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Luiza Romão traz detetive-defunta ao palco contra o feminicídio

Luiza Romão traz detetive-defunta ao palco contra o feminicídio

Assassinada e descartada pela polícia, Nadine investiga o próprio crime em verso e voz. O espetáculo de Luiza Romão estreia no Sesc Belenzinho em 9 de maio.

Uma jovem chamada Nadine é dopada com flunitrazepam na saída de um bar e assassinada. Por considerá-la uma “vítima não-ideal”, a polícia rapidamente descarta o caso. É ela mesma, já morta, quem decide investigar o próprio crime com a ajuda dos vizinhos do prédio. Esse é o ponto de partida de Nadine, novo espetáculo de Luiza Romão que estreia no Sesc Belenzinho no dia 9 de maio.

Com texto, encenação e performance da própria Luiza Romão, o trabalho adapta para o teatro o livro homônimo publicado em 2022. A obra é uma narrativa feminista em chave noir, com referências ao cinema de Quentin Tarantino e Martin Scorsese, e que posiciona o spoken word como eixo dramatúrgico central.

Uma detetive-defunta investiga o próprio feminicídio

A trama se passa em um prédio de três andares. Após ser assassinada, Nadine reconstitui seu último dia de vida a partir das memórias e testemunhos dos vizinhos e da aliada Lana Juarez. “Nadine é uma jovem terrível: faz barulhos de madrugada, incomoda as pessoas, rouba correspondências dos vizinhos”, explica Luiza. “Por considerá-la uma ‘vítima não-ideal’, a polícia rapidamente descarta o caso e a personagem passa a investigá-lo no pós-vida com a ajuda dos vizinhos.”

A concepção do espetáculo dialoga diretamente com o pensamento da filósofa canadense Cressida J. Heyes. Em seu livro Anaesthetics of Existence, Heyes investiga os traumas e desdobramentos na subjetividade causados por casos de violência sexual em que as vítimas estão inconscientes. “Dialogo principalmente com um texto da filósofa sobre casos de violência sexual em que as vítimas estão dormindo ou sob efeito de substâncias químicas”, afirma Luiza Romão.

O som como presença quase-corpórea

O espetáculo aposta na escuta como forma de resistência ao bombardeamento de imagens do mundo contemporâneo. A paisagem sonora, assinada por Lirinha (José Paes de Lira), é construída com interferências acústicas, depoimentos radiogravados, registros de ambientes públicos e canções originais inspiradas em Serge Gainsbourg e Tom Waits.

A trilha original do espetáculo NADINE é composta por vozes de quase duas dezenas de atrizes e atores convidados e paisagens sonoras que dialogam intensamente com a personagem em cena. São gravações investigativas, diários sonoros dos personagens que moram no mesmo prédio da protagonista, registros de áudios de lugares públicos, depoimentos radiogravados e música construída com ruídos desse cotidiano ficcional.

— Lirinha, diretor musical

Participam com vozes gravadas: Beto Bellinati, Dandá Costa, Daniel Sharp, Eugenio Lima, Ícaro Rodrigues, Maria Costa, Lilith Cristina, Michael Nazarkovsky, Roberta Estrela D’Alva, Rodolfo Dias Paes, Tai Veroto, Verónica Colasanto e Yaissa Jimenez. A peça flerta com a linguagem da radionovela, trazendo participações em várias línguas.

“Ao ouvir um som e não enxergar a fonte emissora dele, cria-se uma sensação de fantasmagoria, algo onírico que atravessa a história de Nadine, essa detetive-defunta”, acrescenta Luiza.

Velázquez, Goya e a vulnerabilidade feminina na arte

A luz e o cenário de Marisa Bentivegna constroem dois universos distintos: o ambiente doméstico, onde a maioria dos casos de violência de gênero acontece; e as salas do Museu do Prado, onde Nadine e Lana Juarez realizam um estudo de campo. Nesse segundo ato, o público acompanha um áudio-guia que apresenta quadros de Velázquez, Goya e Tintoretto — obras em que mulheres aparecem em posições de vulnerabilidade, sono ou sofrimento.

A escolha não é casual. Ela aprofunda a discussão sobre como a representação feminina na arte canônica ocidental reflete e alimenta estruturas de dominação. O espetáculo transforma esse repertório em mais uma pista da investigação de Nadine.

Urgência política em cena

“Estamos vivendo um momento em que a misoginia está escancarada e os casos de feminicídio estão aumentando muito. Nesse cenário, é fundamental ampliarmos os espaços de debate sobre violência de gênero”, defende Luiza Romão. O espetáculo tem duração de 50 minutos, classificação indicativa de 16 anos e alerta para temas sensíveis, como violência sexual e feminicídio.


Serviço


Luiza Romão traz detetive-defunta ao palco contra o feminicídio
Foto: Tamara dos Santos
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