A artista maranhense Marlene Barros ocupa o CCBB São Paulo com 15 obras que convertem o bordado, a costura e o crochê em ferramentas de crítica social, resgate da memória e reflexão sobre a condição feminina.
Práticas historicamente relegadas ao espaço doméstico e ao trabalho invisibilizado ganham a dimensão de linguagem estética e política na exposição “Marlene Barros: Tecitura do Feminino”. A primeira mostra individual da artista no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo sintetiza mais de quatro décadas de pesquisa dedicadas a investigar o corpo, as cicatrizes e os afetos que atravessam a trajetória das mulheres.
Essa exposição nasceu de uma pesquisa muito íntima sobre a condição da mulher, os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho invisibilizado, os afetos, as cicatrizes e as resistências que atravessam nossas vidas.
A investigação visual de Marlene Barros encontrou novo fôlego durante seu mestrado em Arte Contemporânea na Universidade de Aveiro, em Portugal. Ao propor intervenções em uma construção em ruínas no campus universitário, a artista articulou conexões entre arquitetura, corpo e reconstrução. A partir desse estudo, o ato de costurar passou a operar como um gesto de reparação simbólica, em que o entrelaçar das linhas recupera vínculos familiares e heranças culturais.

Obras tencionam identidade, afeto e o trabalho invisível
Com curadoria assinada por Betânia Pinheiro, a exposição recusa a ordem cronológica para propor um percurso fluido de diálogo material entre esculturas, instalações, bordados e objetos. A instalação “Eu tenho a tua cara” reúne 49 rostos femininos para tensionar as relações entre a identidade e a construção social do indivíduo, enquanto “Caixa Preta” combina fotografias, colagens e escritas em um autorretrato expandido repleto de memórias pessoais.
A dimensão da cura surge no casaco bordado da obra “Coso porque está roto”, que aproxima a costura da reparação do corpo. Em “Entre nós”, o público encontra uma imersão em peças confeccionadas em crochê que ressignificam fazeres ancestrais. Já a obra “Quem pariu, que embale” problematiza a atribuição histórica e naturalizada do cuidado como um encargo exclusivo das mulheres.
A mostra no espaço paulistano dá continuidade a um trajeto que passou por São Luís e Belo Horizonte, como destaca a curadora. Para a gerente geral da instituição, Gabriela Azevedo, a realização do projeto fortalece o compromisso com a ampliação de perspectivas sobre o feminino na contemporaneidade, legitimando expressões que foram marginalizadas pela história da arte.

Ações formativas e trajetória artística
Além da exibição das obras até 25 de janeiro de 2027, a programação do CCBB inclui mediações, oficinas e palestras. Entre as atividades programadas, destaca-se a oficina “Arpilleras de si”, ministrada pela própria artista, destinada a mulheres cis e trans, pessoas não binárias, artesãs e artistas maiores de 18 anos, ao lado de práticas cotidianas de ateliê abertas ao público geral.
Natural de Bacurituba, no Maranhão, Marlene Barros atua também como pesquisadora e produtora cultural. Graduada em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em Artes Visuais pelo Senac, ela coordena o Ateliê Marlene Barros e o Ponto de Cultura Coletivo ZBM, espaços voltados à formação e ao fortalecimento cultural maranhense.

Serviço
- Exposição: Marlene Barros: Tecitura do Feminino
- Período: até 25 de janeiro de 2027
- Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
- Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – São Paulo (SP)
- Entrada: gratuita
- Horário de funcionamento: aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças-feiras
- Oficina “Arpilleras de si”: 12 a 15 de novembro, quinta e sexta das 15h às 18h; sábado e domingo das 10h às 13h (público: mulheres cis e trans, pessoas não binárias, artesãs e artistas maiores de 18 anos)
- Prática de ateliê: sextas, sábados e domingos, das 12h30 às 14h e das 18h30 às 20h
- Informações: (11) 4297-0600
- Estacionamento: conveniado na Rua da Consolação, 228 (R$ 14 por 6 horas, com validação na bilheteria; traslado gratuito ao CCBB das 12h às 21h)
- Van gratuita: saídas da Rua da Consolação, 228, com retorno ao metrô República, das 12h às 21h
- Transporte público: próximo à estação São Bento do Metrô; ônibus nas ruas Líbero Badaró e Boa Vista
- Acessibilidade: entrada lateral à esquerda da entrada principal
- Canais oficiais: bb.com.br/cultura | instagram.com/ccbbsp | facebook.com/ccbbsp | tiktok.com/@ccbbcultura | ccbbsp@bb.com.br