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Jacinta volta aos palcos e expõe racismo científico na São Francisco

Em temporada gratuita em SP, “Jacinta” revive a história real da mulher negra embalsamada e exibida por 30 anos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

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O espetáculo Jacinta – Você Só Morre Quando Dizem Seu Nome Pela Última Vez, da Cia do Pássaro, reestreia em março trazendo à tona um dos episódios mais violentos do chamado racismo científico no Brasil: a história de Jacinta Maria de Santana, mulher negra cujo corpo foi embalsamado e exibido como curiosidade por quase três décadas na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.

A curta temporada acontece na sede da companhia, o Espaço Cia do Pássaro – Voo e Teatro (R. Álvaro de Carvalho, 177 – Anhangabaú, São Paulo/SP), entre 7 e 29 de março de 2026, com sessões aos sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Não haverá sessão no dia 21 de março (sábado), e no dia 29 de março o público conta ainda com uma sessão extra às 15h.

Memória, apagamento e reparação cênica

Escrita e dirigida por Dawton Abranches, a peça parte do caso real de Jacinta Maria de Santana, mulher pobre e sem ocupação fixa que circulava pelo centro de São Paulo no início do século 20. Após passar mal na rua Dutra Rodrigues, próxima à Estação da Luz, ela foi encaminhada à Santa Casa de Misericórdia, mas morreu no trajeto. Seu corpo, no entanto, não foi sepultado: virou material de estudo.

O cadáver ficou sob responsabilidade do médico-legista e professor de medicina legal Amâncio de Carvalho, que decidiu embalsamar Jacinta e deixá-la exposta na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Ali, o corpo passou a ser tratado como objeto de experimento e alvo de trotes estudantis durante cerca de 30 anos, num retrato brutal de despersonalização e de como a ciência foi usada para legitimar violências contra mulheres negras.

Enquanto Jacinta permaneceu anônima por décadas, Amâncio de Carvalho virou nome de rua na Vila Mariana, um dos bairros mais brancos da capital paulista. O contraste explicita como o apagamento histórico de personagens negras anda lado a lado com a celebração de figuras que sustentaram estruturas de exclusão.

Trilogia do Resgate e protagonismo negro

“Jacinta” é a segunda parte da Trilogia do Resgate, projeto da Cia do Pássaro dedicado a recuperar do esquecimento personalidades negras históricas com trajetórias emblemáticas no Brasil. O primeiro espetáculo, “Baquaqua – Documento Dramático Extraordinário”, abordou a história de Mahommah Gardo Baquaqua, homem africano escravizado que passou pelo Brasil no século 19.

Em cena, a atriz Gislaine Nascimento e o ator Alessandro Marba são acompanhados pela musicista Camila Silva, que conduz ao vivo a trilha sonora no cavaquinho, evocando o universo do samba. A montagem aposta na linguagem do teatro popular, mesclando momentos de alívio cômico com um olhar contundente sobre o racismo estrutural e suas continuidades.

A narrativa é construída de forma poética: enquanto Gislaine conta a história de Jacinta, é observada pela figura de Exu Tatá Caveira (interpretado por Alessandro Marba), entidade que manipula tempo e espaço e viabiliza o encontro simbólico entre atriz e personagem. Esse recurso cênico aproxima o público das camadas espirituais, políticas e afetivas envolvidas na reconstrução da memória de Jacinta.

Racismo científico, eugenia e Brasil contemporâneo

Ao revisitar o caso de Jacinta, o espetáculo estabelece pontes com temas como a eugenia que ganhou força no século 20 e os pactos de poder que seguem moldando o país. A peça também lembra que muitos alunos e ex-alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco estiveram na linha de frente do apoio ao impeachment de Dilma Rousseff, conectando passado e presente na análise das elites jurídicas brasileiras.

Para construir essa dramaturgia, a equipe se apoiou em referências como “O Pacto da Branquitude”, de Cida Bento; “Performances do tempo espiralar: Poéticas do corpo-tela”, de Leda Maria Martins; “Tornar-se negro”, de Neusa Santos Souza; além de estudos de Sueli Carneiro e Rosane Borges. Essas obras ajudam a situar a história de Jacinta dentro de uma reflexão mais ampla sobre branquitude, corpo negro e estratégias de resistência.

O cenário evoca tempos e espaços da universidade, da Calunga e do próprio teatro, recriando um ambiente liminar em que Jacinta pode renascer simbolicamente. Para Dawton Abranches, a ideia de calunga dialoga com crenças de povos bantos e convoca um sentimento próximo à saudade, articulando ancestralidade, luto e desejo de reparação.

Circulação pelo Brasil e acesso ao público

“Jacinta” estreou em setembro de 2023 e já percorreu diversos equipamentos culturais. O espetáculo passou por unidades dos CEUs na cidade de São Paulo, integrou a programação do Projeto PULSAR do Sesc RJ com temporada no Sesc Copacabana e chegou a cidades do interior paulista como Santo André, Araraquara, Franca, Tatuí, Cubatão, Piracicaba e o Sesc Registro.

Com foco em alcançar públicos diversos, a Cia do Pássaro investe em uma linguagem acessível e em políticas de democratização do acesso. A temporada de “Jacinta” em 2026 é totalmente gratuita, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão, e conta com interpretação em Libras em todas as apresentações. O espaço é acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

As redes sociais do grupo, em especial o Instagram @cia_do_passaro, trazem mais informações sobre a programação, bastidores e ações formativas ligadas ao projeto “Trilogia do Resgate”.

Sinopse

Baseado em história real, o espetáculo acompanha a trajetória póstuma de Jacinta Maria de Santana, mulher negra brasileira que, após morrer nas ruas de São Paulo, teve o corpo embalsamado e exibido como curiosidade científica, sendo utilizado em trotes estudantis por quase trinta anos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. A montagem integra o projeto “Trilogia do Resgate”, da Companhia do Pássaro, que busca resgatar do apagamento figuras negras históricas com trajetórias emblemáticas no Brasil.

Serviço

JACINTA – VOCÊ SÓ MORRE QUANDO DIZEM SEU NOME PELA ÚLTIMA VEZ

Duração: 90 minutos

Classificação: 14 anos

Acessibilidade: Libras em todas as sessões

O espaço é acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

Temporada: 7 a 29 de março de 2026

Sessões: sábados, às 20h; domingos, às 19h

Não haverá sessão no dia 21/03 (sábado).

Sessão extra no dia 29/03 (domingo), às 15h.

Local: Espaço Cia do Pássaro – Voo e Teatro

Endereço: R. Álvaro de Carvalho, 177 – Anhangabaú, São Paulo/SP

Ingresso: Gratuito – Retirada de ingressos com 1 hora de antecedência – Lugares limitados

Telefone: (11) 94151-3055

Mais informações: Instagram @cia_do_passaro

Foto: Divulgação

Jacinta volta aos palcos e expõe racismo científico na São Francisco
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