Ícone do site Aurora Cultural

Mamão Papai estreia em SP e expõe prazer, trauma e ausência paterna

mamao papai estreia em sp e expoe prazer trauma e ausencia paterna featured

Mamão Papai chega aos palcos de São Paulo com uma proposta frontal: transformar o reencontro entre uma mulher e o pai em um mergulho nas regiões mais instáveis da memória, onde prazer, trauma, afeto, abandono e violência aparecem sem filtro. Com criação, dramaturgia e atuação de Pâmela Côto e direção de Carla Zanini, o solo estreia no dia 15 de outubro, às 20h, no CCSP – Centro Cultural São Paulo, e depois segue para o Teatro Arthur Azevedo, expandindo um projeto que também inclui ações formativas gratuitas.

Partindo da ideia de que é possível viver como mulher para além do que é socialmente esperado, Pâmela constrói uma peça em que a exposição íntima não busca confissão gratuita, mas confronto. Em cena, a protagonista compartilha vivências eróticas e afetivas enquanto tenta restabelecer algum vínculo com o pai, depois de anos de silêncio. O que se abre, no entanto, não é um acerto simples de contas, e sim um campo de tensões onde as lembranças revelam diferentes formas de violência, sobretudo nas relações atravessadas por figuras masculinas.

Um reencontro atravessado por memórias

Na trama, o ponto de partida é um reencontro familiar caótico e constrangedor. A partir dele, a personagem revisita histórias amorosas, afetivas e sexuais em um fluxo que aproxima dor, humor, vertigem e desejo. A estrutura do solo acompanha esse transbordamento, fazendo da fala uma forma de reorganizar aquilo que ficou interrompido, calado ou mal resolvido ao longo dos anos.

A dramaturgia conta com colaboração de Maria Isabel Iorio e define Mamão Papai como um solo de autoficção que investiga os vínculos entre prazer, trauma e identidade. A protagonista tenta se aproximar do pai ao mesmo tempo em que revisita marcas profundas de sua formação. Nesse percurso, o espetáculo não trata o erotismo como detalhe periférico, mas como parte central de uma experiência feminina que reivindica o direito de desejar, amar e existir com complexidade.

“Mas ela precisa reconstruir essas narrativas e, nessa trajetória, resgata muitas memórias eróticas, que trazem o prazer numa perspectiva ativa, questionando o seu papel social esperado. A peça é uma ode à vida, ao direito de amar, de gozar e de celebrar”, comenta Pâmela.

Esse movimento de reconstrução passa diretamente pela relação entre pai e filha. Segundo a criadora, a personagem tenta romper com uma feminilidade padrão e com um papel de gênero tradicional. Ao expor as próprias experiências “como um grande jorro”, ela também escancara o hiato deixado por um pai que abandona sua função quando a mãe decide se separar. O reencontro, assim, não oferece reparação imediata; ele evidencia o tamanho da ausência.

Violência, prazer e ruptura no centro da cena

Um dos eixos mais fortes do espetáculo está na forma como ele articula prazer e violência sem reduzir a personagem a uma condição de vítima. As memórias afetivas são atravessadas por experiências duras, mas o solo insiste em mostrar que a vida feminina não se esgota no trauma. Ao contrário, a peça faz do erotismo uma força ativa, capaz de tensionar os papéis esperados e de recolocar a personagem no centro da própria narrativa.

Essa escolha desloca o olhar sobre a sexualidade da protagonista. Em vez de tratá-la como consequência do sofrimento ou como tabu, a montagem a apresenta como parte de uma busca por liberdade e plenitude. O solo reflete, assim, sobre amor, sexualidade, masculinidade e identidade, sempre a partir de uma experiência que se recusa a caber em formas prontas ou em respostas simplificadas.

“O texto investiga também a violência em sua dimensão menos óbvia: aquela que se manifesta no silêncio. Em contraponto a esse silêncio, a trajetória da protagonista se revela como um percurso turbulento e intenso, cheio de contradições e afetos, que afirma a possibilidade de existir em plenitude — com tudo o que a vida entrega. E é a partir dessa complexidade infinita que é viver que a montagem percorre essa montanha-russa de sentimentos”, conta a diretora.

A formulação de Carla Zanini ajuda a dimensionar o lugar ocupado pelo silêncio dentro da obra. Não se trata apenas daquilo que foi dito tarde demais, mas também da violência que se instala quando vínculos fundamentais se desfazem sem elaboração. Em Mamão Papai, esse silêncio não paralisa a protagonista. Ele vira matéria de cena, combustível para a fala e ponto de partida para um embate que envolve tanto o passado familiar quanto as estruturas que moldam as experiências femininas.

Um título que fala de ausência e imaginação

O nome Mamão Papai também carrega uma camada simbólica importante. A referência à árvore e ao fruto aponta para uma narrativa que tenta presentificar buracos, dar forma ao que ficou borrado e reconstruir os contornos de uma figura masculina marcada pela ausência. O pai surge como presença incompleta, capaz de provocar amor, raiva e abandono ao mesmo tempo.

Nesse contexto, as masculinidades retratadas no solo assumem um caráter alegórico. Elas não funcionam apenas como personagens isolados, mas como sinais de situações estruturantes das experiências femininas narradas em cena. A protagonista, por sua vez, não se protege atrás de convenções nem preserva distância da plateia: sua exposição é parte constitutiva do espetáculo e da forma como ele organiza o confronto com essas memórias.

Construção cênica e camadas de sensações

A montagem reúne assistência de direção de Giuliana Maria e preparação de elenco de Felipe Rocha. Na cena, o diálogo entre atriz e plateia é explorado como troca intensa, direta e sem filtros, em um registro que combina dor e humor. Esse desenho de encenação amplia a sensação de instabilidade do reencontro familiar e acompanha os desvios emocionais da protagonista ao longo do solo.

A criação visual e sonora também participa ativamente dessa travessia. A iluminação de Sarah Salgado, o cenário de Celina Lira e o figurino de Andy Lopes constroem não apenas o espaço concreto onde a personagem reencontra seus familiares, mas também um “não-lugar” em que as vivências se expandem e se tornam território de delírio. A cena, assim, sustenta ao mesmo tempo o real e a desorganização íntima provocada pela memória.

Nessa mesma chave, a trilha sonora criada por Mini Lamers e as projeções de Julia Ro abrem novas camadas de sensação e lembrança, atravessando passado e presente. Luz, imagem e som compõem um imaginário que se desdobra até o tempo presente e conduz o público pelo universo íntimo e complexo dessa mulher. O resultado é uma cena que acompanha a subjetividade da personagem em suas oscilações, sem buscar estabilidade artificial.

Projeto inclui workshops gratuitos

Além da temporada, o projeto amplia sua atuação com a realização de três workshops gratuitos entre outubro e novembro no CCSP, na Casa de Cultura do Butantã e no Teatro Arthur Azevedo. A proposta é abrir o processo para diferentes frentes da criação artística e aproximar artistas, público e novos profissionais interessados nas artes cênicas.

As atividades abordam dramaturgia, com a escritora Maria Isabel Iorio; produção executiva, com a produtora cultural Thaís Venitt; e direção cênica, conduzida por Carla Zanini. As informações e os links para inscrição serão divulgados no perfil @mamaopapaiteatro.


Serviço

Mamão Papai

Centro Cultural São Paulo

Teatro Arthur Azevedo – Sala Multiuso

Mamão Papai estreia em SP e expõe prazer, trauma e ausência paterna
Foto: Rafaela Guitel
Sair da versão mobile