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“Hystera” expõe violência obstétrica em cena no Rio

Uma mulher em trabalho de parto, isolada por um médico que a considera delirante. “Hystera” chega ao Teatro Gláucio Gill até 1º de maio.

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A Cia Les Trois Clés estreou no Rio de Janeiro o espetáculo Hystera, em curta temporada no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, até o dia 1º de maio. Com direção e dramaturgia de Eros P Galvão e apoio da FUNARJ, a montagem parte da história de uma mulher em trabalho de parto — onde cuidado e controle se confundem — para desenvolver uma narrativa visual e sensorial.

Em cena, a personagem é atravessada por memórias e violências, criando figuras híbridas e corpos fragmentados. A encenação tensiona questões como autonomia, maternidade e poder. Inspirado na palavra grega hystéra (“útero”), o espetáculo constrói uma dramaturgia imagética que conduz o público por um universo onírico, articulando teatro de animação, linguagem corporal e música.

Dois anos de pesquisa sobre corpo e consciência

Hystera emerge de uma pesquisa de dois anos atravessada por investigações sobre corpo, imagem e estados de consciência. Seu primeiro desdobramento cênico surgiu na cena curta “República de Aiag”, apresentada em 2023 no Seminário “Caminhos Junguianos – O corpo em movimento”, na Universidade Federal de São João del-Rei.

Ainda em 2023, o trabalho estreou como espetáculo no Circuito Cultural UFMG, em Belo Horizonte. A escuta sensível do público — marcada por relatos de identificação e reconhecimento — atuou como força propulsora para o aprofundamento da obra. Ao longo desse percurso, Hystera se consolidou como uma criação que tensiona os limites entre o íntimo e o político.

Gesto, imagem e silêncio como linguagem

A encenação privilegia o gesto como elemento central, em uma escrita que se constrói para além da palavra. Com forte dimensão visual, o espetáculo convida o público a uma experiência sensorial, abrindo espaço para reflexões sobre silenciamentos, abusos de poder e os estigmas associados ao papel da mulher na sociedade.

A montagem dialoga com os universos de Margaret Atwood, Mary Shelley e Nise da Silveira, especialmente na construção de imagens e na articulação entre arte e subjetividade. A pesquisa ganhou novos contornos a partir da experiência de isolamento durante a pandemia da COVID-19, período em que o contato físico foi abruptamente interrompido.

A dramaturgia nasce de um impulso presente em minha pesquisa há mais de 20 anos: a construção plástica que emerge dos bonecos e da elaboração visual, em diálogo com a música e com a dança.

Bate-papos após as apresentações

Após as apresentações dos dias 16 e 23 de abril, são realizados bate-papos com o público, criando um espaço de escuta, troca e reflexão sobre os temas abordados no espetáculo. A iniciativa reforça o compromisso da companhia com o diálogo entre arte e questões contemporâneas.

Sobre a Cia Les Trois Clés

Eros P Galvão é diretora, dramaturga, atriz e pesquisadora em teatro de formas animadas. Fundadora da Cia Les Trois Clés, criada em 2006 na França em parceria com o artista chileno Alejandro Nuñez, ela desenvolve há mais de duas décadas uma investigação artística que articula corpo, imagem e matéria em cena. É licenciada em Estudos Teatrais pela Sorbonne-Nouvelle (Paris III), formada em Teatro de Animação pela ESNAM (Charleville-Mézières) e em mímica pela Escola de Mímica Corporal Dramática de Paris.

O espetáculo A Gigantea, apoiado pela Amnistia Internacional França em 2014, recebeu o prêmio de melhor espetáculo no Festival de Avignon e percorreu o Brasil em circuitos como SESC Palco Giratório e SESI Viagem Teatral. A artista, que divide sua trajetória entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, retorna à cena carioca com esta montagem ao lado do ator-performer Dirr.


Serviço

"Hystera" expõe violência obstétrica em cena no Rio
Foto: Denise Coelho
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