Um homem trancado em casa tenta lembrar onde deixou a chave — e acaba abrindo um retrato incômodo da sociedade atual, entre risos e contradições.
Em “Idiota Convicto”, o ator, diretor e palhaço Hugo Possolo celebra 45 anos de carreira com um solo inédito que transforma memória em dramaturgia crítica. A temporada segue até 29 de agosto, com apresentações aos sábados, às 22h, no Espaço Parlapatões, em São Paulo. No palco, o artista incorpora múltiplos personagens enquanto revisita situações absurdas e familiares, costuradas por textos de Luís Alberto de Abreu, Ana Saggese, Maíra Dvorek, Michelle Ferreira e Sérgio Roveri.
“Quero deixar ao público as reflexões de como e porque nos tornamos assim, tão tolos e tão convictos de nosso destino errático e sem sentido.”
A premissa é simples: um ator não consegue sair do próprio apartamento porque perdeu as chaves. Ao tentar reconstruir seus passos, mergulha em lembranças que se desdobram em personagens — todos atravessados por traços de arrogância, ignorância e contradição. A figura central, um “idiota absoluto” convencido de sua razão, funciona como espelho deformado de comportamentos contemporâneos.
Personagens que expõem o desconforto
Os textos foram escritos especialmente para o projeto e exploram situações limite. Um homem que encontra uma “argola viva” na calçada, um professor de cinema que trata a própria vida como roteiro, um Deus autoritário e descontrolado, e um pai incapaz de aceitar a felicidade do filho. Cada quadro amplia a sensação de deslocamento — e reconhecível absurdo.
A comicidade surge como ferramenta de tensão, não de alívio. Possolo parte da palhaçaria e do teatro popular para tensionar temas como intolerância, radicalização política e desprezo pelas artes e pela ciência. A crítica não aponta soluções. Expõe sintomas.
Quatro décadas e meia em cena
Aos 63 anos, Possolo soma mais de 100 espetáculos e uma trajetória que atravessa teatro, televisão, ópera e gestão cultural. Fundador dos Parlapatões em 1991, grupo que completa 35 anos, também participou da criação da SP Escola de Teatro e atuou como curador e gestor público. O espaço que abriga o espetáculo, na Praça Franklin Roosevelt, celebra duas décadas de atividade.
“Idiota Convicto” é seu terceiro solo. Antes, vieram “Prego na Testa” (2005), indicado ao Prêmio Shell de melhor ator, e “Eu Cão Eu” (2012), indicado a melhor texto. Agora, a proposta se desloca para uma construção fragmentada, em que memória, crítica social e humor convivem sem hierarquia.
Humor diante do colapso
O espetáculo nasce de uma inquietação direta: como lidar, em cena, com um mundo cada vez mais agressivo e polarizado. Redes sociais, extremismos políticos, crises ambientais e descrédito nas instituições aparecem como pano de fundo — nunca como tese, mas como atmosfera.
Ao ridicularizar seus próprios personagens, Possolo dilui fronteiras entre palco e plateia. O riso não distancia. Aproxima. E, nesse movimento, transforma o “idiota” em figura coletiva.
Serviço
- Espetáculo: “Idiota Convicto”, Hugo Possolo
- Datas: 18 e 25 de julho; 08, 15, 22 e 29 de agosto (sábados, exceto 01/08)
- Horário: 22h
- Local: Espaço Parlapatões – Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação – São Paulo/SP
- Capacidade: 96 lugares
- Duração: 70 minutos
- Classificação: 14 anos
- Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia)
- Vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/122863
- Mais informações: https://parlapatoes.com.br/ / https://www.instagram.com/parlapatoes/ / https://www.instagram.com/hugopossolo/



