceu em segurança, em repertório e em consciência do próprio trabalho. Entre ‘Lapidar Imagens’ e esta nova individual sua obra ganhou densidade.”
A avaliação é de Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação. Ela afirma que o respaldo institucional foi decisivo para o artista se sentir mais livre para arriscar, aprofundar processos e ampliar a linguagem.
22 pinturas e a série Nbimda
Produzidas no biênio 2024–2025, as pinturas inéditas incorporam um universo multicolorido de retratos, paisagens e elementos simbólicos. Segundo Rafael Pereira, o conjunto nasce de uma escuta profunda de si, em um processo consciente de desaceleração.
“Hoje eu sinto que o meu trabalho acontece em outro tempo. Antes, eu tinha muita urgência, uma necessidade de produzir o tempo todo, quase como se eu precisasse provar alguma coisa. Agora eu entendo que esses processos devem ser mais lentos, que a pintura precisa de tempo para maturar, assim como eu.”
Com dois núcleos, a mostra reúne 22 pinturas no 2º andar — 20 retratos e duas naturezas-mortas — e apresenta, no mezanino, a série Nbimda. O conjunto é formado por 16 pinturas de cabeças, de dimensões variáveis, e cada obra representa uma divindade (nkisi) cultuada no candomblé de Angola de matriz Bantu.
Catálogo e leitura crítica
Com texto crítico no catálogo, o historiador da arte Renato Menezes destaca a centralidade simbólica da cabeça como elo entre corpo, ancestralidade e divino. Na leitura do autor, a temática organiza a série Nbimda e amplia as possibilidades de interpretação do trabalho.
“O que para os europeus se apresentou unicamente como fisionomia, isto é, como emanação da personalidade, revela-se, na pintura de Pereira, como elo com o divino: a cabeça, orí para os Iorubá e mutuê para os Bantu. É na cabeça onde reside a força vital do indivíduo; está ali sua conexão com o nkisi, a energia ancestral e destino individual que cada sujeito traz consigo ao nascer. O tema da cabeça ancestral organiza a série Nbimda.”
Ao exaltar e ressignificar a ancestralidade afrodiaspórica, Rafael Pereira também explicita o desejo de dar maior complexidade às discussões sobre racialidade. Com isso, ele busca afastar leituras reducionistas em favor da construção de uma subjetividade negra.
“Não quero que meu trabalho seja lido só a partir de um corte racial. Não quero que um corpo negro sorrindo seja visto como um acontecimento, enquanto um corpo branco sorrindo é só uma imagem. O que me interessa é construir uma subjetividade negra que seja complexa, íntima e contraditória.”
Menezes observa que a produção recente, marcada pela força intuitiva do gesto pictórico, amplia as leituras já sugeridas em “Lapidar Imagens”. No catálogo, ele aponta como o artista absorve códigos da retratística tradicional e, ao mesmo tempo, cria fisionomias por imaginação, acionando memória, intuição e reinvenção.
“Em um primeiro momento, sua obra parece resultar diretamente da absorção desses códigos da retratística tradicional para, a partir deles, imaginar futuros, reconstituir histórias e inventar identidades, superando o modo como a vida negra foi avaliada. Por outro lado, o artista cria fisionomias a partir de sua imaginação, como em um exercício de ajuste de contas com a história e de acesso a uma dimensão da memória neutralizada pelo trauma: a intuição é uma tecnologia ancestral.”
Processos, técnicas e residência
A exposição evidencia a ampliação de técnicas experimentadas durante o período formativo, como o uso de bastão de giz pastel óleo sobre papel. Parte das obras foi produzida em março de 2025, durante residência artística em Goiânia (GO), no Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes.
O projeto foi idealizado pelo artista visual e educador Dalton Paula e pela professora e pesquisadora de cinema Ceiça Ferreira. Localizado em um quilombo do bairro conhecido como Setor Shangri-lá, o espaço articula tradições culturais afro-brasileiras e práticas de arte contemporânea, com atividades em cerâmica, gravura, capoeira angola, agroecologia e cineclube.
Vilma Eid afirma que a experiência foi decisiva para o artista, tanto no plano técnico quanto na troca com outros criadores. Segundo ela, abrir a programação de 2026 com Rafael Pereira foi uma decisão alinhada ao momento de circulação do trabalho e ao vínculo do público com a obra.
Serviço
Exposição “Rafael Pereira: A Cabeça de Zumbi”
Quando: de 5 março a 11 de abril de 2026
Onde: Galeria Estação
Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros, São Paulo
Vernissage: 05/3 (quinta-feira), a partir das 18h
Horários de funcionamento da galeria: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.
Tel: 11 3813-7253


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